Ventos feministas

O Brasil presencia hoje uma efervescência feminista em muitas áreas da cultura, indicando uma potência crítica que contagia novas gerações

Luana Saturnino Tvardovskas

Publicado em: 10/02/2016

Categoria: Colunas Móveis

O Brasil presencia hoje uma efervescência feminista em muitas áreas da cultura, indicando uma potência crítica que contagia novas gerações, nutrida por décadas de movimentos contestatórios e propositivos, presentes desde a década de 1970 no País. Se as mulheres já adentraram inúmeros espaços políticos e sociais, confrontaram sistemas de poder, ampliaram a noção de cidadania e discutiram a multiplicidade étnica, sexual, religiosa, social e cultural existente em nosso país, esses ganhos estão longe de representar uma experiência significativa de respeito pelos corpos, subjetividades, criatividade e experiências femininos.

Historicamente, muita coisa mudou e muito se avançou, mas sabemos que tais conquistas são frágeis e estão constantemente ameaçadas por uma cultura de violência física e simbólica – como percebemos nas inúmeras reações misóginas espraiadas em diferentes camadas sociais. Perante tal cenário, a capacidade das mulheres de usarem suas vozes críticas para contestar o imaginário instituidor do real merece destaque.

Mulheres artistas visuais no Brasil, como Ana Miguel, Rosana Paulino, Cristina Salgado, Adriana Varejão, Rosana Palazyan, Rosangela Rennó e Fernanda Magalhães, entre outras, têm, sobretudo desde a década de 1990, discutido as representações que recaem sobre os corpos femininos, sua sexualidade, seu desejo e seus espaços de atuação no mundo público e privado. Suas obras elaboram com humor e ironia experiências compartilhadas pelas mulheres, como, por exemplo, o faz Ana Miguel em O Sentimento dos Docinhos Frente a seu Destino (1990), em que a iminência em ser devorada expõe-se nas pequenas gravurinhas aterrorizadas de doces de festa infantil. Outras vezes, as práticas feministas dessas artistas se refletem sobre a conflituosa ligação do feminino com as relações amorosas, sobre os códigos culturais dominantes ou os padrões de beleza impostos. Corpos com torções, inchaços, fragmentação, memórias da dor, delírio e sonho são insurreições feministas no imaginário artístico contemporâneo, indicando as tensões, traumas e a difícil constituição subjetiva no mundo atual. Também atacam o preconceito racial somado à misoginia ou mesmo as narrativas clássicas da história tradicional, da literatura ou dos contos de fadas, que reproduzem modelos engessados e preconceituosos de sentir, viver e acessar o mundo.

Ainda que muito pouco exploradas e investigadas pela crítica, curadoria e história da arte no Brasil, essas práticas feministas estão presentes na arte brasileira de forma contundente. Isso não indica necessariamente uma militância feminista declarada por parte das artistas ou a centralidade da questão em suas obras, mas sim um caráter político, disruptivo, questionador e desconstrutivo delineado em suas poéticas.

Mais recentemente, um foco maior tem sido dado na esfera cultural às exposições de viés aglutinador, em que muitas artistas mulheres são apresentadas ao público, como recentemente vimos em Frida Kahlo: Conexões entre Mulheres Surrealistas no México (Instituto Tomie Ohtake/SP), Mulheres Artistas: As Pioneiras (1880-1930) (Pinacoteca do Estado de São Paulo) e Tarsila e as Mulheres Modernas no Rio (Museu de Arte do Rio) – enfoque também presente em outros países da América Latina.

Nosso desafio é refletir, agora, sobre o enorme desconhecimento que os discursos oficiais destinaram às mulheres artistas de nosso passado e presente, sobre os mitos da genialidade artística e os projetos de curadoria que reiteram essas ausências, buscando abrir espaço para os outros mundos subjetivos e sociais criados e acenados pelas mulheres. Não se trata, evidentemente, de defender uma especificidade natural ou biológica que transbordaria nas expressões artísticas femininas, mas de compreender que a imaginação é como um sopro suave, facilmente desfeito em ambientes hostis, racistas e misóginos. Para seu florescimento é preciso que respeitemos outras formas de conhecimento e de imaginação, primeiro passo para uma transformação da existência.

Luana Saturnino Tvardovskas é historiadora (UNICAMP) e autora do livro Dramatização dos Corpos: Arte Contemporânea e Crítica Feminista no Brasil e na Argentina (Intermeios, 2015)

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