ArtRio: Uma feira de arte horizontal

Abertura presencial da ArtRio tem modelo enxuto e movimenta a economia dos trabalhadores na base do sistema da arte

Leandro Muniz

Publicado em: ANO 09, Nº 48, Set/Out/Nov 2020

Categoria: Da Hora, Destaque, Mercado de Arte, Notícias Quentes

Vista geral da ArtRio 2020 (Foto: Leandro Muniz)

Em sua versão presencial, na Marina da Glória, no Rio de Janeiro, a feira ArtRio aposta em um modelo mais compacto, que possibilita um tempo mais alargado de visitação em cada stand, e volta a movimentar a economia dos trabalhadores da base da pirâmide do sistema da arte, como os montadores, marceneiros e iluminadores. A decisão de abrir a feira física em tempos de pandemia, além de motivada pelo aval sanitário, também veio de encontro às comemorações de dez anos do evento. “Estávamos planejando uma grande festa, mas veio a pandemia”, diz Brenda Valansi, diretora da feira, à seLecT. “A decisão de abrir presencialmente veio a partir de uma enquete feita em julho com as galerias participantes do evento. 60% toparam e só estávamos esperando a autorização do governo, que veio agora no início de outubro.”

Na condição de primeira feira física do ano no país, o clima nos corredores oscilavam entre a euforia e a precaução, nesta quarta 14, dia de abertura para convidados. Muitas galerias de peso, como a Triângulo e a Luciana Brito, por exemplo, só participam da edição online e, entre aquelas que compareceram no evento físico, algumas, como a Continua e a Athena, viam como inevitável e necessária a reabertura após sete meses de atividades puramente remotas, tanto por demandas de mercado, quanto psicológicas, ainda que com ressalvas sobre a aglomeração de pessoas. 

Para um dia de preview, em plena pandemia, havia um público mais do que razoável. Também ficou evidente que a maior parte dos expositores optou por levar ao evento trabalhos de escala mais doméstica, buscando encorajar as vendas, neste momento de instabilidade econômica. 

Também chama a atenção, para um corpo acostumado com os três andares de visitação da SP-Arte e um volume de stands na casa das centenas, como a ArtRio é organizada de forma horizontal. O menor volume de stands e a ausência de hierarquia entre galerias jovens e consagradas permite que se passe muito rapidamente de uma obra de um artista estabelecido, para o trabalho de outro ainda desconhecido, gerando um fluxo que favorece artistas, galerias e o público. 

Presencial e virtual
Com atividade de vendas online desde 2018, a feira vê no virtual uma ferramenta de complementariedade indispensável aos processos presenciais do mercado de arte. “Criamos o marketplace por uma demanda que eu sentia das pessoas virem à feira, olharem, se interessarem, terem a possibilidade de comprar, mas não perguntarem o valor”, diz Valansi. “Na plataforma online, todos os preços têm que estar disponíveis. É um serviço de informação e transparência para o mercado.”

Este ano, além de seguir em uma dinâmica de evento online, paralelo ao presencial, a ArtRio conta com uma programação remota de talks com artistas, colecionadores e curadores em torno de questões como espaços independentes, representatividade e colecionismo. Há uma nova edição do projeto Mira, com curadoria de Victor Gorgulho para a exibição de vídeos e, além das galerias comerciais que participam do evento, há o apoio a espaços independentes, como o Solar dos Abacaxis, e instituições filantrópicas, como o Instituto Vida Livre, que arcam apenas com os custos de manutenção, sem pagar pelo stand, como forma de arrecadar fundos para seus projetos e iniciativas. 

Mercado em tempos de pandemia
Com a pandemia, uma parcela do mundo da arte continuou em funcionamento online –da produção artística, à crítica e ao mercado–, mas há aqueles trabalhadores que dependem inteiramente desempenho físico para exercer suas funções.  “Os pintores, marceneiros, iluminadores, trabalhadores que têm uma situação mais instável, estavam muito felizes por retomar o trabalho”, diz Brenda Valansi. “Percebi isso na atmosfera da montagem e na entrega dos resultados. Esse era o primeiro emprego de muita gente desde o início da pandemia no Brasil, em fevereiro.” 

Nos últimos meses, vimos algumas reconfigurações do sistema de arte, com galerias de peso diminuindo suas atividades, enquanto outras mais jovens, de pequeno e médio porte, ampliando suas programações, espaços, e sobrevivendo por sua intensa atividade online. Esses meses de isolamento social também deixaram evidente que a combinação entre atividades remotas e presenciais são exequíveis e saudáveis. Se as feiras se tornaram indispensáveis nesse sistema – por sua agilidade, concentração e capacidade de circulação simbólica, intelectual e econômica-, também fica claro que é possível realizá-las em formatos menos megalomaníacos e mais sóbrios.

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