Um sussurro suave

Exposição em Taitung aproxima arte e política do Brasil e de Taiwan, por meio do encontro e diálogo das obras de quatro artistas 

Camilla Rocha Campos

Publicado em: 28/10/2022

Categoria: Da Hora, Destaque

Rooting Words Plants (Enraizando Palavras Plantas), de Camilla Rocha Campos [Foto: Cortesia da artista]

“Por favor, liberte nossos pés e pele
Por favor, abra nossa respiração bem aberta
Por favor, aconchegue-se contra o nosso peito e coração e ouça diretamente a profundidade da terra
No fundo, as histórias fluem animadas à medida que são contadas”
[Trecho de The Land Never Belongs, de WU Sheng]

Ao longo de oito meses, as artistas brasileiras Camilla Rocha Campos e Gabriella Marinho e as artistas taiwanesas Yen-Ting Hsu e Shu-Lun Wu se reuniram e compartilharam seus trabalhos e processos artísticos para que somassem suas habilidades e percepções a um novo projeto conjunto. O projeto Taiwan Brasil Art Exchange Program aconteceu nas cidades do Rio de Janeiro, Taipei e Taitung, culminando na exposição intitulada The Whisper Beneath – Um Suave Sussurro, inaugurada em agosto na capital taiwanesa.

A colaboração para a realização do projeto bilateral é uma iniciativa conjunta entre o instituto 0101 Art Platform, associação de arte brasileira que tem como foco o apoio e desenvolvimento da arte afro-diaspórica, e a Taipei Artist Village | Treasure Hill, instituição pública taiwanesa que fomenta a troca internacional de artistas com o intuito de difundir e fortalecer movimentos culturais. A exposição ocorre no bairro de Treasure Hill, um morro arborizado no coração de Taipei, que teve sua primeira ocupação territorial na década de 1940 pelo governo da China, como lar temporário de soldados chineses que serviram ao país na Segunda Guerra Mundial. Hoje, com aproximadamente 20 estúdios para receber artistas do mundo inteiro em residências artísticas, o local se mantém como espaço acolhedor e de passagem, pronto para combinar e oferecer imagens que presumem paisagens, costumes e valores.

Portanto, a chegada à exposição começa assim: uma breve caminhada pela floresta que cerca o pé do morro e que nos leva a Treasure Hill. Pelas escadas das vielas que se assemelham às comunidades do Rio de Janeiro, o cenário cria semelhança e gera conforto. Ele também traz, como nas histórias das nossas favelas, a vontade de territorializar os pés a cada passada e de abrir escuta profunda para coisas que não são ditas, mas que estão ali. E, assim, o ponto de partida mostra-se encruzilhada, e as semelhanças que poderiam ser fabricadas encontram-se, na verdade, imbricadas em histórias de oralidades que contam sobre Taiwan e sobre o Brasil. Lugares que não se apresentam sem uma coleção de imagens clichês, mas que se desenrolam e que aprenderam a partir de suas histórias e estratégias de sobrevivência a importância do sussurro como método de aprendizado e convivência frente a contextos de repressão e violências sociais. Tanto o programa quanto a exposição são sobre isso.

Rooting Words Plants (Enraizando Palavras Plantas), de Camilla Rocha Campos [Foto: Cortesia da artista]

Camilla Rocha Campos, artista mineira, abre visualmente a exposição com a escultura intitulada Rooting Words Plants (Enraizando Palavras Plantas), na qual de uma pequena pilha de livros nascem três pequenas espadas de São Jorge com suas pontas cobertas de wagi (pó azul utilizado para limpeza espiritual). A escultura representa de dentro das palavras dos livros o surgimento da planta em forma de ponta de lança – espada – que aponta para cima e para frente enquanto sua raiz se estabiliza nas narrativas das histórias orais da terra, agora escritas em livros. Conectada por camadas de tecidos, como folhas de papel ou ondas constantes do mar, a raiz das palavras atinge um grande vaso com mais espadas de São Jorge, planta que é tão popular no Brasil quanto em Taiwan, e que carrega em sua forma, assim como os livros, lendas de conhecimento, força, proteção e prosperidade.

Gabriella Marinho, artista de São Gonçalo, é especialista em cerâmica. Para a exposição, ela pesquisou processos de queima, manipulação e uso do barro em diferentes estúdios de Taipei e Taitung. A solidez com que a artista trabalha a terra está na escultura intitulada Rocky Stone Sea (Mar de Pedra Rochosa). Considerando o traslado do Rio de Janeiro para Taipei, ela incorpora terras, pedras e conchas dos dois lugares, equilibrando em suas esculturas os materiais que viajam no tempo para além das pessoas: o mar, a terra, a pedra. Gabriella sublinha a importância da conexão a partir da matéria que carrega valor e força de tempos antigos e que segue, sem palavras, ensinando sensivelmente a nós pelo tato, pelo balanço.

  • Rocky Stone Sea (Mar de Pedra Rochosa), de Gabriella Marinho [Foto: Cortesia da artista]
  • Rocky Stone Sea (Mar de Pedra Rochosa), de Gabriella Marinho [Foto: Cortesia da artista]

A exposição apresenta, para além das decisões políticas que definem Brasil e Taiwan, a definição de pontos comuns de tempos anteriores a esse no qual vivemos: o significado das plantas em cada uma dessas culturas, a transmissão e percepção de valores relacionais que envolvem a terra e território, bem como as histórias que são contadas, recontadas, repetidas e modificadas para que o sentido do mundo em que vivemos esteja mais presente com relação ao tempo e ferramentas que temos para lidar com ele. E é precisamente nesse lugar que os 4 trabalhos apresentados pelas 4 artistas se encontraram.

Deity. Prophecy. Dream (Divindade. Profecia. Sonho), de Shu-Lun

Shu-Lun também trabalha com cerâmica e, diferentemente de Gabriella, usa suas esculturas de barro para trazer o formato de utensílios do cotidiano, como pratos e copos, formando uma pequena instalação em oferenda, intitulada Deity. Prophecy. Dream (Divindade. Profecia. Sonho). Para Shu-Lun é importante estabelecer com seus objetos a relação direta de símbolos ligados aos seus ancestrais Makatao, grupo indígena com forte conexão ao território. A artista nasceu e vive no sudeste de Taiwan. Longe da capital, ela cultiva o tempo de se relacionar com sua comunidade e apoiar não somente sua própria produção artística, mas também a história estética e ética de outros povos indígenas que, antes das invasões japonesas e chinesas, já moravam no Pacífico asiático. Portanto, seu trabalho é um presente às divindades que profeciam e nos fazem sonhar. No presente, ela reverencia o passado e coloca no mundo elementos da natureza organizados em conexão com aquilo que há muitos anos está ali, com terra, folhas, bebidas e coletividade.

Deity. Prophecy. Dream (Divindade. Profecia. Sonho), de Shu-Lun

Já Yen-ting é uma artista que manipula o som. Nascida e criada na capital de Taiwan, ela traz o sussurro em forma de narrativa e gera, com sua instalação composta por uma rede de pescadores e objetos simbólicos do taoísmo e do candomblé, um ambiente de mergulho e simbiose entre ambas as culturas. Yen-ting pesquisou em sua residência no Rio de Janeiro as histórias de Iemanjá e Ogum que, somadas às histórias de Oazomu e Chen Jing-Gu, deus e deusa chineses, compõem memórias de força e intuição que se espalham por toda a exposição. Sua instalação, que leva o título de Catching Dreams (Apanhador de Sonhos), aumenta as dimensões do pequeno objeto que em ambas as culturas previne que maus espíritos se aproximem de nós enquanto dormimos. A rede, os objetos e as histórias se apresentam em português e mandarim enquanto visualmente abrem o olhar para além da linguagem oral.

Catching Dreams (Apanhador de Sonhos), de Yen-ting

A exposição apresenta não apenas a elaboração curatorial do projeto, como elementos de conexão entre as obras: é evidente que o tempo largo do programa e interação entre as artistas, por meio de encontros online, viagens, visitas a espaços de arte e conversas, levou a um outro patamar a visualidade que abraça a exposição. Há uma noção de tempo, portanto, que roda todas as obras suavemente em objetos, plantas e sons.

Finalizada em setembro, a exposição segue agora para Taitung, cidade no sudeste de Taiwan com grande população indígena, em articulação com o Taiwan East Cost Land Arts Festival e a Taitung Dawn Artist Village. A abertura acontece amanhã, 29/10, no Moonlit Sea Café, e as obras poderão ser vistas até dia 30/11. Em movimento, as obras continuarão a contar como nossas conexões com o mundo antevêem e presumem paisagens, costumes e valores. De algumas delas sequer sabemos a origem, já outras nos são passadas pela fé ou histórias antigas, e seguem chegando a nós como sussurros.

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