Véxoa: nós sabemos (ou o que não sabemos)

Mostra na Pinacoteca é uma reescrita das artes e deve ser vista para além do marco de primeira dedicada às produções indígenas

Luciara Ribeiro, Moara Tupinambá

Publicado em: ANO 10, Nº 49, Jan/Fev/Mar 2021

Categoria: A Revista, Crítica, Destaque, Review

Vista da exposição Véxoa: Nós sabemos, com máscaras e roupas do povo Wauja. Máscaras Atujuwá ao fundo, máscaras e roupas Sapukuyawa Yuluma Eneju nas laterais, e par de máscaras Yukuku ao centro (Foto: Levi Fanan)

Durante o período de quarentena, principalmente após o assassinato do afro-estadunidense George Floyd e das campanhas do movimento #blacklivesmatter, debates foram lançados às instituições culturais fazendo-as repensar suas vocações e pautando a urgência por comprometimento com as lutas antirracistas, decoloniais, feministas, LGBTQIA+, de acessibilidade, entre outras. Véxoa: Nós Sabemos, exposição com curadoria de Naine Terena na Pinacoteca do Estado de São Paulo, parte desses interesses e princípios. A mostra reúne 23 artistas indígenas e vem sendo apresentada como um marco na história da instituição e anunciada como a “primeira” dedicada exclusivamente às produções visuais indígenas e “primeira” a ser assinada por uma mulher de origem indígena, o que demonstra o “atraso” no qual os acervos e espaços museais no Brasil se encontram.

  • Parte externa da Pinacoteca, detalhe do trabalho Nada que é dourado permanece (2020), de Denilson Baniwa, realizado no contexto da exposição Véxoa: Nós sabemos (Foto: Levi Fanan)
  • Vista da exposição Véxoa: Nós sabemos. Na vitrine ao centro, desenhos do Pajé Gabriel Gentil, e ao fundo, da esquerda para direita, pinturas de Ailton Krenak e Daiara Tukano (Foto: Levi Fanan)
  • Vista da exposição Véxoa: Nós sabemos, com trabalhos em tecido de Gustavo Caboco (Foto: Levi Fanan)

Sem desconsiderar a importância desses fatores na histórica trajetória de Véxoa, pergunta-se: o que significa anunciar esta exposição e esta experiência curatorial como “primeiras”? O que o lugar de “primeiro” significa? Não faz muito tempo que Rosana Paulino e Diane Lima, ao realizarem a curadoria de Diálogos Ausentes, também foram anunciadas como as “primeiras”. Convidadas pelo Itaú Cultural a propor um programa de debates que e inseriu artistas negros nas ações institucionais, as curadoras, apresentadas na época como as “primeiras” mulheres negras a assinarem uma exposição de arte em uma instituição paulistana, se questionavam sobre o quão grave isso era. Para Naine Terena, usar o termo “primeiro” como palavra-chave para os avanços tardios é algo que sempre a incomodou. “O termo vem acompanhado de um glamour que não existe. É uma reparação histórica e, quando estamos nesse processo de ser o primeiro, na realidade já temos de pensar no segundo, no terceiro, e assim por diante”, diz.

Segundo a curadora Fernanda Pitta, que realizou o acompanhamento curatorial de Véxoa, é sabido pela Pinacoteca que 115 anos de exclusão e invisibilidade indígena não serão resolvidos com uma exposição, e que, por isso, a instituição tem direcionado esforços no reposicionamento das artes indígenas em seu acervo e programação. No entanto, apesar desses apontamentos para o futuro, as sequelas deixadas por um passado no qual tanto a instituição como o seu acervo corroboraram construções estereotipadas, reducionistas, racialistas e racistas em torno das populações indígenas e afro-brasileiras, levarão tempo para ser curadas.

Véxoa: Nós Sabemos, como afirma Naine Terena em seu texto curatorial, “integra a proposta da instituição” junto ao seu “pensar a arte contemporânea brasileira, seus nomes e processos históricos”, experimentando nas suas três salas a noção expandida do termo arte. A reivindicação do conceito de arte, que para alguns pode parecer ingênuo ou desavisado, visto que ele exerceu um papel decisivo no processo de desqualificação das produções visuais indígenas, é realizado em Véxoa de forma estratégica e intencional. Obras da chamada produção “tradicional”, que há alguns anos eram vistas de maneira reducionista, como “primitivas” e/ ou objetos etnográficos, habitam horizontalmente o mesmo espaço que as produções da arte indígena contemporânea. Um exemplo disso é o caso das peças Yudjá, que ao lado das instalações de Denilson Baniwa, provocam relações diversas, ultrapassando a temporalidade e as classificações visuais.

Mas, além dos conceitos, Naine Terena propõe em Véxoa outros modos de se fazer curadoria, com processos de negociação que extrapolam a lógica do cubo branco, da linearidade do tempo, das hierarquias e das supostas divisões artísticas. Reconhecida por sua atuação em rede, pela escuta atenta e pela busca por diálogos abertos, a curadora traz em sua prática elementos da educação e do ativismo, transformando o museu em um espaço de liberdade, acolhida e amplitude. Sua curadoria ativista fica explícita, por exemplo, quando ela oferece ao público olhar algumas das obras vandalizadas durante a Mostra M’Bai de Arte indígena, realizada em 2019, no Centro Cultural Mestre Assis, na cidade de Embu das Artes, e nos lembra que os artistas indígenas que participaram da exposição não receberam, até hoje, as indenizações necessárias, tanto moral quanto financeiramente, pelos danos causados.

A exposição também se conecta com diferentes mundos e meios, como as florestas, as cidades e outros locais invisíveis. A maioria das sociedades indígenas molda-se ao mundo para atravessá-lo, e por isso se fazem presentes em diferentes lugares, recorrendo constantemente às suas sabedorias e heranças ancestrais. Mas nem sempre é fácil habitar um território que não te acolhe e, por isso, a pergunta “como re-existir em ambientes urbanizados, de concreto, sem perder a ancestralidade?” paira pela vida de muitos artistas indígenas. Esse é o caso de Yacunã Tuxá, e pode ser observado em seus desenhos digitais. A obra não se desliga da vida, e Yacunã é a natureza de sua obra. Em sua biografia, ela revela sobre esse progresso que invade territórios ancestrais e sagrados, como a situação que ocorreu com as diversas ilhas que o povo Tuxá ocupava, especialmente a Ilha da Viúva, localizada no Rio São Francisco. Essa região ficou submersa após a construção da Hidrelétrica de Itaparica, que forçou a migração do povo Tuxá para outros territórios.

Véxoa: Nós Sabemos é mais que uma exposição, é um projeto de reescrita das artes no Brasil. Reivindicá-la para além do marco inaugural e do “primeiro” é vê-la em sua complexidade, é reafirmar o que a sua curadora tem dito: “Os povos indígenas não querem mais ser um puxadinho dos museus e instituições de arte”; é também fazer efetiva a fala de Jaider Esbell durante a performance Morî’ erenkato eseru’ – Cantos para a Vida, realizada dentro da mostra em novembro, quando ele afirmou ser aquela a primeira vez que artistas indígenas entram pela porta da frente dos museus e que, a partir daquele dia, essas serão as portas pelas quais todos devem passar.

Serviço
Véxoa: Nós Sabemos
Até 22/3, Pinacoteca de São Paulo, Praça da Luz, 2 pinacoteca.org.br

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