Violência: repulsa e fascínio

Individual de Igor Vidor na Galeria Leme levanta indagações sobre a adequação da arte política às leis do mercado

Paula Alzugaray
Série de colagens em papel de seda, de Igor Vidor (foto Filipe Berndt)

No começo do século 20, etnógrafos e surrealistas dissidentes ligados a Georges Bataille e Michel Leiris promoveram na revista Documents (1929-1931) reflexões sobre o papel do museu na valoração da obra de arte. Embora não tenham mencionado ou creditado O Capital, de Karl Marx, as análises se alinhavam à oposição entre valor de uso e valor de troca que o filósofo revolucionário socialista desenvolveu em sua crítica da mercadoria. Resumidamente, os teóricos da Documents relacionam a mais-valia estética dos objetos assimilados pelo museu com a mais-valia mercantil que abstrai dos objetos seu valor de uso. Em artigo de André Schaeffner, por exemplo, a crítica à retirada de uso dos objetos e sua redução às propriedades formais toma como exemplo o silenciamento de instrumentos musicais quando expostos num museu etnográfico.

As questões colocadas há quase cem anos em relação à lógica dos museus ainda vigoram no sistema de arte contemporânea: podem os documentos sobreviver à sua descontextualização? Como proceder para que objetos, fotografias e filmes colhidos in loco possam guardar algum frescor, uma vez consignados em livros ou confinados em vitrines? Uma consistente vertente da pesquisa artística contemporânea – que se relaciona com contextos sociais, sua produção artística e/ou conteúdos documentais – enfrenta estas questões. É o caso da obra de Igor Vidor, exposta por primeira vez no contexto de uma galeria de arte comercial.

Há cerca de seis anos, o artista nascido em São Paulo e residente no Rio de Janeiro engaja-se em projetos artísticos de viés político e social (leia portfólio do artista na edição #29 da seLecT). É natural, então, que seus processos levantem uma interrogação a respeito de como se adequam às leis do mercado de arte. A primeira dificuldade que se apresenta ao se produzir uma leitura da exposição Heróis Nunca Celebram Vilões – Heróis Apenas Celebram Vilões, na Galeria Leme, em São Paulo, é encarar os trabalhos que Igor Vidor realiza sobre jovens vítimas da violência social e expostos à violência urbana como objetos vendáveis. Isto é, como “obras de arte” em vez de trabalhos.

A naturalização da violência – instalada e enraizada no cotidiano da cidade do Rio – é o tema desenvolvido pelas dez obras em exposição. A mostra é composta por duas categorias de objetos: aqueles produzidos pelo artista – escultura, filme, instalação – e aqueles coletados in loco, nos contextos sobre os quais ele está trabalhando. Estes, são evidências (documentos) desconcertantes.

Batidão M4A1, de Igor Vidor (Foto: Paula Alzugaray)

Entre os trabalhos realizados por Igor Vidor a partir do processamento de sua experiência, impõe-se na parede central da galeria uma corrente de pescoço agigantada, cujo pingente é uma réplica perfeita de fuzil M4A1. A obra Batidão M4A1 (2018), feita com corrente náutica de ferro e arma de brinquedo, é a primeira de uma série de “correntes” elaboradas na escala do Cristo Redentor, para serem imaginadas no pescoço do símbolo maior do Rio de Janeiro.

Ordinários nº1, de Igor Vidor (Foto: Paula Alzugaray)

A instalação Ordinários nº1 (2018) reúne um conjunto de objetos, entre eles um guarda-chuva e uma furadeira elétrica que, pendurados em uma barra de ferro, à primeira vista guardam alguma similaridade com o objet trouvé surrealista – objeto encontrado ao acaso pelo artista e exposto como obra de arte, em procedimento atualizado do ready-made de Duchamp. Mas uma investigação mais atenta sobre a construção de Ordinários nº1 afasta do trabalho a ideia de um encontro aleatório de objetos díspares, na medida em que, aqui, as escolhas são feitas por uma característica comum: são objetos inofensivos que foram confundidos com armas.

Roubei-lhe a Idade e lhe Cobrei Juízo, instalação de Igor Vidor (Foto Filipe Berndt)

Mas a exposição elabora também a prática da coleta de objetos encontrados. Uma das mais impactantes instalações, Roubei-lhe a Idade e Cobrei Juízo (2018), é composta por armas de brinquedo construídas por crianças para serem usadas em seu dia-a-dia no Morro do Vidigal, no Rio, e “confiscadas” pelo artista. Alinhados na parede, esses objetos correspondem aos documentos a que os etnógrafos de Documents se referiam. Deslocados do perigo que representam quando estão nas mãos de crianças expostas às leis do tráfico, esses brinquedos viram documentos. Mas, ao serem descontextualizados e inseridos no espaço da galeria, são expostos a outro tipo de perigo: entrar na lógica da mais-valia mercantil.

O artista, no entanto, não parece estar alheio a essa problemática que se desprega da matéria que escolhe para seu trabalho. Ele demonstra estar plenamente ciente do perigo da estetização da violência (tema antigo da arte brasileira, dissecado por Glauber Rocha no clássico texto A Estética da Fome) na obra Se Você Está Ouvindo Isso Já é Tarde Demais (2018), que configura um móbile feito com cartuchos de balas (perdidas?), que pende do alto da galeria projetada por Paulo Mendes da Rocha como um lustre luxuoso.

Obra da série de colagens em formato de pipa

O jogo de tensões entre repulsa e fascínio também está implícito na série elaborada em colagem de papel de seda, no formato de pipas que são empinadas nas comunidades cariocas. Importante lembrar que empinar pipa é uma das brincadeiras mais antigas do mundo – pelo menos do mundo carioca. Ao mesmo tempo, o jogo foi recentemente instrumentalizado pelas guerras do tráfico e hoje servem a um sistema de comunicação entre gangues. Nesta série de colagens de rara beleza – em que imagens de violência escaneadas e impressas em papel de seda são articuladas a padrões geométricos coloridos –, o artista declara o fim da fronteira entre a infância e o mundo cão.

Documento 1 – Anotações Livro Caixa

Resumidamente, Marx estabelece na abertura de O Capital que a utilidade de uma coisa é uma propriedade que depende diretamente de seu contexto de uso. Já a mercadoria, objeto com valor de troca, é um objeto que é tirado uso para ser posto no mercado e trocado. As obras da exposição se equilibram entre esses sistemas de validação. Mas há ainda um terceiro grupo de objetos, que não está à venda. Trata-se de Documento 1 – Anotações Livro Caixa; Documento 2 – Fotografia Garoto/Sigsauer; e Documento 3 – Painel. Até que não se saiba que esses documentos não são “obras de arte”, mas uma coleção de referências de pesquisa do artista, sua presença na exposição é perturbadora. Afinal, Documento 1 é uma folha de caderno com uma lista feita à mão de valores levantados com a venda de drogas, emoldurada em uma caixa de acrílico vermelho.

Inseridos entre obras vendáveis, esses documentos criam um ruído no espaço expositivo que não deixa de remeter à antiarte dadá, que se constituía não de “obras de arte”, mas de intervenções deliberadamente incômodas, absurdas e inesperadas.

Serviço
Igor Vidor – Heróis Nunca Celebram Vilões – Heróis Apenas Celebram Vilões
Até 15/8
Galeria Leme
Av. Valdemar Ferreira, 130 – SP
galerialeme.com

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