“Vim trazer ruído, não o silêncio”

Ronaldo Bressane

Publicado em: 16/06/2015

Categoria: Entrevista, Reportagem

No novo livro Sermões, a escrita de Nuno Ramos apropria-se do sexo para fugir da morte. Mas, como em sua obra plástica, a materialidade nunca é rígida. Em seu texto, Eros e Tanatos se dissolvem

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Legenda: “Tenho alguma técnica como escritor, mas muito pouca como artista plástico. Não sei desenhar, não sei pintar, não sei fazer nada”. (Foto: Ludovic Carème)

Enquanto falo com Nuno Ramos, formigas passeiam por seu rosto. Isso não tem nada a ver com a suposta doçura do artista, que, embora de trato afável, é dono de uma obra bastante acre. Estou em Paraty, cidade cuja atmosfera cachaceira faz com que formigas habitem qualquer centímetro quadrado – farejam o açúcar até mesmo na tela do meu laptop, que apresenta via Skype um estranho enquadramento desse paulistano de 55 anos. Os minúsculos seres saem do nariz do poeta e entram pelos olhos do artista plástico, voltando através das orelhas do filósofo para, em seguida, se enfiarem na boca do narrador, ensaísta, letrista de música. A obra do multiartista é conhecida pela dissolução de linguagens, de um material em outro; assim, de certa maneira, o passeio das formigas pela representação pixelizada de Nuno Ramos o tornava mais real, mais físico. Dissolução que se aproxima da dissoluta voz a percorrer seus Sermões (Editora Iluminuras, 216 págs., R$ 48), primeiro livro que publica após Ó e Junco, ambos vencedores do Prêmio Portugal Telecom.

Trata-se de um longo poema narrativo ou ficção em versos narrada por um velho professor de filosofia em permanente pau durescência – um sujeito que quer dissolver seu sexo em pleno mundo. O romance aproxima violentamente o desejo da vida da pulsão de morte ao acompanhar a rarefeita rota do professor. Ele sai de Ouro Preto, onde faz sexo em uma igreja, sobre um tapete onde se vê a imagem de um tigresa atacando ovelhas, e vai participar de um congresso em Londres; lembra-se da mãe morrendo; muda-se para o Centro de São Paulo; desce a uma praia, onde faz sermões tal como um deslocado e aloucado Antônio Vieira; volta a Ouro Preto até ser expulso de uma igreja; rememora filmes como Stalker, de Tarkovski, e A Palavra, de Dreyer; e, afinal, encontra-se com a professora de ioga, uma Mestra, divina e hermafrodita, que não precisa dele. É um percurso entre Eros e Tanatos, em que a impossibilidade de ligação com o mundo faz nascer o discurso ao mesmo tempo que mata o seu falante; no meio do caminho temos as belíssimas imagens dos sermões na praia, e várias epifanias na igreja, no aeroporto e na sessão de ioga.

“Usei muitas vezes pedra-sabão na minha obra, e fui muito para Ouro Preto para isso, ficava talhando, fazendo esculturas”, contou Ramos a seLecT sobre a inspiração para o personagem. “A pedra-sabão parece um óleo, escorrega, você talha com uma faca, é mais suave que madeira. Tudo o que faço tem uma materialidade meio intermediária, entre o duro e o líquido, coisas não prontas, não formadas. Às vezes pego uma coisa pronta e a regrido, às vezes pego uma coisa formada e a deformo: busco esse lugar em que as coisas se dissolvem, essa fronteira, esse contorno. Algo precário, entre um estado e outro. Gosto da hora em que o sol se põe. O lusco-fusco”, diz.

Nuno Ramos conversou com seLecT no intervalodo trabalho para a próxima exposição, em agosto na Estação Pinacoteca. A entrevista não teve um final: o Skype fragmentou sua face e o discurso até que sumisse em algum lugar da internet. Sobraram de seu contorno as formigas.

Seu texto mais conhecido é Suspeito, a primeira menção que vem junto ao seu nome no Google. A esta altura do campeonato, você ainda suspeita que estamos fodidos ou já tem certeza?

É, sou um suspeito, na verdade (risos). Acho que estamos muito fodidos, sim, na falta de perspectiva de desejo de país. Que configuração do possível, de escolha, queremos? Isso regrediu loucamente. Mesmo em momentos piores do País, que vivi quando jovem, havia muito mais pontos de fuga. Isso encruou: não há nenhuma força externa que aponte para algum lugar. O PT e o PSDB estão cada vez mais parecidos e ocupam qualquer espaço político. Aquilo que poderia ser o reconhecimento de um projeto comum, o Real, a Bolsa-Família – evidentemente houve conquistas – hoje é um retorno do mesmo, infindável. É como se a gente estivesse naquela frase do elevador, que eu adoro… uma frase incompreensível, lacaniana: “Ao entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se parado no andar”. O mesmo tomou conta do Brasil. Estamos muito fodidos, mas o problema não é tanto econômico. Acho que a Dilma teve coragem de fazer o que está fazendo: poderíamos ir para uma argentinização, ela poderia ter chamado sei lá, o Belluzzo, seria pior ainda; teve coragem de chamar o Levy. Mas ela não tem projeto nenhum para o País. Não tem pauta nova, não fala de ecologia… A Marina sumiu, parece uma aristocrata. Passa-se a vida falando mal do País, só que você é imediatamente captado por um discurso ou a favor do PT ou contra o PT: há um emburrecimento, uma falta de humor, uma paranoia – estamos todos paranoicos no Brasil. A imprensa persegue, o PT persegue, o PSDB persegue. Vivemos a crise do modelo modesto de país que o PT e o PSDB fizeram, com elementos legais – mas esse modelo implodiu e a gente não consegue sair dele.

No mesmo texto, você fala sobre a degradação das cidades. Esse tema está presente em quase tudo que você faz: a passagem do amorfo para o disforme, com breve escala em alguma espécie de construção. Essa ideia também está presente nos Sermões?

Sim. Acho que no Suspeito falo no contexto da violência. É o grande tema brasileiro, antes mesmo da distribuição de renda, da desigualdade social, racial; é o primeiro dos temas. Temos 57 mil assassinatos por ano, números intragáveis. Essa violência incluio urbanismo: tímidas conquistas são imediatamente postas abaixo. A violência é nosso veículo e pensamos pouco nisso. Na minha obra, essa característica é usada em uma espécie de reversão. Peço um pouco de violência nos seres para desestruturar o que está muito fixo. É um tema forte para mim. Nos Sermões, que é um texto mais desinibido – muito mais que o Junco, que reescrevi durante 15 anos –, muito associativo nas várias vozes que vão entrando, há um fluxo que guarda relação com essa minha coisa com os materiais: fazer o duro parecer mole, o mole parecer duro, o artificial parecer natural, o natural ser mais plástico. Me sinto muito exposto, como poucas vezes me senti. Foi necessária uma violência aí.

Sua obra está marcada pela dualidade existente entre a forma e o disforme, entre criação e destruição. Parece que em tudo o que você faz existe a onipresença da morte e a resistência da memória – me refiro tanto a obras como Morte das Casas quanto a poemas do Junco, em que você brinca com A Máquina do Mundo do Drummond. Neste Sermões, o texto é uma máquina a serviço do pau. O sexo é a única saída para o esgotamento?

O Drummond escreveu também muitos poemas eróticos e explícitos. Essa coisa da fusão está nele, a pedra-sabão está nele. Até mesmo a poesia familiar, política, o agora da polis, são temas drummondianos, e neles, em vez de procurar o contraste, ele busca a fusão; ele não quer que uma coisa exclua a outra. No Cabral, a gente vê os elementos mais separados, em desaceleração. Já Drummond é acelerado, tenta aproximar violentamente os opostos. Desde muito jovem eu o li. A transcrição do sexo para a palavra já é tão falha que… você ter uma experiência amorosa e tentar escrevê-la é um desafio muito grande, o fracasso está sempre próximo. Nos sinônimos para falar do sexo, é muito diferente falar “pau” ou “caralho”; ao contrário de, sei lá, escolher entre “luz” ou “claridade” para falar da cor branca, que são termos mais próximos. Há uma exigência muito grande ao escolher os palavrões. Por exemplo, fiquei na dúvida sobre usar “cona” ou “buceta”… “Buceta” é uma palavra que ocupa a sala toda, muito forte; preferi “cona”, mais neutra. A tradução de Sexus, do Henry Miller, que reli 200 vezes, usava “cona”, talvez por isso a usei. Mas, voltando à história do esgotamento, no livro eu falo desse sexo que está acabando, o sexo de um sujeito que está morrendo, e que vai acabar em uma deusa que está sendo comida, uma deusa hermafrodita, que tem um pau dentro dela que se mexe. A deusa sexual é inacessível, pois é autopenetrada, a Mestra. É uma falência da vida, uma perda de contato que acaba liberando o lado discursivo do personagem. O sermão vem na falência do Eros. É o percurso de alguém que está perdendo esse acesso ao sexo. Ele vai caminhando para a morte como se houvesse um abraço inevitável do qual não se consegue fugir.


Queria que você falasse um pouco do começo da carreira. Sei que você estudou no Equipe, onde tinha um curso de redação famoso, do Gilson Rampazzo. Essa formação foi importante para a sua escrita? Quando você se imaginou artista e quando pensou que poderia ser escritor? Como uma coisa vai parar na outra?

Comecei a escrever antes mesmo do Equipe, aos 12 anos. Meu pai dava aula de literatura na USP, ele era português e me mostrava Fernando Pessoa, só que morreu muito novo – eu tinha 14 –, então fiquei nesse lugar da literatura muito sozinho. E sempre me vi como um escritor, não um artista plástico. Quando fui estudar filosofia, pensei em fazer algo que meu pai não era. Leio muito mais do que eu entendo, tenho uma reflexão muito fraca. Alguma coisa aconteceu na minha ligação com o texto que me deixou meio em crise, porque escrevia sobre coisas que não sabia do que estava tratando, daí parti para as artes plásticas. Artistas como Herberto Helder, Jorge de Lima, Murilo Mendes, têm uma sabedoria do sentido do tempo muito mais rigorosa, e eu tenho um pouco de medo disso. Como sempre gostei da matéria – que não mente: ela cai –, busco o real. Então essa coisa muito abstrata, feita de vento, que a palavra tem, nunca me atraiu: eu busco a materialidade, a coisa física – por pior que seja o resultado. Sempre gostei disso em artes plásticas, o corpo da tinta. Comecei tarde nas artes plásticas, aos 22 anos, muito mais tarde do que na literatura. Aliás, eu tenho alguma técnica como escritor, mas muito pouca como artista plástico. Não sei desenhar, não sei pintar, não sei fazer nada.

Alguns museus têm impedido que os frequentadores façam selfies. O que acha disso? Como você interpretaria as pessoas se fotografando emfrente às suas obras?

Bater uma foto da Mona Lisa já é uma selfie: é um registro de que você esteve lá. Acho que a gente perdeu muito a naturalidade quando se usufrui cultura. A segunda vez que fui a Alhambra era uma excursão, você tem dez segundos para cada sala, as pessoas vão te empurrando. Gosto de ir ao Louvre para ver o barroco espanhol, por exemplo, porque ninguém vai lá. É legal essa coisa da vagabundagem na arte. Uma vez fui ver o Manet em Nova York e requeria umexercício militar, todo mundo em fila, agora olha, agora não olha. É difícil. A selfie está nesse contexto de massificação de tudo. Talvez a gente se habitue a isso. Mas que atrapalha a fruição da arte, ah, isso atrapalha. Agora, se fizerem isso comigo, não tenho como evitar. É um enigma como a arte chega no espectador. Temos de lutar pra não perder a aura, a potência, a espontaneidade. Então, de repente, o cara fazendo selfie pode até ter uma leitura melhor da minha arte do que alguém que ficou duas horas dando voltas ao redor de uma obra minha. Ué, pode ser, como vou saber?

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