Uma bienal outsider

Paula Alzugaray

Publicado em: 17/04/2013

Categoria: Especial 31a Bienal de São Paulo, Reportagem

Além de trazer para a 31ª Bienal sua expertise sobre Ásia, Oriente Médio e Leste Europeu, o curador escocês Charles Esche terá como desafio reinventar a bienal em um sistema dominado pelo mercado

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Curador Charles Esche no prédio da Bienal. Foto: Sofia Colucci.

O curador da 31ª Bienal de São Paulo se apresentou ao Brasil na manhã de quarta feira 17 como um “outsider”. Diretor do museu Van Abbe, em Eidhoven, Holanda, Charles Esche afirma não conhecer a cena artística brasileira “muito bem”. Mas ele é, sem dúvida, um especialista em bienais. Nos últimos dez anos, Esche esteve à frente de bienais na Turquia, Palestina, Eslovênia e Coreia do Sul e promete aportar à Bienal de São Paulo um pouco de seu conhecimento dos contextos da Ásia, do Oriente Médio e do Leste da Europa. 

Charles Esche estava entre os cinco profissionais convidados pela diretoria da Fundação Bienal a enviar um projeto para a próxima exposição, a ser realizada em 2014. Ele foi escolhido com um projeto aberto, sem um “tema controlador”, ou leitmotif, porém com alguns comprometimentos claros. O primeiro deles, pensar o papel da imaginação na sociedade. “Estamos em um momento de falta de imaginação e a arte é uma das principais formas de injetar imaginação na sociedade”, disse. 

O segundo comprometimento é tomar a cidade de São Paulo como tema. “Nosso trabalho como time é investigar e tentar entender a situação local”, diz ele. A estratégia, para isso, será investigar relações entre cidadãos e comunidades locais e a partir delas estabelecer conexões e relacionamentos com o projeto curatorial. A observação do modernismo como um período histórico passado será um terceiro eixo do projeto. “Trabalhar neste edifício é o sonho – ou o pesadelo – de qualquer curador. 

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Charles Esche ao lado do presidente da fundação bienal Luis Terepins e do presidente do conselho Justo Werlang durante coletiva de imprensa. Foto: Sofia Colucci

Esta será a primeira bienal sem que Niemeyer seja uma presença viva. Até o ano passado, este edifício era um monumento vivo, hoje é um monumento histórico”, disse Esche, anunciando o início de uma pesquisa sobre os usos da arquitetura moderna do edifício ao longo das bienais e, com isso, observar o desenvolvimento do pensamento modernista. “O modernismo acabou. Na Holanda, no Japão ou no Brasil”, reforçou ele.

Embora tenha apresentado uma carta de intenções aberta às influências de uma pesquisa de campo ainda a ser iniciada, o maior desafio de Charles Esche será, indubitavelmente, aplicar na Bienal de São Paulo o trabalho que ele vem realizando em outras cidades do mundo: repensar o papel dos museus e das bienais na sociedade hoje. 

Muito além dos números

“Vivemos em uma sociedade controlada por números. Mas números não dão conta de quantificar a função da arte nem de descrever a condição humana”, diz o curador, que afirma pretender contrabalançar a influência que números assumiram em nossas vidas com uma ênfase sobre as emoções, as crenças e a imaginação. 

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Charles Esche visita o parque do Ibirapuera. Foto: Sofia Colucci 

Em sua proposta de “pensar além dos números” e em sua defesa de valores imateriais, Esche parece querer criar um projeto de resistência à omnipresença do mercado, buscando revitalizar a bienal demarcando suas diferenças em relação às feiras de arte.“A palavra resistência implica em uma guerra e não estou declarando guerra. Mas afirmo que há valores da sociedade que estão em crise. Uma crise produzida pela vitória do mercado”, afirma Esche em resposta à pergunta de seLecT. 

“O que temos que pensar a respeito é como podemos rebalancear nossas relações com a economia, a política e a cultura. Esses são os três pilares de nossa sociedade. Quando um deles se torna predominante, as coisas vão mal. Se a economia é predominante, temos a ditadura dos números, mas não podemos jogar a economia fora, temos que restabelcer proporções”, diz ele. 

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