Pequena África Carioca

Nos arredores dos antigos mercados de escravos, cais do Valongo e Cemitério dos Pretos Novos nasceu a primeira periferia urbana brasileira

N° Edição: 29

Publicado em: 26/04/2016

Categoria: A Revista, Destaque

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A primeira periferia urbana do Brasil nasceu no trecho do litoral da Baía de Guanabara que corresponde, hoje, aos bairros da Saúde, da Gamboa e do Santo Cristo. Antes dos aterros realizados em função do reaparelhamento do porto, na primeira década do século 20, aquele era um litoral sinuoso e recortado por sacos, praias e ilhas com nomes pitorescos, como Ilha das Moças e Ilha dos Melões. Com o aumento das atividades portuárias, o carregamento de mercadorias passou do antigo cais próximo ao Largo do Paço (atual Praça XV) para a Prainha (hoje Praça Mauá). Não somente ouro e diamantes escoados de Minas Gerais, como também a carga humana trazida da África, faziam parte desse tráfico de coisas e de gente. Ao longo do tempo, foi sendo transferida para a região uma série de atribuições indesejáveis para a porção nobre da cidade. O mercado de escravos, por exemplo, que no século 18 se estabeleceu na Rua do Valongo, seguido de perto pelo Cemitério dos Pretos Novos. Ali, entre 1789 e 1830, africanos recém-chegados foram enterrados em valas comuns. O local foi redescoberto acidentalmente em 1996 e abriga hoje o Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos (IPN).

Os chamados “usos sujos” se multiplicavam. A prisão do Aljube foi instalada em 1733, enquanto o Hospital da Saúde – para doenças contagiosas – tinha sua localização próxima ao Cemitério dos Ingleses. Volta e meia, a Forca Pública era armada na Prainha e os condenados levados à Igreja de Santa Rita para receber as últimas consolações. Por entre processos de marginalização e degradação, a região foi se transformando em lugar de pobreza, violência e morte. A desigualdade entre essa e outras partes da cidade foi confirmada, no fim do século 19, pelo surgimento da primeira favela, no Morro da Providência, a poucos metros de onde antes existiu o mercado de escravos. Diante desse cenário, no início do século 20, a Saúde era o local mais temido da cidade. Seus “bambas”, “malandros” e “capoeiras” eram o assunto predileto das reportagens policiais. Ali, a meio caminho entre o porto e a favela, na chamada Pequena África, entre o preconceito e a resistência à dura realidade social, sobreviveram e foram reinventadas diversas práticas culturais africanas – dos terreiros de candomblé à capoeira – e nasceu o samba, acalantado pelos estivadores e pelas prostitutas. Embora seja uma das regiões mais centrais e antigas da cidade, são poucos os que compreendem as quebradas de suas ruas e os sentidos de suas inversões. Mistérios do Rio. Segredos da Pequena África.

Edição de textos de Clarissa Diniz e Rafael Cardoso, publicados no catálogo Do Valongo à Favela: Imaginário e Periferia (Instituto Odeon/ MAR).

Um museu para dar conta do valor cultural do Valongo
por Clarissa Diniz

Esta foi uma semana marcada por dois acontecimentos que tangenciam diretamente o campo de atuação do Museu de Arte do Rio – MAR, no que concerne ao seu papel histórico, politico e cultural na arte e na vida social da cidade e do país. De um lado, foi aceita a candidatura do Cais do Valongo à Patrimônio da Humanidade (Unesco). Já reconhecida como patrimônio municipal e nacional, com essa candidatura a Pequena África dá mais um passo na direção de politicamente legitimar sua história e sua atualidade enquanto evidência arqueológica e cultural da tragédia da escravidão e da força da presença afrodescendente na constituição e contínua reinvenção do Brasil. De outro lado, foi noticiada a dissolução do contrato de gestão entre o Governo do Estado do Rio de Janeiro e a OCA Lage, organização social responsável, desde 2014, pela gestão e pelo projeto artístico e pedagógico da Escola de Artes Visuais do Parque Lage e da Casa França-Brasil. Contrapondo processos de adensamento e de desmantelamento, esses dois recentes anúncios negritam ainda mais as responsabilidades e os desafios de um museu como o MAR, situado física e simbolicamente na intersecção entre os campos da cultura e da política, o que – como não poderia deixar de ser – demanda renovadas respostas no âmbito da política cultural.

Ainda que muito jovem, com três anos de existência já é possível ir além do projeto e perceber os percursos da política cultural do MAR, a qual, mais do que um gesto afirmativo da instituição é, principalmente, uma articulação colaborativa de respostas produtivas às muitas questões que vão perpassando seus dias e sua inserção na cidade. Imaginado por Paulo Herkenhoff como um museu poroso – que se quer constituir através da participação direta da sociedade (a exemplo de seu modelo de gestão por organização social, de sua ampla política de doações no campo do colecionismo, do programa Vizinhos do MAR ou da amplitude de públicos da Escola do Olhar, da educação básica à pós-graduação, com ênfase na formação de professores) –, o MAR tem aprendido que o seu local de fala só existe na mesma medida de sua capacidade de escuta. Nesse sentido, na aparente solidez de sua arquitetura, abrimos fissuras para alargar a visão do que está fisicamente “por trás” do museu (se considerada sua perspectiva frontal, tomada da renovada Praça Mauá), mas social e culturalmente por toda a parte: a história da Pequena África, seu presente, suas pelejas e os modos pelos quais ela deve se projetar no dia a dia de uma instituição museológica que passa a habitar e a se engajar com esse território.

No que concerne ao seu papel na Pequena África, em sua política de porosidade o MAR leva em consideração as dimensões arqueológicas, históricas e vivas da herança Africana, conforme pautadas pela carta Recomendações do Valongo* . Em sua atuação educacional e cultural, o MAR trabalha na evidenciação** , na problematização e na ativação dessa história, como demonstra a formação da Coleção MAR, com seus núcleos museológicos, arquivísticos e bibliográficos dedicados à herança Africana e seu entrecruzamento com outras culturas (como a judaica e a indígena). Atualmente, Coleção MAR reúne centenas de manuscritos relativos à economia da escravidão; iconografia dos séculos XVIII-XX em torno de questões étnicas, sociais e culturais da presença negra no Brasil; obras de artistas afrodescendentes e africanos; objetos de práticas religiosas; trajes; trabalhos de artistas contemporâneos; elementos da cultura material, dentre outros, num conjunto que já ultrapassa quinhentos itens e que está estreitamente imbricado ao programa curatorial do MAR, com exposições como Yuri Firmeza – Turvações Estratigráficas (2013), Do Valongo à Favela: imaginário e periferia (2014), Rio Setecentista – quando o Rio virou capital (2015), ou mesmo à instalação permanente do Projeto Morrinho no Pilotis do museu.

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Além da Coleção e de seu programa curatorial, o Museu de Arte do Rio realiza, programaticamente, uma série de atividades que discutem questões afro-brasileiras, a exemplo de 2014 – declarado, no MAR, como ano Abdias Nascimento, em comemoração ao seu centenário. Da riqueza de atividades desenvolvidas pela Escola do Olhar, destaca-se o programa de formação de professores, com a Jornada de Educação e Reações Étnico Raciais (2013, 2014, 2015); a parceria com o Instituto dos Pretos Novos – IPN na realização de oficinas sobre história da África e cultura afro- brasileira; seminários e festivais, a exemplo do Projeto África no MAR (2014). Festival Afrocarioca de Cinema de Zózimo (2014 e 2015) e Festival de Filme de Pesquisa, em torno da memória da escravidão (2015); além de cursos anuais sobre a história do Rio com múltiplas abordagens sobre o tema. Integram a política cultural do MAR também uma programação musical voltada aos artistas da região; a parceria com as feiras e a gastronomia local; e, diariamente, as inúmeras atividades do programa educativo que, junto aos diversos públicos do museu, convidam a discussões sobre temas transversais a essa história, como nas visitas educativas Gira da Baiana, Carne mais barata e Irmão café.

De vertebral importância é, ainda, o Programa Vizinhos do MAR, principal interface do museu com a comunidade e seus parceiros da região – moradores, artistas, lideranças comunitárias, produtores e coordenadores de projetos culturais e sociais. Além da gratuidade garantida aos moradores do bairro da Saúde, do Santo Cristo, da Gamboa e do Caju, há dois anos o Programa estabelece uma rede de interlocução e trocas que amadurece em cafés da manhã mensais, nos quais se constitui uma agenda comum de projetos e atividades que surgem do imbricamento dos interesses e das oportunidades da vizinhança, na qual se inclui o MAR. Multiplicam-se conversas de galeria, visitas educativas, mostras de filmes, oficinas do projeto Ofícios e saberes da região, seminários, performances, encontros, exposições, fóruns e outras ações em torno de aspectos culturais, sociais e políticos, como a capoeira, a religiosidade, o feminismo, a favela, a história da resistência, o samba, Tia Ciata, dentre tantos outros. Essas e outras ações têm conformado um MAR atento ao seu lugar na Pequena África e tem afiado os ouvidos da instituição, cujas interfaces de escuta se dão em níveis formais e em qualquer esquina da cidade.

Ao abrir os ouvidos, o MAR compreendeu a abrangência de sua inserção social ao perceber-se estreitamente observado. A presença de práticas, obras, artistas ou abordagens que, para alguns, eventualmente suscitem ambiguidades quanto às questões da igualdade racial ou social têm sido motivo de atenção e posicionamentos críticos de cidadãos e do movimento negro, que acionam o MAR quando necessário por meio de mídias sociais, através da Escuta MAR ou diretamente à equipe da instituição. Essas trocas ajustam a política cultural do Museu de Arte do Rio a partir de perspectivas cruzadas: aquela dos movimentos sociais e a perspectiva da arte, nem sempre consensuais em suas escolhas e estratégias. Por sua vez, em acordo com o crítico Mário Pedrosa, para o qual “em tempo de crise, é preciso estar com os artistas”, o MAR finca sua posição junto à inventividade, à liberdade e à ambiguidade crítica da arte, enquanto compromete-se com a capacidade de endereçamento e transformação dos movimentos sociais. As equivalências entre as importâncias e ambições do programa curatorial e educacional do MAR são, para tanto, fundamentais. Pluralizando os ouvidos, amplia-se a escuta e diversifica-se aquilo que se ouve.

Decerto, o MAR amplificou sua escuta nesses três anos e, como consequência, tem expandido o alcance de sua voz. Aos poucos, desconstrói a prévia imagem de “intruso” para consolidar-se como mais um habitante dessa região, cujas singularidades não permitem que ocupe espaços já existentes, mas que forje novas espacialidades dentro e para além da Pequena África. Pois, como nos lembra o segundo acontecimento dessa semana, o território do MAR não é somente o da doída história da formação social do Brasil como, também, o da fragilidade das políticas públicas para a cultura do país e, em especial, do Rio de Janeiro. Nesse sentido, cabe ao MAR politizar também o seu papel institucional no campo da cultura, tensionando e lutando em prol da autonomia, da profissionalização, da capilarização, da longevidade e do adensamento das instituições culturais do país. Sem se afastar do compromisso de, como museu, “colecionar, registrar, conservar, pesquisar, publicar, exibir, comunicar e educar”, como previsto em seus documentos fundacionais. Pois a concretude e a estabilidade institucionais são, antes mesmo de suas demais vocações, o primeiro “serviço” do MAR ao Valongo – da capacidade de empregar os moradores da Pequena África à constituição de uma biblioteca dedicada à cidade e àqueles que cotidianamente fazem, dessa região, um território ímpar para a humanidade.

Elaborada em junho de 2012 por instituições e especialistas vinculados ao movimento negro e à Política de Igualdade Racial que compuseram o Grupo Curatorial do Circuito Histórico e Arqueológico de Celebração da Herança Africana, constituído para orientar o trabalho relativo às redescobertas do sistema econômico da escravidão no porto do Rio de Janeiro, envolvendo pontos como o Cais do Valongo, o Cemitério dos Pretos Novos, a Pedra do Sal e o Largo do Depósito.

** Avizinhado à materialidade da arqueologia, o projeto curatorial do museu frequentemente explora documentos históricos e objetos da cultura material não exclusivamente dotados de intencionalidade artística.

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