Uma obra, várias verdades

Relação entre a performance contemporânea e o poder de encenação mística na obra de Bispo do Rosário vem à tona em curadoria de Daniela Labra

Paula Alzugaray
Na instalação Sincretismo Sincronizado, o músico e artista visual Siri se apropria de 60 incensários. Em vez de fumaça, os objetos emitem sons de diversos discursos religiosos (Foto: Paula Alzugaray)

Da obra de Artur Bispo do Rosário pode-se extrair tudo, menos a alienação. Em décadas de internação na Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, Rio, Bispo colecionou objetos trocados, desfiou uniformes para obter linha para bordar e construiu cerca de 800 peças que, em meticulosa metodologia, nomearam e organizaram o lugar que as coisas ocupam no mundo. Suas vivências como pugilista, marinheiro e cidadão do mundo estão entramadas em cada centímetro de linha bordada e de corda esticada. É por isso que o projeto que o Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea vem desenvolvendo, de colocar sua obra em fricção com a produção artística contemporânea, não poderia ser mais pertinente e respeitosa para com sua obra.

As exposições periódicas contam com curadores convidados, “para mostrar que a obra de Bispo tem várias verdades”,  segundo palavras da diretora Raquel Fernandes. Tem duração de seis a dez meses, estimulando assim a visitação cíclica de públicos que se deslocam do centro e zona sul do Rio de Janeiro, e favorecendo o desenvolvimento de um programa educativo continuado com diversas escolas da região de Jacarepaguá, a fim de plantar entre os moradores a consciência de pertencimento e a posse da riqueza simbólica daquele patrimônio que se guarda ali. Esse projeto institucional atencioso, baseado na “arte de cuidar” e na confluência entre arte e saúde, tem a colaboração do curador artístico Ricardo Resende e da curadora pedagógica Bianca Bernardo.

Com curadoria de Daniela Labra, a exposição periódica Das Virgens em Cardumes e da Cor das Auras investiga as relações entre a performance contemporânea e o poder de encenação mística na obra de Bispo do Rosário. Apresenta uma seleção de 60 obras da coleção do museu – entre elas o precioso Manto da Apresentação, oito estandartes e faixas de misses –, 19 obras contemporâneas e dez performances. Na abertura, Eleonora Fabião promoveu um cortejo de obras de Bispo – em uma “devolução” simbólica para a Colônia Juliano Moreira, deslocando-as do museu ao centro histórico da Colônia – antigo Engenho de Fubá e Cana-de-Açúcar.

Sincretismo Sincronizado, instalação sonora do carioca Siri na entrada da exposição, é uma espécie de portal que transporta o visitante para a dimensão específica do rito. Chama a atenção também o projeto do cearense Solon Ribeiro com os alunos do Ateliê Gaia, oficina de artes da Colônia, que hoje funciona como uma cooperativa de artistas internos e ex-internos. Solon levou fotogramas da história do cinema para os artistas intervirem. Também da ordem do ritual, Mauricio Ianês realizou uma ação sem deixar outros rastros que papéis no chão das celas-ateliê do Pavilhão 10, onde Bispo viveu sozinho por sete anos; e Yara Pina deixou em vídeo e manchas nas paredes os registros da performance em que proferiu golpes contra a própria sombra – “o outro que não reconheço como eu”, segundo define Bianca Bernardo.

Serviço
Das Virgens de Cardume e da Cor das Auras
Curadoria de Daniela Labra
Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea
Estrada Rodrigues Caldas, 3400, Jacarepaguá, Rio de janeiro
Até 31/1/2017
Tel.: (21) 3432 2402

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