Ver maravilha nas coisas

Editorial da edição #50 da seLecT, dedicada às cosmovisões amazônicas

Paula Alzugaray

Publicado em: 09/04/2021

Categoria: A Revista, Destaque, Editorial

Pajé-Onça (Hackeando a 33ª Bienal de Artes de São Paulo) (2018), de Denilson Baniwa (Foto: Cortesia do artista)

No ano em que a seLecT completa uma década de atuação, dedicamos nossas quatro edições para um bem maior: a floresta. Neste segundo episódio da série, trabalhamos sobre as cosmogonias, epistemologias e ficções indígenas. Na recusa de uma historiografia que construiu uma visão excludente de Brasil, seguimos com o projeto de escrever com e não sobre os habitantes amazônicos. Através das narrativas dos artistas sobre o que habita o fundo dos rios e das matas, conhecemos a Rasga Mortalha, o Capelobo, o Kanaimé, a Onça Celeste, o Jabuti, a Boiúna, as Icamiabas, a Mãe do Fogo. Eles nos contam como os mitos e encantarias se atualizam na realidade social e política contemporânea nesta “era fálica trevosa que o país adentrou”, como aponta o artista maranhense Thiago Martins de Melo na Coluna Móvel.

Jaider Esbell, Estudo de Caso da edição #50 com a série de obras apresentadas na 34ª Bienal de São Paulo, sugere como o Kanaimé pode ser associado ao uso da violência para se fazer justiça, apresentando-se como uma entidade necessária na atual “guerra de mundos” por territórios, modos de pensar e recursos. E como o Jabuti, para o povo Macuxi, representa a parcimônia e a paciência para lidar com o que não se alcança por meio da força bruta. Já Yná Kabe Rodriguez Olfenza usa os sentidos de poder e habilidade atribuídos às onças em uma analogia à travestilidade, já que ambas, onças e travestis, são permanentemente ameaçadas e vigiadas no Brasil.

Entre sombras e pesares, a utopia emerge algumas vezes dos textos. Aline Rochedo Pachamama, que escreve sobre a literatura dos povos originários, afirma que a palavra, “se com alma, movimenta afeto, lucidez e utopias”. Em entrevista, João de Jesus Paes Loureiro evoca uma utopia social de feição socialista quando fala de sua Abaetetuba natal, e sugere de que modo a natureza amazônica contém o sublime kantiano.

Os trânsitos entre as culturas originárias e ocidentais também são objeto de análise crítica quando a questão é “como expor arte indígena”. Esse é o tema da reportagem e do Fogo Cruzado on-line, conduzidos por Leandro Muniz. “Se o legado da civilização indígena tem muito a oferecer para o mundo atualmente em colapso, fica a pergunta sobre como não reproduzir a lógica colonial ao apresentar essa produção nos contextos institucionais”, coloca o repórter da seLecT.

“Somos plantas tentando sobreviver neste solo árido que é o Brasil e o próprio sistema de arte”, responde o amazonense Denilson Baniwa. Além de participar de reportagens, Baniwa foi um dos “informantes” da edição #50, iluminando nossas reuniões de pauta, ao lado de Samantha Moreira e Dinho Araújo, coordenadores do Espaço Chão, em São Luís do Maranhão. Rafael Bqueer, que participa da série Floresta desde a edição #49, volta à tona com uma curadoria sobre a revolução estética das Themônias. O movimento, surgido no fervo da noite da região metropolitana de Belém, também integra o terceiro episódio do podcast celeste: Quanto Mais Themônia, Melhor.

Na série de arte e ativismo #florestaprotesta, o grupo Aparelhamento e os artistas Armando Queiroz e Thiago Martins de Melo elaboram seus cartazes para uma mobilização em defesa da Amazônia e do meio ambiente. O projeto reafirma o papel do artista nas urgentes lutas sociopolíticas. E na tessitura desta edição que se afirma toda como um protesto, a artista Nina Lins, designer da seLecT, optou por desconstruir a integridade da tipografia e de fotografias de algumas matérias, criando um efeito fantasmático com a separação das cores RGB.

Com esse recurso gráfico, buscamos dar alguma visibilidade à natureza mágica das coisas. Assim como o fotógrafo Luiz Braga dá materialidade às encantarias, representando-as fotograficamente em sua nova série, apresentada na seção Em Construção por Nina Rahe.

A Mãe do Fogo marajoara de Luiz Braga fecha a edição, assombrando os vaqueiros, garimpeiros, madeireiros e invasores das florestas; usando o fogo para nos tirar da treva que assola o país e iluminando os caminhos que estamos abrindo: o Núcleo seLecT de Arte e Comunicação, nosso braço de cursos e estudos on-line em parceria com a plataforma Zait, e a elaboração do terceiro episódio da série Floresta, que será dedicado às construções coletivas e comunidades.

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