Um ano após Mariana

O retrato do que sobrou de Bento Rodrigues, um ano depois de ter sido varrida do mapa por uma catástrofe lamacenta sem precedentes

Lillian Vidigal e Maurizio Mancioli

Publicado em: 04/11/2016

Categoria: Amantes, Da Hora, Destaque, Notícias Quentes

Placas de advertência na entrada de Bento Rodrigues (Fotos: Maurizio Mancioli)

Um ano depois do desastre de Mariana, que inundou Bento Rodrigues e deixou um rastro de lama tóxica que vai do coração de Minas Gerais até a costa do Brasil, e dali para o oceano inteiro, fomos buscar registros imagéticos da realidade do lugar hoje. Sem nenhuma intenção investigativa, especulativa ou de julgamento. No silêncio de arrepio que faz jus ao luto que a visão provoca. Com o devido respeito por cada objeto encontrado, que perdeu sua função corriqueira original para se transformar em registro histórico, relíquia carregada de simbologias ou prova de crime ambiental. Olhar atento. Câmera na mão. Peito aberto ao que viesse. Coragem para observar e absorver. Não nos importamos com as placas de advertência e seguimos em frente. Os funcionários também não ousam tentar nos parar e acenam com a cabeça, sem fazer perguntas. Seguimos até o que sobrou da cidadezinha que foi um dia bucólica, de gente simples, visivelmente correta e trabalhadora, mas sem grandes ambições. Vítimas justamente da ambição de gente nada simples nem correta, numa sucessão de erros, interesses, incompetências, displicências, egoísmos e inconsequências. O que vemos são imagens brutalmente tocantes.

Na estrada de terra empoeirada que se embrenha pelo mato, a vegetação vai rareando, até que um único ponto verde-vivo aparece ao longe, bem no meio da paisagem de lama marrom-morte que vai até o nada-belo horizonte. O pontinho verde é um banheiro químico. Cercado por todos os lados de lama química, bem mais tóxica do que as coisas que geralmente se faz num banheiro. Ao redor dele, se movimentam dezenas de outros pontos laranja-fluorescente. São operários, com seus coletes e capacetes, que trabalham incessantemente tentando limpar algo que ficará manchado para sempre: o nosso planeta (e a reputação de quem deixou que isso acontecesse). Chegando mais perto, se vê que não são dezenas de operários. São centenas. E não param. É muito trabalho a ser feito. E as dezenas de caminhões com os quais cruzamos pela estrada de terra também eram, na verdade, centenas. Esperando em fila. Recebidos por escavadeiras, chegam vazios e saem pesados, levando a lama tóxica para longe, ao som de sirenes de manobra e de motores a diesel, chacoalhando pela estrada. Ininterruptamente, há um ano.

Fica a impressão de que esse reparo gigantesco, junto com o suporte que vem sendo dado às famílias de Bento Rodrigues, deva custar uma verdadeira fortuna. E, ironicamente, foi justamente por avareza que isso aconteceu. O custo da manutenção da barragem, num momento em que tudo ia tão bem, parecia alto demais e contornável. E no momento seguinte, quando tudo deu errado, o preço a se pagar era bem mais alto e absolutamente inevitável. Mas nunca será suficiente para restabelecer as coisas como eram antes. Quem iria imaginar? E quantos outros desastres ambientais estão iminentes por aí, prestes a acontecer, sem que nos demos conta? Do alto da ruela que leva à cidade se vê nitidamente o nível a que chegou essa gana exploradora: a linha marrom entope as privadas, transborda as pias e as caixas d-água. Chega até o fogão da família que foi parar no teto e já não faz mais o feijão. Até o telhado da escola, agora em férias forçadas. Até o alto da prateleira do bar, que não vende mais fiado nem amanhã. Vai até o altar da igreja, que já não traz mais salvação. Levou as cervejas, as velas, as roupas, os brinquedos, os remédios, os cadernos, as chupetas, as chuteiras, os chinelos e os saltos. Levou sonhos, planos, economias e lembranças. Levou casas inteiras. Levou vidas.

A monocromia da lama vermelho-sangue afogou o passado de alegrias coloridas de cidadezinha do interior. Pequenos objetos cotidianos perderam o seu caráter utilitário original e foram envenenados por metais pesados. Tudo permanece ali, petrificado pela Medusa da ambição humana. Parado no tempo, como numa Pompeia contemporânea do terceiro mundo. Sobrou a carcaça da cidade, lavada em lama desumana até a alma. A cidade ficou oca. A sangrenta lama vermelha dá ares macabros até ao mais macio ursinho de pelúcia. Como em antigas fotografias sépia desbotadas pelo tempo, a herança deixada são retratos de memórias e sonhos apagados pelo minério tóxico. E no entanto a natureza-morta insiste em renascer. No meio do horizonte lamacento, o mato começa a surgir por entre as ruínas, lembrando que amanhã há de ser outro dia.

Maurizio Mancioli (foto): Nasceu amante da fotografia, na Suíça. Enveredou-se pelo mundo corporativo e radicou-se no Brasil nos anos 90 para fundar a Business School São Paulo. Depois de vender a operação para um grupo internacional, passou a se dedicar integralmente à fotografia, às artes plásticas, às performances e ao estudo do pensamento complexo. Vencedor de editais, já expôs em galerias do Brasil e do mundo. Embora não seja fotógrafo documental, traz seu olhar polido das artes para registrar realidades belas ou brutais de forma única e tocante.
Lillian Vidigal (texto): Não é jornalista, embora adore se embrenhar em aventuras para depois contar a história. Está à frente da Lift Branding & Design desde 2001 e, quando algum assunto a interessa, banca a “enviada especial”. Foi colunista de vinhos da Revista Alfa, fez matérias de capa da Revista Viagem & Turismo e foi correspondente do Estadão durante o festival de Cannes. Foi indicada para o Prêmio Abril de Jornalismo com uma matéria sobre caça e sustentabilidade no Zimbábue. Escreve sobre Arte, Comportamento, Gastronomia e Turismo também para outros veículos.

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