Trópico sinuoso

Exposição de pinturas de Burle Marx, em Brasília, reitera o compromisso político e ecológico do artista 

Mateus Nunes

Publicado em: 05/10/2022

Categoria: Crítica, Da Hora, Destaque

Vista de Burle Marx: Botânico Pictórico

Brasília recebe a exposição Botânico Pictórico, composta por obras do artista e paisagista brasileiro Roberto Burle Marx (1909-1994). Inaugurada em 23/9, a mostra segue em cartaz até 29/10 na Casa Albuquerque Galeria de Arte, em parceria com a galeria Almeida & Dale e com o Instituto Burle Marx.

Expoente de um legado paisagístico e pioneiro na operação de um vocabulário visual incontornável, Burle Marx tem seus trabalhos sumarizados na exposição produzidos entre 1939 e 1994, entre pinturas em óleo sobre tela e acrílica sobre tela, croquis à mão livre em nanquim sobre papel vegetal, um desenho técnico de projeto paisagístico desenvolvido por seu escritório e fotografias contemporâneas de suas obras de paisagismo executadas em Brasília, feitas pelo fotógrafo de arquitetura Leonardo Finotti.

Guilherme Wisnik, curador da exposição, objetiva enfatizar a conciliação, no trabalho de Burle Marx, entre vetores usualmente antagônicos: paisagismo e pintura, figuração e abstração. As obras, produzidas em um arco temporal consideravelmente grande, demonstram que a expressão visual característica de Burle Marx – formado pela Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro – era não somente natural ao trabalho paisagístico, mas capaz de lidar com problemas compositivos e matéricos da pintura, de maneira sinérgica e integrada. Acentua, portanto, o desenvolvimento de uma sintaxe visual transdisciplinar, confluente ao pensamento amplo e atento de Burle Marx.

A exposição apresenta trabalhos cuja referência ao gênero da natureza morta é direta, como Natureza Morta – Peixe com Galo e Vaso (1946) e Flores (1939). As obras expostas possibilitam uma leitura sobre o duradouro fascínio de Burle Marx pela botânica, além de sua atenção para as correntes e assuntos da história da pintura, como o próprio tema da representação vegetal e a influência do Cubismo. O pensamento visual análogo à corrente cubista acentua-se na representação espacial: em boa parte das pinturas de Burle Marx, as composições se assemelham a seus projetos paisagísticos, usualmente representados em vista superior, como em uma planta baixa. Já a aproximação ao tema da natureza morta ocorre usualmente em plano frontal, tornando incerta uma definição de perspectiva quanto ao que se observa. É nesse espaço ambíguo entre representações, espacialidades, influências e campos que se aflora a produção de Burle Marx.

  • Vista de Burle Marx: Botânico Pictórico

BIODIVERSIDADE DO CERRADO
Além de conciliar dois campos usualmente afastados por mentes herméticas, Burle Marx possibilita a execução de um sistema visual que, ao mesmo tempo que se abastece de uma ortogonalidade oriunda de um modernismo europeu, se desdobra em curvas e especificidades naturais brasileiras. Um dos pontos mais reconhecíveis de seu trabalho orbita em torno dessa questão: como conciliar uma ortogonalidade habitual da arquitetura moderna (embora saiba-se que a produção brasileira se afasta em alguns momentos dessa retidão cartesiana) e uma efusiva volumetria da fauna e das geografias brasileiras? Como falar da biodiversidade brasileira no cerrado, sendo Brasília uma espécie de amostra institucional do país para o mundo?

Essa interrogação é retomada nas fotografias de Leonardo Finotti, que propõe diálogos entre os traços e volumes dos projetos paisagísticos de Burle Marx para Brasília com as produções arquitetônicas de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa e, no campo escultórico, com a obra Canto da Noite (1968), de Maria Martins, em bronze polido, situado no jardim suspenso do último pavimento do Palácio do Itamaraty.

A exposição também reitera o compromisso político e ecológico em que a prática de Burle Marx sempre foi assente: um diálogo harmônico com a natureza, em combate à visão de consumo extrativista, tão característica do legado modernista e que se perdura na contemporaneidade. “É um chamamento para que assumamos posturas mais responsáveis diante dos recursos do planeta, e do excesso de consumo que sustenta a nossa sociedade”, escreve Wisnik no texto curatorial.

Serviço
Burle Marx: Botânico Pictórico
Curadoria de Guilherme Wisnik
23 de setembro a 29 de outubro de 2022
Casa Albuquerque [SHIS QI 05 bl. C lj. 09 – sobreloja – CL | Lago Sul – Brasília | (61) 99885 1030]
Visitação: de segunda a sexta, das 10 às 19 horas; ao sábado, das 10 às 13 horas.
Entrada gratuita e sem necessidade de agendamento.
Visitas mediadas para grupos de até 10 pessoas serão ofertadas às quintas-feiras, às 17 horas, durante o período da exposição, sob agendamento por telefone.

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