Tunga em Polvorosa

A produção de Tunga parece girar em torno de corpos, pensados a partir de uma lógica alquímica, que na busca da transmutação dos metais inferiores ao ouro encontra uma metáfora para o interesse nas transformações da matéria

Fernanda Lopes

N° Edição: 32

Publicado em: 04/10/2016

Categoria: Sem categoria

Fernanda Lopes é crítica de arte. Autora dos livros Experiência Rex e Área Experimental, e organizadora do livro Francisco Bittencourt: Arte-Dinamite (prelo), atualmente trabalha como Curadora Assistente do MAM RJ (Foto: Cortesia da autora)

Em uma folha de papel, linhas simples, feitas com pastel seco, vão construindo corpos entrelaçados, que de tão próximos se misturam e acabam tendo seus limites confundidos. Contamos três, quatro, cinco, talvez seis ou sete. É difícil contar porque, ao se misturarem, os corpos parecem estar em constante movimento, confundindo o olhar que insiste em fixar a forma. Sem nenhum aviso, pernas viram braços, braços são compartilhados por dois troncos e troncos facetados não deixam claro a qual conjunto pertencem.

A obra sem título da série Desenhos em Polvorosa, realizada por Tunga em 1996 e parte da coleção Gilberto Chateaubriand, MAM-Rio, hoje, 20 anos depois, dá nome à exposição que o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro apresenta, reunindo uma mescla das três grandes coleções que constituem o acervo do museu, com cerca de 400 obras e mais de cem artistas. A partir da mesma obra é possível voltar pouco mais de duas décadas, já que nesse desenho simples encontramos quase um resumo dos procedimentos e interesses de uma obra que começou ainda no início dos anos 1970.

A produção de Tunga parece girar em torno de corpos, pensados a partir de uma lógica alquímica, que na busca da transmutação dos metais inferiores ao ouro encontra uma metáfora para o interesse nas transformações da matéria. Nos trabalhos de Tunga, vemos em grande parte elementos não em formas exatamente definidas, mas em processo, em instantes. Em seus desenhos iniciais, por exemplo, a presença de corpos humanos é recorrente, mas eles, os desenhos, não podem ser definidos exatamente como figurativos, pois esses corpos estão no limite de perder a forma que os caracteriza. Estão entre a figuração e a abstração.

Trabalho Sem Título (1996) de Tunga, parte da série Desenhos em Polvorosa (Foto: Coleção Gilberto Chateaubriand/ Mam-Rio)

Trabalho Sem Título (1996) de Tunga, parte da série Desenhos em Polvorosa (Foto: Coleção Gilberto Chateaubriand/ Mam-Rio)

A ideia de corpo na obra de Tunga ganha uma segunda dimensão, para além da imagem do corpo humano, quando percebemos que materiais e coisas do mundo são encarados pelo artista não como algo dado, estático, mas como algo que o interessa por suas propriedades individuais, e, mais ainda, por sua capacidade de mutação. No filme Ão (1981), um túnel transforma-se em um trajeto constante, um corpo escultórico sem fim (nem começo). E em sua dimensão instalativa, a imagem-luz ganha corpo quando projetor e filme adquirem presença física na sala de projeção. Por fim, talvez as performances sejam onde essa questão dos corpos se apresenta de maneira mais evidente. Nesses trabalhos, atores e público se misturam, em outra experiência do espaço, com os limites de onde começa um e termina o outro se misturando e se sobrepondo.

Em certo sentido, observar o conjunto da obra de Tunga e seus procedimentos ao longo das décadas nos mostra corpos “repletos de movimento”, materiais “muito agitados”, formas “desarrumadas, em alvoroço”, arte “em atividade intensa”. Reafirmam como arte, artista e público talvez devessem se apresentar: como corpos que não se conformam, que não se adequam, que se reorganizam e se definem a todo momento, que não agem como o programado, em polvorosa.

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