Viagem ao interior

Aracy Amaral ressalta o olhar de pintores modernos e pré-modernos ao âmago da realidade brasileira, em exposição na Fábrica de Arte Marcos Amaro

Paula Alzugaray
Descanso da Modelo (1885), de Almeida Júnior (Foto: Hugo Curti)

Enquanto a arte contemporânea brasileira volta corações e mentes para o exterior, em franco movimento de internacionalização, a mostra Aproximações – Breve Introdução à Arte Brasileira do Século XX, na Fábrica de Arte Marcos Amaro (FAMA), ensina que nem sempre foi assim. Com 60 obras modernas e pré-modernas, a curadoria de Aracy Amaral destaca o momento em que os artistas brasileiros deixaram de tomar a França e a Europa como referência, e começaram a se interessar pelo mundo imediatamente ao seu redor. “Os artistas viajantes que vieram por nossas terras em missões específicas de exploração ou mera curiosidade pelo exótico a partir de inícios do século XIX, registraram de maneira ímpar nossa realidade humana e nossas espécies vegetais”, pontua Aracy. “Só muito tardiamente nossos artistas se dariam conta ou se motivariam com a paisagem e o entorno brasileiro”.

A icônica tela Descanso Da Modelo (1885), de Almeida Júnior, abre a exposição. A obra foi adquirida no ano passado e assumida emblema da Coleção Marcos Amaro não somente por seu valor estético, mas também pela origem do pintor, natural de Itu, cidade escolhida pelo colecionador para expor o seu acervo e sediar um centro cultural, a Fábrica de Arte. A peça de Almeida Júnior é a mais antiga do conjunto de 60 obras da exposição. Marco inicial nobilíssimo, trata-se de uma pintura realista com alta carga de encanto e magnetismo. Mas é um interior de casa – ou melhor, de ateliê de artista –, e portanto não aponta para o que viria a guiar os anseios a seguir: a vida exterior ao ateliê, a luz natural, a vida social do brasileiro.

  • Paisagem com três casas (s.d), de Tarsila do Amaral (Foto: Divulgação)
  • Paisagem de Mogi (déc. 1940), de Alfredo Volpi (Foto: Luciano Momesso)

Formada predominantemente com obras da Coleção Fundação Marcos Amaro – 34 delas –, a mostra, mesmo que concisa, tem núcleos bastante heterogêneos e aponta para varias direções, buscando formar o que o título anuncia: uma breve introdução à arte brasileira do século 20. Mas se há um eixo que se sobressai entre os outros, e perpassa todos os núcleos, é o de representações de várzeas, periferias e vistas de ruas de cidades interioranas. Paisagem com a Igreja Da Penha (1915), de Artur Timóteo da Costa, um dos raros artistas de origem negra que se sobressaíram no pré-modernismo; Paisagem (Dampierre) (1922), de Belmiro De Almeira; e Paisagem (1902), de Diogo Silva Parreiras, estão entre as obras que anunciam o olhar para o novo mundo.

Dos anos modernistas, em que poesia, literatura, música, arquitetura e artes plásticas uniram esforços na busca de uma identidade brasileira, Paisagem Com Três Casas (s.d), de Tarsila do Amaral, exibe paleta de cores formada a partir da observação da luz do interior de São Paulo. Do período pós-modernista, Paisagem Paulista (1940), de Livio Abramo, e Paisagem De Mogi (década 1940), de Alfredo Volpi, também viajam ao interior.

Serviço
Aproximações – Breve Introdução à Arte Brasileira do Século XX
Fábrica de Arte Marcos Amaro
Rua Padre Bartolomeu Tadei, 09 – Itu, SP
até 13/6
fmarte.org

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