Travessia da Avenida Brasil

Reposicionado no mundo, em virtude do sucesso de suas políticas econômicas e sociais, o País ainda tem modelos mentais internos dominados por guetos como o Shopping Cidade Jardim e o Complexo do Alemão

Jorge Caldeira

N° Edição: 9

Publicado em: 14/01/2013

Categoria: A Revista, Reportagem

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Cartões-postais da zona norte foram sacramentados na série Subúrbia, da Rede Globo. (Foto: Rede Globo/Divulgação)

O Brasil está ocupando um novo lugar no mundo. No início da década de 1990, era a décima quinta economia do planeta. Atualmente é a sexta. Se a mudança fosse para pior, não faltariam explicações, mas, como se trata de uma melhora relativa, ficam as perguntas: vamos passar da depressão de nação vira-lata para a euforia de país civilizado? O Brasil é a bola da vez no mundo?

Não faltam sinais plásticos da mudança. Artistas que produzem artefatos com marca local Brasil fazem sucesso por todo o mundo. Nomes como Vik Muniz, Alex Flemming, Adriana Varejão, Beatriz Milhazes e Os Gêmeos circulam com sucesso variado nas esferas globais de sua arte. Mas há também presença em circuitos bem menos prestigiosos – mas muito movimentados. Paulo Coelho é um dos escritores que mais vendem em todo o mundo (e é levado bem mais a sério no exterior do que em seu próprio país). Romero Britto também não tem problemas de freguesia – eventualmente produzindo ao som de Michel Teló.

Uma sucessão de sucessos

Depois de duas décadas em que a imagem do País só aparecia lá fora no noticiário policial, agora a cobertura também mescla explicações para o relativo sucesso econômico e social. Meio atarantados, jornalistas procuram entender como duas décadas de democracia geraram uma nação muito superior. Tanto melhor, porque ao menos eles pensam com certa seriedade numa série de sinais para os quais pouco ligamos, mas que são relevantes. Entre eles

1) Distribuição de renda. A medida internacionalmente aceita para isso é o chamado Índice de Gini. O índice do Brasil é hoje igual ao dos Estados Unidos.

2) Expectativa de vida. Era de 66 anos em 1991; passou para 73 anos em 2009.

3) Mortalidade infantil. Era de 45,14 por mil habitantes em 1991; caiu para 22,47 em 2009.

4) Escola básica. Em 1991, 23% das crianças com 7-10 anos de idade estavam fora da escola. Em 2009, eram apenas 2%. A grande fábrica nacional de analfabetos foi praticamente fechada.

5) Ensino superior. A porcentagem de jovens na faixa 18-24 anos na universidade dobrou, passando de 6,9% para 13,9% apenas no período 1998-2008.

6) Rede de água. Cobria 73% das residências em 1992. Passou para 85% em 2009.

7) Telefones. Existiam em apenas 19% das residências em 1992. Estavam em 84% delas em 2009.

8) Computadores. Em 2001, apenas 12% das residências tinham um. Em 2009, 35% possuíam o aparelho.

9) Internet. Em 2001, 8% das residências tinham pontos de acesso; em 2009 eram 27,7%.

Não é o paraíso, mas há direção uniforme. O progresso da economia brasileira em relação a outras economias no mundo foi acompanhado de uma constante melhora dos indicadores sociais internos.

Ao longo desse período, o poder foi ocupado por representantes de todos os matizes políticos – sem que nenhum deles alterasse significativamente a direção geral. A combinação de desenvolvimento econômico com melhora de condições sociais foi obra comum de todos.

Agora o principal: se os jornalistas estrangeiros lutam para entender, nós brasileiros mal começamos a nos imaginar como uma nação relativamente unificada e capaz. Os modelos mentais internos sobre “Brasil” são ainda dos tempos da extinta Guerra Fria, seja na vida política (esquerda – Muro de Berlim – direita), seja na social, onde ainda predominam guetos como o Shopping Cidade Jardim ou o Complexo do Alemão.

Vanubia

Em Salve Jorge, a personagem Vanúbia ensina turistas a dançar funk no Morro do Alemão. (Foto: Rede Globo/Divulgação)

Curioso é que a vanguarda de um novo entendimento tenha sido a travessia pela Avenida Brasil – a novela que ligou as duas pontas da cultura brasileira até então separadas. Vai dar casamento? As mentes seguem agora as tramas de Morena, moradora do Complexo do Alemão, e do Capitão Théo, da Polícia Pacificadora, protagonistas de Salve Jorge, na Rede Globo, de olho na utopia de união entre a ordem e a desordem, os ricos e os pobres, o orgulho nacional e a desonra – tudo isso tendo como pano de fundo a costura entre moral e política pelos artífices do Supremo Tribunal Federal. E os cartões-postais da zona norte foram sacramentados na série cult Subúrbia.

O trabalho de construção da estrutura forte está feito. O Brasil conseguiu uma inserção no mundo econômico global, manteve o capitalismo – e conseguiu melhorar constantemente todos os indicadores sociais. Não bastasse isso, conseguiu a proeza de fazer tudo liquidando uma economia desorganizada, com inflação crônica, recessões constantes e queda permanente no ranking das grandes economias mundiais – e criando outra que vem mostrando organização, capacidade de crescer em meio a uma crise global.

Do Tecnobrega às Olimpíadas

Falta agora a cultura, onde as coisas começam a pulular. Remendos de explicação das mudanças, se feitos com as ferramentas mentais da Guerra Fria, só geram paradoxos: o nacionalista Itamar Franco privatizou a estatal-símbolo, a CSN; o social-democrata Fernando Henrique Cardoso governou fazendo aliança com os liberais; o socialista Luiz Inácio Lula da Silva largou seu programa-símbolo, o Fome Zero, para trocá-lo pelo claramente social-democrata (não do partido desse nome, mas no sentido de programa estruturado no emprego das receitas do governo no mercado para gerar gasto social) Bolsa Família.

Muitos ouvintes de tecnobrega agora relembram o Tropicalismo: a geleia geral brasileira é forte e produtiva. Carnavalesca, é certo, mas o desfile das escolas de samba também é um monumento à ordem e os horários rígidos. Precisamos de ambos, porque existe até data marcada para um eventual enlace dos brasileiros entre si – e do mundo com o Brasil. Vem aí a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016. Dois momentos em que a exposição do País no mundo vai conhecer índices inéditos.

Temos até lá para pensar em nosso novo lugar no mundo. Se não descobrirmos uma forma de apresentar nossas virtudes dos últimos 20 anos, vamos vestir em nós mesmos a pecha de inconscientes tropicais – e decepcionar uma plateia altamente interessada.

*Publicado originalmente na #select9.

*Jorge Caldeira é autor e editor, escreveu História do Brasil com Empreendedores (Mameluco Edições) e Mauá, Empresário do Império (Cia. das Letras).

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