Uma instituição tridimensional

1º recorte da Coleção da FMA a ganhar exposição permanente revela as vocações da instituição que nasce no interior de São Paulo

Paula Alzugaray
La Mouche (2007), de Tunga (Fotos: Paula Alzugaray)

A coleção do artista e empresário Marcos Amaro nasceu há dez anos, com uma obra de Candido Portinari. Hoje, ela é composta de cerca de mil peças, do Barroco ao contemporâneo, embora seu foco comece a se orientar para a arte brasileira contemporânea. Esse arco temporal está presente na primeira mostra do acervo, montada na recém-inaugurada Fábrica de Arte Marcos Amaro, em Itu, com organização de Ricardo Resende, que exerce a curadoria da Fundação Marcos Amaro.

O subtítulo da exposição – Frente, Fundo, Em Cima, Embaixo, Lados. Volume, Forma e Cor – anuncia a amplitude temática e a diver-sidade formal do conjunto da coleção. Trabalhos de Tunga, Nuno Ramos, Ana Maria Tavares, José Resende, Cildo Meireles, Jac Leirner, Leda Catunda, Nelson Leirner, Alexandre da Cunha e Regina Silveira, entre outros, se distribuem pelo pavilhão da antiga fábrica têxtil sem organização hierárquica, cronológica ou divisão por temas. Apresentam, como denominador comum, a tridimensionalidade. “O tridimensional é a tendência da coleção, em boa parte formada por escultura e instalação”, diz Ricardo Resende à seLecT.

As cerca de 50 obras expostas organizam-se em torno de dois pilares da arte brasileira, recentemente adquiridos: Nossa
Senhora das Dores (s/d), escultura de Aleijadinho em madeira entalhada, e um estudo da pintura Repouso da Modelo (1885), de Almeida Júnior. Nascido em Itu, em 1850, Almeida Júnior dá nome à sala que exibe a coleção. Embora abrangente, o recorte define um traço característico: a segurança de uma arte consagrada pelo mercado e pela história.

O experimental está fora da coleção, mas tem espaço no programa institucional em construção da Fábrica de Arte, em seus ge-nerosos 20 mil metros quadrados abertos a grandes intervenções. A instituição lançou este ano seu edital para Ocupação e Programa de Exposições 2018-2019. A primeira artista contemplada foi Edith Derdyk, que ocupou espaços internos e externos da fábrica com a instalação Arranque (2018), resultado de mergulho nas origens polonesas de sua família. Os próximos artistas a expor são Eduardo Frota, o Coletivo Grupo EmpreZa, Pola Fernandez, Regina Parra e Rodrigo Sassi.

  • Arranque (2018), de Edith Derdik
  • Amarelinho (2005), de Alexandre da Cunha

A tridimensionalidade revela-se uma vocação do programa da fundação. Seu intuito primeiro é tornar pública a coleção particular – iniciativa que é uma ilha no Brasil. Se 95% de toda a produção visual brasileira da metade do século 20 para cá está em acervos privados (dado mencionado pelo colecionador João Carlos Figueiredo Ferraz, atual presidente da Fundação Bienal de São Paulo, no 1º Encontro das Artes Visuais, em março passado), contamos nos dedos da mão as coleções acessíveis ao público. A primeira função da fundação é, portanto, criar as condições técnicas necessárias para preservar, documentar e expor a arte brasileira que coleciona. A segunda é o incentivo e fomento à produção e à pesquisa artística, criando prêmios, residências, programa de exposições e projeto educativo.

Na fábrica convertida em espaço artístico há a recusa do cubo branco e a afirmação do espaço como ele é. “Sujidade é importante”, diz Resende. Essa invasão do real no espaço da arte (ou vice-versa) se apresenta, por exemplo, na presença da academia de ginástica em um dos pavilhões da antiga fábrica, que se avizinha com as esculturas nos pátios. Um convite sedutor aos projetos site specific sem a menor dúvida.

Servidor
O Tridimensional na Coleção Marcos Amaro: Frente, Fundo, Em Cima, Embaixo, Lados. Volume, Forma e Cor
A partir de 23/6
Fábrica de Arte Marcos Amaro (FAMA)
Sala Almeida Júnior, Rua Padre Bartolomeu Tadei, 9, Itu
fmarte.org

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