Um lance de dados jamais abolirá o acaso

Curadoria de Mario Gioia investiga as contradições legadas pela arquitetura moderna brasileira

Juliana Monachesi

N° Edição: 26

Publicado em: 16/11/2015

Categoria: A Revista, Review

A arquitetura das lojas populares é retratada na pintura Real Estate (Lojão, 2014), de Geraldo Marcolini (Foto: Gui Gomes/Divulgação)

Uma arquitetura significa outra arquitetura, já postulava Décio Pignatari ao inventar uma semiótica da arte, da arquitetura e do desenho industrial em sua tese de livre-docência, em 1979. O exemplo inaugural do concretista é a cadeira Rietveld (1918), que pressupõe nela todas as cadeiras anteriores e muitas que a sucederiam. Por uma dessas coincidências da vida institucional, a exposição Ter Lugar para Ser ocorre ao lado e concomitantemente à mostra Arquivo Décio Pignatari: Um Lance de Dados, que reúne obras e documentos do espólio do intelectual no Centro Cultural São Paulo. O feliz acaso é um convite à reflexão.

O curador Mario Gioia selecionou obras de Caio Reisewitz, Chico Togni, Clara Ianni, Felipe Cama, Geraldo Marcolini, Leonardo Finotti, Lucas Simões, Luiza Baldan, Martinho Patrício, Polyanna Morgana, Rodrigo Sassi e Vivian Caccuri para compor seu recorte curatorial acerca das relações entre arte e arquitetura na produção contemporânea. O foco principal de investigação são as contradições legadas pela arquitetura moderna brasileira: como esta resiste ao tempo, 60 anos depois, e como se vivencia, hoje, o paradoxo entre um programa urbanístico arrojado e um país de contrastes sociais inaceitáveis.

Uma imagem recente do Palácio da Alvorada, em Brasília, obra da Série América Latina #001 (2007), de Finotti, sintetiza as ambiguidades relativas ao tema contrastando a imensidão do céu acachapante do Planalto Central com o espremido horizonte urbanístico ocupado por um diminuto centro do poder nacional. Das raras ampliações em cor de Finotti, a foto espelha, na expografia de Ter Lugar para Ser, a única outra obra bastante colorida do conjunto, a pintura Lojão (2014), de Marcolini – tela que “diz muito sobre essa arquitetura vulgar hoje dominante”, explica Gioia, em entrevista à seLecT. “O lojão é um não lugar clássico, sem gente, com formas iguais a qualquer coisa, que se choca com o CCSP, tão particular.”

Infelizmente, o espaço destinado à mostra é muito pequeno para o conteúdo proposto. Os trabalhos de Rodrigo Sassi, por exemplo, parecem desconectados dos demais, expostos literalmente fora da sala. Estivessem em diálogo e tensão com as outras obras, seria um ganho significativo para o conjunto. O curador alega que pretendeu expor as esculturas do artista em situação oposta àquela em que outras foram mostradas na individual de Sassi no Centro Cultural, em 2014. Uma arquitetura significa outra arquitetura e, já dizia um dos heróis de Pignatari, o poeta francês Stéphane Mallarmé, um lance de dados jamais abolirá o acaso.

Ter Lugar para Ser até 22/11, Centro Cultural São Paulo, Rua Vergueiro, 1.000

*Publicado originalmente na #select26

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