Um museu de grandes novidades (velhas)

Giselle Beiguelman

Publicado em: 28/01/2013

Categoria: ensaio, Reportagem

A cultura pop celebriza o passado na música, na moda, no design, na arquitetura e no entretenimento, transformando o momento em monumento ao presente que não foi

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Legenda: O legendário Sgt. Peppers.

Jovens de 20 e poucos anos histéricas para ver Paul McCartney. No carro, o rádio anuncia prêmios para quem tirar a melhor foto inspirada na capa de um dos discos dos Beatles. Outra estação toca, em sequência, uma nova – mais uma – versão de To Sir With Love (música tema do filme Ao Mestre com Carinho, de 1967) e depois uma novíssima regravação de Can’t Take My Eyes Off You. Sucesso original de 1967, foi regravada por Diana Ross, Gloria Gaynor, Julio Iglesias e remixada nos anos 1990 pela banda Pet Shop Boys e sabe-se lá quantos mais… Logo depois, começa a tocar a trilha ícone do desespero 1980, The Smiths, também regravado, pelo seu eterno vocalista Morrissey.

Outras bandas ressurgem com ídolos uva passa, por vezes esticados com algumas gotas de Botox. Nem sempre. Muitos parecem trazer nas fotos todas as marcas do tempo, em barbas e bigodes esbranquiçados pelos anos de várias décadas. A compensação? Ver as fotos de nossos ex-novos-ídolos, quando eram bem mocinhos e mocinhas, estampadas em caixas de CDs para colecionador. Aquela tal box de Natal que vai fazer o papai recordar todas as trilhas de sua época e o filhinho inventar as suas. No meio disso tudo, pode apostar, tem “aquela” que ninguém nunca ouviu nem vai lembrar. Melhor que isso só os tais cults que saem em LPs. Grandalhões e “muito superiores” aos CDs. Basta ter um toca-discos em casa. Se não tem, compre ou encontre um tocador de mp3 retrô. Dá na mesma. Agora, se for para arrasar mesmo, o melhor é achar um com cara de toca-fita. Tem aos montes na internet. Corta para o cinema e a televisão. Filme sobre a Tropicália traz cenas de arquivo raras. “É quase um documentário de época”, diz o diretor Marcelo Machado.

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Legenda: Imagem do filme Tropicália. (Reprodução)

Sonho de consumo da molecada é comprar uma Lomo analógica no Natal. Quem pode, pode. Quem não pode, que meta um filtro tipo Polaroid no seu Instagram. Se der sorte, pode até embrulhar seu celular com um case irado de fita cassete – só quem não viveu o suplício dessas geringonças que enroscavam e se partiam pode ter saudade disso – ou de Leica.

O blog Next Movie anuncia que estão previstos para 2013/2014 nada menos que 50 remakes de filmes hollywoodianos de sucesso. Entre eles, Carrie a Estranha (1976), Robocop (1987) e Dirty Dancing (Ritmo Quente, 1987). Até Barbarella (1969), com substituta indefinida para a diva Jane Fonda, vai voltar. E também alguns clássicos, como Os Sete Samurais (Akira Kurosawa, de 1954), Os Pássaros (Alfred Hitchcock, de 1963) e Nasce uma Estrela (eternizado pela versão com Judy Garland, em 1954, mas que já foi filmado três vezes – uma antes, em 1937, e depois, em 1976). Nesse, verdadeira obsessão do remake, agora com direção de Clint Eastwood, Beyoncé chegou a ser cotada para ser a mocinha que sonha ser artista. Anunciou recentemente que não o fará. Alguma outra bombshell a substituirá com toda pompa. E ainda tem a continuação da série Star Wars prevista para chegar aos cinemas em 2015.

Esquina do passado

Séries e novelas de televisão são reapresentadas em “novas” versões a rodo, de Hawaii Five-0 a Guerra dos Sexos, passando por Dallas, Chiquititas e Carrossel, um tsunami de imagens de antigamente invade a grade da tevê aberta e a cabo, em diferentes horários e em diversos lugares. E assim Gabriela volta, toda cravo e canela, e o remake de O Astro ganha prêmio no Emmy. O Led Zeppelin reúne-se outra vez e os Beach Boys mostram que ainda dão um caldo, embalados numa surfing Califórnia que nunca foi governada – duas vezes – por Arnold Schwarzenegger.

Em que século estamos? No 21, uma esquina do passado em que lambretas, milk-shakes, bananas-split, cadeiras pés-palito e até baby bliss fazem sucesso em busca da saudade de um passado não vivido. Tem calça jeans toda rasgada e estropiada, que você compra hoje para parecer que usa desde os anos 1960, apesar de ter nascido nos anos 1990 e bem poucos. Têm carros da era quase pré-mecânica e até, acredite, frigobar colorido. Entre fuscas que viraram “beetle”, Mini Coopers, Fiat 500 e Chrysler PT Cruisers inspirados no modelão célebre dos anos 1930, o design retrô se impõe e ganha fiéis seguidores.

Curadores-arquivistas


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Legenda: Poster de Barbarella.

Difícil discordar do crítico britânico Simon Reynolds, quando afirma, em Retromania: Pop’s Culture Addiction to its Own Past, que “ao contrário de ser sobre si, os 2000 são sobre todas as décadas anteriores, acontecendo de novo, de uma só vez”. Inaugura-se um novo tempo: o do presente que não foi. É tudo “re” (remakes, regravações, reedições, revivals) e está tudo à venda. Inclusive no cartão. Em dez vezes sem juros, ou mais. Uma brasa, mora? Tudo isso acompanhado de muita cozinha de fórmica ressuscitada, penteados rockabilly e hippies e punks de butique de todas as raças, gêneros e nacionalidades. Nem a praia escapará dessa invasão. Vai ter muito lacinho, bustiê armado com quilômetros de bojo, maiô inteiro e duas-peças de deixar sua avó com inveja. É, ao menos, o que desejam os estilistas mais in. De Marc Jacobs a Amir Slama, está todo mundo apostando no bye-bye fio-dental. Mais um sopro de conservadorismo travestido de fashion trend?

“A vanguarda tornou-se retaguarda”, afirma Reynolds. “E no lugar dos inovadores, o que temos agora são curadores-arquivistas”, diz. Afinal, nunca o passado nos foi tão fácil de acessar. Está a um clique de distância de nossas mãos. A esse respeito, Kenneth Goldsmith, editor e curador do site Ubuweb, um dos maiores acervos online de arte experimental e cultura contemporânea, diz: “Os modos como a cultura é distribuída e arquivada tornaram-se profundamente mais intrigantes do que o artefato cultural em si. O que experimentamos é uma inversão do consumo, uma vez que passamos a nos envolver de maneira mais profunda com atos de aquisição do que com o que estamos adquirindo; ou a preferir as garrafas ao vinho”.

Cenarização do passado

O problema não é a preservação do passado, mas a transformação do momento em monumento a-histórico e em objeto de consumo fácil. “Antigamente, as mercadorias faziam promessas, sobretudo com o futuro. Hoje, toda uma classe (predominante) de mercadorias existe para inventar uma história, um tempo perdido de intimidade e estabilidade, de que todo mundo afirma se lembrar, mas que ninguém teve”, escreveu o crítico norte-americano T. J. Clark. No ensaio O Estado de Espetáculo (2005), pergunta ainda o que significa todo esse aparato de fabricação do passado, “senão uma tentativa de expulsar da consciência a banalidade do presente?”. Em tempos de aceleração tão vertiginosa do cotidiano, parece que a única alternativa é “criar outro presente para ocupar o lugar do que foi expulso”, diz.

Não se trata apenas de um vazio do presente. Umberto Eco mostrou, em um best seller dos anos 1980 – Viagem na Irrealidade Cotidiana –, que esse tipo de movimentação pavimentava também “uma filosofia da imortalidade enquanto duplicação”. Como se não pudéssemos conviver com o passado e só fosse possível fazer sua cópia, não sua preservação pela memória. Não se pode deixar de notar o quanto isso fomenta uma abordagem temática das instituições e espaços de convívio, que consolidam a cenarização permanente do passado na forma de arquitetura.

O professor de pesquisa social da Universidade de Loughborough (Inglaterra) Alan Bryman explica, em A Disneyficação da Sociedade (2004), que o processo “retromaníaco” tem razões econômicas. Em um estágio do capitalismo dominado cada vez mais por serviços semelhantes, a economia passa a funcionar como “economia de experiências, em que os consumidores buscam serviços que os entretenham e sejam memoráveis. Do ponto de vista dos prestadores de serviços, eles sabem que muitos consumidores estão se cansando dos serviços e ambientes padronizados que encontram o tempo todo. A tematização ajuda a diferenciar um serviço, ou contexto, dos demais”.

O resultado é a disseminação do espírito de Las Vegas em mares nunca dantes imaginados. Você pode ir para Paris e, além de conhecer o Louvre, transportar-se, como em um passe de mágica, ao reino encantado de Walt Disney, sem sair do Velho Continente. Basta escolher um hotel, como o Cheyenne, e você já estará no “lendário Velho Oeste” – norte-americano, of course – apesar de estar na Europa no século 21. Se não apetecer, pode escolher o Santa Fé, que promete “noites estreladas do Novo Mundo entre conquistadores espanhóis e índios americanos”. Imperdível.

Emerge daí um presente não necessariamente assombrado pelo fake e pelo vintage, mas um processo de esvaziamento da história, em que ao passado cumpre apenas a função de fornecer uma capa divertida ao presente. Restaura-se tudo, de GIFs animados – tecnologia de animação da primeira época da internet – a filmes clássicos e blockbusters, a estéticas do VHS e games populares dos anos 1980, como o Atari. Entre lixos e obras-primas, fica a pergunta: do que sentiremos saudade no futuro, se o nosso presente é pura “re”produção do passado?

*Publicado originalmente na edição impressa #9.

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