Três sins, dois nãos, e um talvez

Leia o texto crítico sobre a exposição Um Sim, Talvez, de Daniela Avelar, em cartaz no Galpão / Funda até 24/9

Juliana Monachesi

Publicado em: 23/09/2022

Categoria: Crítica, Da Hora

Discurso (2022), de Daniela Avelar [Foto; Teresa Siewerdt / Divulgação]

Daniela Avelar é uma artista de muitas palavras. Gosta de empreender experimentações da linguagem escrita no lugar escorregadio das repetições e das tentativas. Sobretudo, dedica-se a conferir materialidade às letras, às frases e às histórias narradas. Neste ponto, a sua pesquisa como escultora (da formação acadêmica) encontra a sua investigação como text based artist (da trajetória no mestrado, doutorado e da militância na arte impressa). 

Essa arte de base textual, designação incomum na arte brasileira, mas corrente em outras cenas artísticas pelo mundo, possui uma genealogia conhecida. Para o autor de The Word Is Art, Michael Petry, a história moderna da relação entre artes visuais e a palavra escrita começa no final do século 19, com o envolvimento de artistas como Toulouse-Lautrec na criação de propaganda de cabarés parisienses. Petry faz uma diferenciação entre as artes gráficas do período, resultado da conexão entre o nascente campo da publicidade e as belas artes, que inclui textos como adendo de informações mundanas à composição artística do pôster, e o uso posterior, pelos cubistas, de fragmentos de notícias e anúncios de jornal, equiparados em importância aos elementos pintados na mesma superfície. 

No primeiro caso, pode-se identificar a linhagem profícua das colaborações entre pintores e o mundo das artes aplicadas; no segundo, inicia-se um dos muitos caminhos de estreitamento de relações entre arte e vida. O autor prossegue com as experiências com texto do futurismo, dadaísmo e suprematismo, que teriam culminado no surgimento da arte conceitual e do readymade. Sem conferir proeminência à narrativa eurocêntrica da arte, cumpre ao menos notar o papel da arte textual nesses dois relevantes adventos das vanguardas históricas: a apropriação (appropriation art) e a desmaterialização (conceptual art). Duas revoluções da linguagem estética do início do século passado têm em comum a irrupção da escrita no purismo da arte. A Traição das Imagens (1929), de Magritte, talvez o enigma predileto da história da arte moderna ocidental, lembremos, é levada a cabo pelas palavras. Quem trai é o texto.

Haveria de se fazer uma genealogia da arte textual brasileira, do concretismo e neoconcretismo até os contemporâneos. Aqui encontramos um dos contextos em que se insere a trajetória de Daniela Avelar. Discurso (2022) é uma instalação escultórica composta de letras pretas de dimensões agigantadas moldadas uma a uma, o que empresta um aspecto artesanal à afirmação contida na obra. “Esperem o que quiserem”, escreve a artista em caixa alta, CAPS LOCK de aparente assertividade que insufla de paradoxos a leitura da frase: devemos ter esperança naquilo que desejamos ou estamos sendo aconselhados a querer aguardar indefinidamente pelo que quer que venha a acontecer? O discurso é um incentivo ao desejo ou uma constatação niilista da espera como fracasso? Aliás, o termo que dá nome à instalação se refere à linguagem em geral ou a um tipo particular de discursividade? Estamos no campo da linguística ou da política?

Percorrer a exposição um sim, talvez é saltar de dúvida em dúvida capturado pelos sentidos escorregadios das frases e palavras corporificadas em cada obra. “Claramente estamos começando a chegar em lugar algum”, vai nos comunicar outra obra, Um Prazer (2022), composta de centenas de pastilhas ordenadas num grid arquitetônico. Nada é de fato muito claro nesse percurso, mas de novo aqui somos confrontados com a esperança a nos pôr em movimento (começando a chegar) e com a espera paralisante (lugar algum). As pastilhas que não contêm letras foram lixadas, conta-me Avelar, ou seja, mais texto foi eliminado na obra do que de fato escrito. Claramente estamos sendo enganados: que outras frases foram apagadas? Quantas palavras em potência desapareceram sob a ação repetitiva de lixar a letra moldada para fazer falar os vazios?

Ainda que a artista seja influenciada pela literatura e a filosofia (George Perec e Maurice Blanchot são referências assumidas), inclui na exposição trabalhos que nos tiram esse chão comum da associação com outras escritas. Nem Todo Pensamento Passa para a Palavra (2022), por exemplo, evidencia um partido estético e político de suspender as certezas sobre a capacidade de comunicar das palavras. A instalação é composta por símbolos retirados de diagramas linguísticos, mas que, isolados das terminologias que lhes dariam um sentido específico, propõem outros jogos ao olhar. Não lemos, vemos apenas. De volta ao campo da decodificação visual, podemos concordar que existe uma diferença fundamental entre o desenho de um objeto que tem significados escondidos e a formalização espacial de um texto, ou podemos considerar que não existe prerrogativa da racionalidade (“a leitura”) sobre a sensibilidade (“a experiência de ver”).

Metáforas e Confiança no Mundo (2022) avança o conhecimento tateante e ambíguo que está posto em questão em um sim, talvez. Um conjunto de quatro definições de utopia gravadas com pirógrafo sobre papel holler e um acabamento em branco que suscita dúvidas sobre o suporte da obra —outra característica que perpassa os trabalhos da mostra— ganha um arranjo em grid sobre a parede que, novamente, inclui os vazios entre as falas materializados no mesmo suporte. Uma “utopia disponível”, por exemplo, é uma utopia acessível, “aquela de que se pode dispor”. Ler todos os textos que compõem a instalação não resulta em nenhuma certeza: a experiência do sim e do talvez se equiparam. Daniela Avelar nos convida a ver a sua arte textual na mesma chave da experiência insondável com que olhamos toda arte que tem algo a dizer, mas que não se traduz em palavras.

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