Uýra Sodoma: a cobra das águas amazônicas diante da degradação ambiental

Criada pelo artista Emerson Pontes, personagem mistura saberes científicos e conhecimentos ancestrais em uma exploração da diversidade da natureza e da cidade

Nina Rahe

N° Edição: 49

Publicado em: 23/02/2021

Categoria: A Revista, Destaque, Portfólio

Ensaio Boiúna, da série Mil (Quase) Mortos (2019) (Foto: Matheus Belém)

Em uma quarta-feira de 2020, durante conversa por vídeo, Emerson Pontes disse à seLecT que levou dois dias para conseguir escrever a minibio que deveria enviar à 34a Bienal de São Paulo, para a qual foi selecionado. “Apesar de ser um texto aparentemente trivial, demanda uma reflexão profunda sobre como você se apresenta”, diz. A complexidade, no caso, está associada a uma série de fatores, desde a sua ascendência indígena, que, embora declarada, é proveniente de uma etnia que Pontes não tem clara, até o fato de que ele assumiu artisticamente a persona Uýra Sodoma, um ser híbrido, cruzamento de conhecimentos científicos com os saberes ancestrais, que, de forma simplificada, define como “a árvore que anda”, uma drag amazônica e “entidade em carne de bicho e planta”. Desde 2016, ela tem mesmo andado não só pelas ruas de Manaus, seu local de origem, como também por São Paulo, onde realizou uma performance na Avenida Faria Lima, durante participação no Prêmio EDP nas Artes, do Instituto Tomie Ohtake, e acabou estampando até mesmo a capa da revista Vogue.

Para entender o DNA de Uýra Sodoma, no entanto, é preciso retornar à origem de Emerson Pontes, de 30 anos, que viveu até os 5 em Mojuí dos Campos, distante três horas de Santarém (PA). Apesar de o local ter se emancipado em 2013, tornando-se município, e já contar com mais de 15 mil habitantes, na memória de Emerson a comunidade onde cresceu resume-se ao povoado em torno de um igarapé com água limpa e muita floresta. Segundo o artista, inclusive, a figura de Uýra vem desse tempo, ainda que, só mais tarde, ele tenha se “transformado” nela. “Faz poucos anos que estou vivendo a consciência de que a Uýra existe, mas percebo que, quando tinha 5, ela já me habitava e já acontecia naquele instante uma investigação sensorial dos cheiros, das imagens e dos sons que existiam naquele local e que passam pela Uýra”, diz. “Hoje, a Uýra é um dos meus principais canais de comunicação. Eu me transformo e vou à rua, a diversos locais, tentando comunicar sobre o direito à vida e suas violações, que são coisas que me interessam a partir da ótica da diversidade de formas.”

Ensaio Fogo, da série Elementar (2018) (Foto: Matheus Belém)

MANAUS DE CONTRASTES 
A memória da vivência na comunidade, onde via preguiças nadando na água e observava o cheiro e a textura da terra, e a posterior mudança para Manaus agora aparecem como contrastes evidentes na construção de Uýra Sodoma. Talvez por isso, quando questionado sobre seu fazer artístico, Pontes comece pela complexidade da capital amazonense, onde chegou após uma viagem de barco e viu prédios pela primeira vez. Uma cidade, de acordo com ele, de atravessamentos, metrópole de 2 milhões de habitantes no meio da Amazônia Central, imersa em água e, ao mesmo tempo, com quase todos os igarapés que a cortam poluídos, além de estar localizada no segundo estado que mais desperdiça água no País. “É uma cidade onde apenas 20% do esgoto é coletado e só 10% é tratado, que se construiu em cima de aldeias, em um modelo que apaga tradições para se instalar. É rica e tecnológica, mas tem um dos piores índices de saneamento básico do País”, continua.

São contrastes que, na pele de Uýra, estão nítidos. No ensaio Caos (2018), parte da série Mil [Quase] Mortos, por exemplo, Pontes escolheu o Igarapé do Mindu, situado sob a Ponte de São Jorge, como cenário para a realização de uma fotoperformance. A água poluída aparece em um contexto industrial, composto de grandes edifícios. Já a montagem coloca em diálogo uma saia de carimbó cheia de flores coloridas, extremamente limpa, com o lixo que se forma ao seu redor. No rosto de Uýra, ainda, estão uma espécie de caracol que vive em águas limpas e um caramujo africano, introduzido no País, gerador de doenças, e, em sua cabeça, folhas e plantas murchas. “Quero trazer o contraste entre a vida e o caos e explorar também essa imagem de que a vida é resiliente dentro desse ambiente”, diz. “Esses atravessamentos da cidade e da floresta são a principal base do meu trabalho.”

“Manaus é uma cidade onde apenas 20% do esgoto é coletado, que se construiu sobre aldeias, em um modelo que apaga tradições para se instalar. É rica e tecnológica, mas tem um dos piores índices de saneamento básico do País”, diz o artista

Todas essas informações são reproduções de sua própria vivência. No bairro periférico onde cresceu em Manaus, não era incomum ver a chuva invadir as casas de palafita. Mas a água suja que corria das inundações, disseminando doenças, trazia também muitos bichos. “Lembro de encontrar sapinhos que nunca tinha visto e achava sensacional, ficava impressionado com aqueles animais.” Mais tarde, o artista, graduado em Biologia pelo Instituto Federal do Amazonas, iria desenvolver pesquisas científicas sobre a conservação de anfíbios e répteis amazônicos. “Mais que poder investigar a vida desses animais, também pude me inspirar bastante neles, porque os anfíbios possuem vida dupla, na água e na terra, além de uma série de defesas”, explica Pontes.

Ensaio Caos, da série Mil (Quase) Mortos (2019) (Foto: Matheus Belém)

RESILIÊNCIA DENTRO DO CAOS
Questões como a contaminação das águas e das florestas estão nas séries A Última Floresta e Mil [Quase] Mortos, ambas produzidas entre 2018 e 2019. Na primeira, focada no desmatamento, o artista explora os signos da devastação, como o fogo, que dá título à primeira sessão de fotos, tiradas na estrada de Iranduba, onde foi possível atear fogo em um mato seco. Já para o cenário de Terra Pelada (2019), Uýra invadiu um canteiro de obras que era resultado da destruição de vários hectares de mata.

Graduado em Biologia, Emerson Pontes desenvolveu pesquisas científicas sobre a conservação de anfíbios e répteis amazônicos

Em Mil [Quase] Mortos, a discussão em torno da devastação das matas cede lugar à contaminação das águas, em uma investigação sobre os igarapés de Manaus, que até a década de 1960 ainda eram limpos. A escolha por realizar o primeiro ensaio, Caos, em um ponto central da cidade, a Ponte de São Jorge, foi também uma maneira de chamar atenção para um tema que aparece invisibilizado no dia a dia da metrópole. “É um igarapé que as pessoas nem olham mais. Está em total abandono e quem mora naquele local também vive a situação do abandono. Mas toda essa vida de antes, quase morta, continua se movimentando e tem uma série de espécies adaptadas a esse ambiente. É a resiliência dentro do caos”, diz. Outro trecho do mesmo igarapé, o do Mindu, também foi escolhido para a continuação desta série, com o ensaio que ganhou o nome de Boiúna (2019). Nele, Uýra Sodoma transforma-se – por meio de uma calda feita de folhas, com mais de 8 metros de comprimento – na grande cobra das águas amazônicas, um ser nobre que se torna impotente diante da degradação ambiental.

Ensaio Lama, da série Elementar (2017) (Foto: Keyla Serruya)

Quando começou suas performances, o artista tinha como preocupação a difusão da consciência ecológica e ambiental. Por esse motivo, suas obras vinham acompanhadas de dados não apenas sobre a floresta, como também sobre saneamento básico, tratamento de esgoto, coleta de lixo etc. Mas, aos poucos, ele se desprendeu da informação – o que fica evidente na série Elementar (2017-2020), na qual foge do ativismo mais evidente de A Última Floresta e Mil [Quase] Mortos para realizar uma exaltação das belezas naturais, em uma exploração das formas de flutuação ou do encontro da água com a terra. O fogo, aqui, aparece não mais como denúncia de destruição, mas como acalento. Atualmente, o artista diz entender que o melhor caminho é integrar imagem e construção textual. E a narrativa, agora, relaciona-se não só com a floresta, mas com os seres que nela habitam. “Depois de seis anos dentro da ciência, pesquisando a vida, percebo que o bicho e a floresta não são somente objetos de estudo, mas o bicho é meu irmão e a floresta é minha avó”, diz. “Sempre tive a certeza de que a vida, em suas múltiplas formas, é muito sagrada, única e deve ser respeitada.”

A performance de Uýra Sodoma, assim, é também uma contestação à heteronormatividade e um movimento para a inserção de corpos dissidentes. “Quando a Uýra surge, em 2016, eu já estava saturado e com muita fome, sede, de levar a pauta de conservação da vida para outros lugares e entendendo essa vida não somente como a vida do bicho, da planta, da floresta, mas da travesti, da preta, do periférico. A vida de modo amplo, mesmo.”

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