Vestindo o tempo

70 anos de moda italiana e sua relação com o Brasil

Lorenzo Merlino
Vista da exposição Vestindo o Tempo - 70 Anos de Moda Italiana, no Instituto Tomie Ohtake (Foto: Ricardo Miyada, Instituto Tomie Ohtake)

Telegrapham de Milão que o duque Huberto Visconti di Modrone, presidente do comité «pró-moda italiana» annuncia que as primeiras «toilettes» originaes italianas serão lançadas na proxima primavera. As principais casas de artigos de moda de Milão, Turim, Veneza, Genova, Roma e de outras cidades empenharam-se em adoptar a moda que será lançada pelo referido comité.” 

Assim noticiava uma breve nota publicada da página 4 do jornal O Estado de São Paulo de 19 de outubro de 1909 uma das primeiras ações privadas de incentivo à moda italiana que se tem notícia, empreendida pelo ilustre cavaliere Visconti, tio do célebre cineasta de Il Gattopardo e Morte a Venezia. E da mesma maneira, uma das primeiras notícias de contato da moda italiana com nosso país.

A forte e predominante influência que a moda francesa exercerá no Brasil, assim como em todo o mundo, durante o período Imperial e a República Velha, e a relevância apenas regional que a moda italiana terá até o final da Segunda Guerra Mundial, explicam a pouca proximidade que teremos com esta – durante toda a primeira metade do século 20 são pouquíssimas e esparsas as menções à moda italiana nos principais jornais diários brasileiros.

O desfile organizado pelo marquês Giorgini em 1951 marca simbolicamente o início da internacionalização da moda italiana, já principiada pelo aristocrata luquês logo após a Grande Guerra, e o Brasil passará então a observar com mais atenção o que era produzido na pátria-mãe da principal nacionalidade de imigrantes aqui instalados. É curioso notar que a presença majoritária dos oriundi d’Italia desde o final do século 19 não produziu ou incentivou um maior contato brasileiro com a moda italiana.

Essas parcas aproximações se substituirão a partir dos anos 1950 com o boom do cinema italiano do pós-Guerra, na esteira do Neorrealismo, que se encarregará de divulgar no Brasil, ainda que de maneira indireta, a moda italiana, e definitivamente impor o fatto in Italia como uma marca de reconhecimento. Além de Luchino Visconti, tão importante na construção e estabelecimento de uma imagem internacional de refinamento da estética contemporânea italiana, em filmes como Vagas Estrelas da Ursa e Violência e Paixão, diretores como Roberto Rossellini, em Europa ’51 e Viagem à Itália por exemplo, ou ainda Vittorio de Sica em Matrimônio à Italiana e O Jardim dos Finzi-Contini, e especialmente Michelangelo Antonioni, com sua antológica caracterização da moda em Blow-Up, colaboraram de modo determinante para sobrelevar a imagem da Itália.

Mas será com as primeiras notoriedades mundiais de estilistas italianos e a gradativa instauração de um estilo que se queria genuinamente italiano, intencionalmente distante da influência francesa, que o nome da península se tornará piano piano sinônimo de criação e excelência no âmbito da moda. Nomes como Irene Galitzine, conceptora dos famosos palazzo pyjamas, Fernanda Gattinoni e Jole Veneziani, projetadas fora do país por diversas atrizes hollywoodianas e celebridades internacionais, Mila Schön, com seu característico rigor geométrico, Emilio Pucci, il principe delle stampe, as Sorelle Fontana, com suas icônicas colaborações no cinema como em Le Amiche, The Barefoot Contessa e La Dolce Vita, Roberto Capucci, com sua excentricidade absolutamente particular, Elio Fiorucci, e suas criações casuais no âmbito da pronto moda, e sobretudo l’Imperatore Valentino Garavani, passam a marcar a partir dos revolucionários anos 60 a irrefreável ascensão da moda italiana, catapultada então a níveis internacionais.

Essa internacionalização foi em muito contribuída pelo surgimento das revistas de moda italianas, que se cumprirão o papel de promover seus estilistas nacionais, em títulos como Arianna, fundada em 1957, Amica, fundada em 1962, e sobretudo a Vogue Itália, fundada em 1965, que a partir da excepcional direção exercida pela editora Franca Sozzani vai se tornar a versão menos comercial, mais artística e muito influente mundialmente da mítica publicação.

No Brasil, as primeiras manifestações de tentativas de uma moda produzida nacionalmente ocorreram com os hoje emblemáticos Dener e Clodovil, êmulos “valentinianos”, mais que “givenchyescos” ou “saint-laurentianos”, de uma elegância um tanto quanto alta moda, e menos haute couture. O início de Clodovil como costureiro da Casa Signorinella, onde vai ser substituído por Matteo Amalfi, as vindas de Valentino, Pucci e as irmãs Fontana ao país em 1962 a fim de desfilar na Vª Fenit – o jovem Ugo Castellana também virá na mesma ocasião, quando decide então aqui se instalar –, a volta de Valentino ao país em 1969 novamente para desfilar na Fenit, nesta que foi a última das edições aberta ao público da paradigmática feira têxtil, o desfile em 1965 de Emilio Shuberth no Jardim de Inverno Fasano em São Paulo e a apresentação de Dener em 1963 no evento A Moda Brasileira na Itália, realizado no Palazzo Pamphilj, sede da Embaixada Brasileira em Roma, de certa maneira contextualizam essas aproximações ítalo-brasileiras.

O firmamento definitivo da moda italiana em patamares internacionais se dará a partir dos anni ottanta, com uma trinca de novos estilistas fortemente responsáveis pelo estabelecimento da estética de intensos contrastes e exageros particulares da década ­– Giorgio Armani, Gianfranco Ferré e Gianni Versace, todos surgidos no final da década anterior. Seus estilos marcantes, caracterizados respectivamente por estudos de estrutura, questões arquiteturais e excessos decorativos, vão marcar toda uma época da moda, e consequentemente influenciar de maneira proeminente a produção têxtil brasileira do período.

Num país ainda dominado pela miragem internacional, antes da estabilização econômica pós-hiperinflação, a influência italiana na moda brasileira, determinada portanto majoritariamente a partir dos anos 60, só se fez tornar mais acentuada a seguir, e a emergência de nomes cruciais como a Prada, que apesar de fundada em 1913 só lança sua linha de prêt-à-porter em 1988, a Gucci, com sua renovação a partir do comando de Tom Ford, que assume a periclitante casa em 1990, e enfim o duo Dolce & Gabbana, lançado em 1985, exacerbou este contexto.

As tentativas que se apresentaram em nosso país de uma criação genuinamente autoral nos anos que antecederam o início do atual século se contrapuseram à ascendência estrangeira de, entre outros, a Itália, sem procurar renegar a importância, magnitude e, sobretudo, a qualidade da moda Made in Italy. O Brasil pode, e deve, usar o exemplo do longo caminho empreendido pela indústria têxtil italiana, que em pouco menos de 100 anos se alçou a uma posição de primeira grandeza no planeta, para almejar, em tempo simile, a um stato equivalente.

  • Vista da exposição Vestindo o Tempo - 70 Anos de Moda Italiana, no Instituto Tomie Ohtake (Foto: Ricardo Miyada, Instituto Tomie Ohtake)
  • Vista da exposição Vestindo o Tempo - 70 Anos de Moda Italiana, no Instituto Tomie Ohtake (Foto: Ricardo Miyada, Instituto Tomie Ohtake)
  • Vista da exposição Vestindo o Tempo - 70 Anos de Moda Italiana, no Instituto Tomie Ohtake (Foto: Ricardo Miyada)

Serviço
Vestindo o tempo – 70 anos de moda italiana
Até 2/2/2020
Instituto Tomie Ohtake
Av. Faria Lima, 201 – São Paulo
institutotomieohtake.org.br

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