Tuca Vieira entre o visível e o dizível

Fotógrafo lança dois livros que discutem por caminhos opostos a experiência do lugar e da imagem na contemporaneidade

Giselle Beiguelman

Publicado em: 15/03/2021

Categoria: Destaque, Reviews

Atlas Fotográfico da Cidade de São Paulo e Arredores (2021) e Salto no Escuro: Leituras do Espaço Contemporâneo (2021), de Tuca Vieira (Fotos: Giselle Beiguelman)

Para Clarice Lispector, a janela era uma moldura do ar. Para Tuca Vieira, cada enquadramento é uma moldura do olhar compartilhado. Com dois livros lançados simultaneamente, ele faz um contraponto à overdose imagética das redes, colocando a fotografia na escala humana. 

Em Atlas Fotográfico da Cidade de São Paulo e Arredores, livro resultante da exposição homônima na Casa da Imagem (2016), o fotógrafo retoma a arquitetura de informação do Guia Quadro Rodas, que divide a cidade em 203 quadrantes, para reorganizar o imaginário sobre São Paulo. Feitas em grande formato, 4×5, no tripé, as fotos registram mais do que o espaço urbano. Elas registram um ponto de vista que já perdemos.

  • Tuca Vieira (Foto: Giselle Beiguelman)
  • Tuca Vieira (Foto: Giselle Beiguelman)
  • Tuca Vieira (Foto: Giselle Beiguelman)
  • Tuca Vieira (Foto: Giselle Beiguelman)
  • Tuca Vieira (Foto: Giselle Beiguelman)
  • Atlas Fotográfico da Cidade de São Paulo e Arredores (2021), de Tuca Vieira (Foto: Giselle Beiguelman)

Não se trata de discorrer aqui sobre a nostalgia do passado idealizado, lamentando a passagem do analógico ao digital, do digital aos filtros de Inteligência Artificial, clamando pelo retorno à perícia e expertise do suposto olho privilegiado do fotógrafo. Nas imagens de Tuca Vieira não cabem essas banalidades pseudoteóricas.

Trata-se, acima de tudo, de repensar a fotografia e suas relações com o sentido de lugar. Isso transborda a mera localização da coordenada do GPS. Ao capturar os fotogramas em 4×5, Tuca Vieira renuncia ao recorte 9×16, tão comum no celular, que suprime a lateralidade do campo de visão, simulando o olhar aéreo, de cima para baixo.

Paul Virilio comenta, em The Administration of Fear, que a “megaloscopia” contemporânea reduziu o nosso campo de visão. “Quanto mais rápido vamos, mais vemos antecipadamente adiante e perdemos nossa visão lateral.” As telas, comenta o filósofo, funcionam como uma para-brisas no carro: “com o aumento de velocidade, perde-se a profundidade de campo”.

É essa profundidade de campo, construída pela inserção do corpo no espaço, que a fotografia do Atlas coloca em primeiro plano. Afinal, como já aprendemos com Jonathan Crary, em Técnicas do Observador, a circunscrição do olhar à retina é uma operação cara à subjetividade que se consolida com a industrialização. É nesse momento que se impõe a ruptura com dispositivos óticos, como o estereoscópio e o panorama, que mobilizavam o corpo na sua integridade no processo de visualização. 

A autonomia da visão, portanto, não é um atavismo fisiológico, mas o desdobramento da máquina de produção fordista. Daí em diante, não só a linha de montagem atomizaria a percepção da mercadoria integral, como cada parte do corpo passaria a ser relacionada a uma função específica.

É esse conjunto de variáveis que Tuca Vieira coloca em pauta na cidade que atravessa com suas lentes. Para além dos recortes de paisagens periféricas, da deselegância concreta de nossas esquinas, parafraseando Caetano Veloso, que todo um outro discurso sobre o ato fotográfico se enuncia no seu Atlas.

Ele parece ganhar outra vida quando lido em conjunto com seu outro livro recém-lançado, Salto no Escuro, no qual 41 imagens invisíveis dialogam com microensaios sobre a relação entre a imagem e a experiência da realidade contemporânea.

Passeando com desenvoltura pelo cinema, a literatura, a filosofia e o pensamento urbanístico, ele parece nos interrogar como fazer para que as coisas nos olhem?

Novamente, não se trata de apostar no senso comum sobre o excesso de imagens. A overdose imagética é confrontada não pela sua quantidade, mas pela sua qualidade anestésica. Como se emocionar diante de um tsunami, de um bombardeio, de um incêndio quando só nos resta clicar curtir e reagir com um coraçãozinho?

Em Salto no Escuro, a imagem é colocada no centro, porém pelo seu vazio na página. Como se somente pela sua ausência fosse possível voltar a enxergar, recobrando o que o achatamento da imagem digitalizada suprime: a imaginação do que ficou fora do quadro.

  • Salto no Escuro: Leituras do espaço contemporâneo (2021), de Tuca Vieira (Foto: Giselle Beiguelman)
  • Salto no Escuro: Leituras do espaço contemporâneo (2021), de Tuca Vieira (Foto: Giselle Beiguelman)
  • Salto no Escuro: Leituras do espaço contemporâneo (2021), de Tuca Vieira (Foto: Giselle Beiguelman)
  • Salto no Escuro: Leituras do espaço contemporâneo (2021), de Tuca Vieira (Foto: Giselle Beiguelman)
  • Salto no Escuro: Leituras do espaço contemporâneo (2021), de Tuca Vieira (Foto: Giselle Beiguelman)

Impossível não lembrar de Michel Foucault, quem melhor traduziu essa ambivalência entre as palavras e as coisas: “Não que a palavra seja imperfeita e esteja, em face do visível, num déficit que em vão se esforçaria por recuperar. São irredutíveis uma ao outro: por mais que se diga o que se vê, o que se vê não se aloja jamais no que se diz, e por mais que se faça ver o que se está dizendo por imagens, metáforas, comparações, o lugar onde estas resplandecem não é aquele que os olhos descortinam, mas aquele que as sucessões da sintaxe definem”.

É a isso que em última instância esses dois livros nos convocam: ler as imagens, figurar a linguagem.

Salto no Escuro: Leituras do Espaço Contemporâneo
Tuca Vieira
Hedra/N-1 Edições
2021
R$ 60
https://www.n-1edicoes.org/salto-no-escuro

Atlas Fotográfico da Cidade de São Paulo e Arredores
Tuca Vieira
Museu da Cidade de São Paulo/Casa da Imagem
2021
Textos de Guilherme Wisnik, Henrique Siqueira, Marcos Cartum e Tuca Vieira
Distribuição limitada

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