Jornadas transnacionais

Com a brasileira Daniela Castro no time curatorial, a Trienal de Aichi 2016 tem a viagem criativa como tema

Paula Alzugaray
Daniela Castro, que integra o grupo curatorial da 3ª Trienal de Aishi, no Japão (Foto: Paula Ordonhes)

O projeto da Trienal de Aichi, província localizada no centro no mapa do Japão, demonstra um interesse permanente em refletir as questões do mundo e de nosso tempo. Sob a direção artística do cientista político e fotógrafo Chihiro Minato, que viajou a América Latina a pé e esteve presente nas manifestações sindicalistas em São Paulo, nos anos 1980, esta edição também marca uma forte aproximação com o Brasil. Os brasileiros Laura Lima, João Modé, Mauro Restiffe e Leandro Nerefuh foram selecionados pela curadora Daniela Castro.

Em entrevista exclusiva à seLecT, Castro fala sobre a participação dos artistas brasileiros na Trienal e sobre o projeto curatorial, intimamente relacionado à questão da migração e do eurocentrismo, temas que fazem parte da pauta mundial atual.

Fuga, da artista Laura Lima

Fuga (2008), da artista Laura Lima

O projeto da Trienal de Aichi demonstra um interesse permanente em refletir as questões do mundo e de nosso tempo. Na primeira edição, enfocou as cidades; na segunda, procurou respostas ao desastre. Agora, em 2016, ao trabalhar sob o signo da viagem e das caravanas, se aproxima da questão mais urgente da contemporaneidade: as migrações. Como você relaciona o tema da mostra e a realidade dos refugiados hoje?

Embora alguns dos artistas selecionados para a terceira edição da Trienal de Aichi abordem em seus trabalhos questões relacionadas à política das fronteiras e seus impactos locais e transnacionais – como é o caso das artistas Taloi Havini, de Papua Nova Guiné e Chikako Yamashiro, de Okinawa – o eixo da mostra está mais localizado no interesse pelas empreitadas criativas e intelectuais humanas e na curiosidade que parecemos carregar em relação ao não-humano, um impulso cujo potencial está em conduzir a múltiplas construções culturais, percepções do espaço e formas de relação com o tempo. O número de pessoas deslocadas forçadamente no planeta cresceu muito a partir de 2014 e 2015 (o último censo conta 65 milhões de pessoas expatriadas, o maior número já registrado na história moderna do mundo), depois, portanto, da seleção do tema pela equipe curatorial da Trienal. Assim, o recorte da mostra não aponta apenas para poéticas que lidem diretamente com temas como a imigração e a expatriação urgentes como a dos sírios e curdos (como alguns dos artistas selecionados pela curadora turca Zeynep Öz, que compõe o time de curadores), mas também revela outros pontos de conflitos territoriais. Em linhas gerais, posso dizer que o tema da mostra investiga através dos projetos selecionados as múltiplas construções culturais, que tecem e são tecidas (tensionadas) por uma variedade de subjetividades ativas em suas jornadas transnacionais e auto-reflexivas.

 Stealing the Trapeze (2016), de Charles Lim Yi Yong, artista e atleta de Singapura, que examina a sociedade, a biosfera e a situação política das cidades desde o ponto de vista do mar (Foto: Cortesia do artista)

Stealing the Trapeze (2016), de Charles Lim Yi Yong, artista e atleta de Singapura, que examina a sociedade, a biosfera e a situação política das cidades desde o ponto de vista do mar (Foto: Cortesia do artista)

Nós temos visto um interesse crescente entre curadores e artistas pelas “epistemologias do sul” e estudos que procuram entender o mundo a partir de paradigmas que não correspondem ao das divisões geográficas geradas por uma perspectiva eurocêntrica. Acredita que a Trienal de Aichi se alinha a esse projeto de alguma forma?

Estamos na Ásia. Há aí outras hierarquias de produção de conhecimento e poder em exercício entre os países da região que, por questões históricas, distam significativamente das que conhecemos no ocidente. No entanto, quando se trata da arte contemporânea, o cânone eurocêntrico definitivamente se faz presente. Mas devemos pensar que esse cânone viaja por oceanos e é traduzido para centenas de línguas nativas e escrito em hieróglifos. Ou seja, já nesse deslocamento, ele se transforma e se reconfigura; ou mesmo a tentativa de uma relação autêntica com ele, subsume-o a interesses estéticos e históricos locais. Tendo dito isso, porém, estamos lidando com o velho formato das exposições de grande porte internacionais, sem dúvida. Uma perspectiva menos eurocêntrica – inclusive na seleção dos artistas – é um dos pressupostos desta Trienal. O diretor artístico da mostra, o antropólogo e fotógrafo Chihiro Minato, é uma pessoa que viajou a America Latina a pé e que esteve presente nas manifestações sindicalistas em São Paulo que ajudaram a fundar o PT na década de 1980; sua tese de doutorado foi sobre as mulheres xamãs de Okinawa; foi convidado para dar um curso de estética política para o movimento de ocupação do Parque Guezi em Istambul em 2013… definitivamente é uma pessoa que se interessa por legitimar outras narrativas, inclusive a europeia, mas aqui elaborada pelo olhar do outro.

Qual seria o “idioma” proposto por este projeto curatorial, a fim de promover trocas e comunicações, aproximando viajantes do norte, sul, leste e oeste?

Perguntada a respeito, a equipe em Aichi aponta para a palavra japonesa EN como possível síntese ou idioma da mostra. Entre os múltiplos sentidos de EN (em kanji 縁 / em hiragana えん) estão destino, coincidência, sorte, relação, conexão. Em uma outra perspectiva – complementar talvez à apontada pelos asiáticos -, a centralidade do espaço como protagonista nas relações destacou-se como eixo principal do meu trabalho curatorial.

Night (2016), do fotógrafo brasileiro Mauro Restiffe (Foto: Cortesia do artista)

Night (2016), do fotógrafo brasileiro Mauro Restiffe (Foto: Cortesia do artista)

Como os 5 artistas brasileiros selecionados por seu recorte curatorial contribuem para esta discussão?

Selecionei quatro artistas brasileiros: Laura Lima, João Modé, Mauro Restiffe e Leandro Nerefuh. A quinta artista brasileira presente na Trienal, a coreógrafa Dani Lima – cujo trabalho eu não sou familiarizada – foi selecionada pela curadoria de Performing Arts composta apenas por curadores japoneses. Em Fuga, de Laura Lima, uma espécie não-humana é privilegiada como protagonista da experiência estética proposta pelo trabalho. O público humano é convidado a entrar em um espaço construído para e habitado por cerca de cem pássaros, ocupando um lugar silencioso e exantropocêntrico na relação.

No caso do trabalho de João Modé, o espaço se configura à medida em que a Rede o ocupa – as coordenadas do trabalho não são fixas, assim como as do lugar em que o projeto se dá. Uma espécie de ética do afeto se estabelece entre o artista, o espaço, seus habitantes e obra de arte, criando uma delicada intervenção negociada horizontalmente.

As fotografias de Mauro Restiffe podem ser descritas como flagras que expõe a reação do espaço à presença do artista, trazendo à luz uma ligação afetiva estabelecida entre fotógrafo e espaço no momento da experiência que produziu o trabalho. Assim como o cânone ocidental viaja e se transforma em seu percurso ao Leste, no trabalho de Leandro Nerefuh (Eclipse fenômeno / Achado arqueológico, achado não é roubado), uma nave-som amazônica – objeto que se constitui com influência da cultura caribenha no Pará – é exportada para o Japão. Esse é um trabalho comissionado, como foram as imagens do Mauro Restiffe, e em processo. O impacto da inserção em Aichi como objeto importado (que agrega valor, história e maresia em seu traslado) ainda desconhecemos. Mas suspeito que o que poderá estar em jogo, conhecendo a trajetória do artista, é uma oportunidade de descolonização do objeto de seus preceitos históricos e exóticos. A ver…

Você foi convidada para fazer um recorte de artistas brasileiros, ou a opção de trabalhar com brasileiros foi sua?

Na realidade, o pensamento curatorial não se deu a partir de nações ou lugares, e sim do tipo de relação que cada um dos artistas estabelece com o espaço como “coisa”, ou como “sujeito” em seus trabalhos. Cada projeto selecionado apresenta uma forma singular de transformar o espaço em protagonista nas suas relações com objetos, humanos e não-humanos, e foi sob esta premissa que se construiu o recorte curatorial, que inclui projetos de artistas brasileiros, mas também de países como a Holandesa, Lituânia/Noruega, Argentina, Cuba, México e Irã/Alemanha.

Waltz of the Machine Equestrians - The Machine Equestrians #12 (2012), de UuDam Tran Nguyen (Foto: UuDam Tran Nguyen)

Waltz of the Machine Equestrians – The Machine Equestrians #12 (2012), de UuDam Tran Nguyen (Foto: UuDam Tran Nguyen)

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