Uma noite sem lua, de Castiel Vitorino

Limites da identidade e da linguagem são tensionados em vídeo que embaralha temporalidade linear

Leandro Muniz

Publicado em: ANO 09, Nº 48, Set/Out/Nov 2020

Categoria: Destaque, seLecTV, Vídeo de Artista

Uma jovem mulher negra está contra a janela, girando sua cabeça em movimentos convulsivos, enquanto a trilha sonora sugere suspense e lembra as narrativas intergaláticas dos primeiros filmes de ficção científica. Uma voz narra, em tom íntimo e associação livre, uma série de sensações e divagações, como as experiências transitórias que compõem o fluxo da vida. Em Uma Noite Sem Lua (veja  na íntegra aqui), da artista Castiel Vitorino, imagens, sons e palavras não coincidem e é do lapso entre uma coisa e outra que conseguimos compreender, aos poucos e de modo incompleto, como se constrói o universo abordado no vídeo. 

Com imagens produzidas e apropriadas, o trabalho aproxima criaturas marinhas, escolas de samba, sexualidade, religião e cosmologias. A narrativa não linear proporciona uma experiência em espiral e gera comentários inconclusos – ainda que eloquentes – sobre travestilidade, umbanda, tarô e raça, etc.

Em algum momento, uma bunda com grafismos brancos rebola em ritmo de funk, enquanto o som que acompanha o movimento é de uma música africana contemporânea. Para além dos grafismos sobre o corpo, há um tecido com padrões geométricos no fundo da cena, lembrando as fotografias de Seydou Keita. A próxima imagem que veremos, no entanto, é a de um modelo planetário, apropriada de um banco de imagens e seguida de um bezerro sendo parido. Quando essas relações parecem coincidir, o tempo se dilata novamente, gerando um lapso entre o som das guirlandas que se agitam sobre o corpo e a imagem da dança ao ritmo do instrumento.

A bunda, inclusive, é um assunto importante ao longo do vídeo, como uma exacerbação crítica das experiências de fetichização de corpos dissidentes no contexto artístico. Ao longo de toda a modernidade, a relação com corpos não brancos, não cis, não heterossexuais, não ocidentais, foi tomada como objeto, com seus efeitos na produção contemporânea, que por vezes compreende essa prática criticamente ou apenas reproduz os mesmos modos de operar. Em Uma Noite Sem Lua, ela aparece, ao mesmo tempo, como afirmação do próprio prazer e ironia com essas diversas formas de fetichização, que são tensionadas na superfície da imagem. 

Entre o fluxo e a violência
Castiel Vitorino se define como psicóloga, artista e macumbeira, tendo participado de uma série de cursos livres que expõem a multiplicidade de sua prática, que vai de aquarelas de pequenas dimensões a instalações imersivas e vídeos. O interesse por participar do circuito de galerias e museus acontece durante sua formação em psicologia, na UFES, em 2016. “Mas minha experiência com o fazer artístico antecede isso, minha família participava de rodas de samba e de congo e ali começa minha experiência estética” diz a artista à seLecT. “Sou de origem bantu e, para nós, a vida não é identitária, é energia. Ser é ter energia e movimentar-se e isso é experimentado de modos diferentes de acordo com as possibilidades e momento de cada um e cada ser, não só os humanos.”

Essa tensão entre reconhecer as imposições dos marcadores sociais de gênero, raça e classe e manter o desejo ligado ao funcionamento mais orgânico do corpo aparece na narrativa sincopada de Uma Noite Sem Lua. O vídeo, comissionado pelo projeto KUIR, com financiamento da Subprefeitura de Friedrichshain-Kreuzberg em Berlim, constrói a narrativa de uma forma que não centraliza o papel do sujeito. “Eu prefiro ser peixe”, diz Vitorino em algum momento do trabalho. 

“Na umbanda cultuamos almas, que são vidas, memórias. Fazer arte pra mim é cultuar almas e memórias que não quero esquecer” diz Vitorino

Essa descentralização e sua consequente abertura para uma certa indeterminação das relações – entregues ao fluxo – também opera como uma crítica de pressupostos psicanalíticos, expondo os limites e possibilidades de expansão na construção do conhecimento. “A psicanálise fundamenta a ideia de sujeito, com sua faculdade de pensar e sentir a partir de uma cognição. Essa é uma experiência com processo de subjetivação que implica uma compreensão ocidental de vida, excluindo uma série de seres. Na própria forma de pensar existe uma experiência colonial, racista etc.”, diz Vitorino. “A linguagem é uma grande questão para a arte e para psicologia, porque nos tornamos sujeitos a partir da língua que nos coloniza. O tempo e a gramática dessa língua criminalizam aquilo que é contraditório e não linear.”

Ficção e memória
Filmado completamente em preto e branco, Uma Noite Sem Lua produz uma sensação de sobriedade à narrativa, além de contribuir para o embaralhamento temporal. Ao ficcionalizar uma narrativa sobre o passado, inscrevendo a presença de uma travesti negra nessa história, Vitorino produz memória sobre aquilo que foi apagado, questionando como o passado atua no presente ativamente. “Na umbanda cultuamos almas, que são vidas, memórias. Fazer arte pra mim é cultuar almas e memórias que não quero esquecer.”

Com textos que transitam entre português, espanhol, bakongo e pajubá, o vídeo aponta para as coisas que não têm nome e, como a linguagem pode ser violenta ao interromper e fixar fluxos e processos. “Não encontro registros antigos de travestis na arte, na umbanda e no candomblé e de algum modo essas imagens recriam esse passado também”, continua. “Eu reivindico a palavra travesti, porque é importante reconhecer essa experiência no Brasil, mas me interessa o tornar-se insondável e indescritível, para além das identidades. Quando digo que sou uma travesti negra, perco a possibilidade de ser invisível e insondável, passo a ser explicada, passo a ser linear.”

Falar e nomear, paradoxalmente, são ao mesmo tempo ações que implicam violência, mas também o meio para a formulação e dissolução do problema – ainda que essas experiências sejam transitórias e indiretas. 

Curas efêmeras
“O bairro de Fonte Grande, em Vitória, Espírito Santo, onde nasci, nunca contou com uma assistência psicológica para a população negra, então a produção de saúde ali estava ligada às práticas de benzedeiras e macumbeiras e elas usam a palavra cura, que é uma ideia que não existe na psicologia”, continua. “Para mim, a mandinga, o encantamento, são modos perecíveis de se curar. Nomeio minha prática de clínica da efemeridade, pela possibilidade de se modificar e assumir formas transitórias que nos possibilitem viver o prazer.”

Se a violência é apontada no vídeo, é com o objetivo de dissolvê-la para alcançar o prazer, reiteradamente interceptado pelo olhar, ação e compreensão dos sujeitos hegemônicos. “Muitos artistas negros no Brasil falam de violência e claro que isso tem que acontecer, porque é uma realidade, mas nunca me identifiquei com essas práticas que reencenam a dor e queria falar do que me faz feliz”, complementa. 

Uma Noite Sem Lua propõe uma série de discussões cruzadas, que se conectam de forma indeterminada, em um tempo e em uma forma de vida que fogem de lugares esquadrinhados. “E se eu abandonasse a linearidade e assumisse a encruzilhada?” pergunta a artista em um dos momentos do vídeo. 

Se a dissociação entre as partes do trabalho opera como uma crítica das expectativas sobre corpos dissidentes, também opera como uma forma de construção do conhecimento que reconhece sua não linearidade. A compreensão da experiência se dá aos poucos, de forma incompleta e nem sempre pelas vias mais previsíveis. Visto completamente, ou apenas em fragmentos, Uma Noite Sem Lua fala de um conhecimento incompleto sobre o sujeito, sobre o mundo e suas relações.

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