Virginia de Medeiros: alma de bronze

Artista divide com seLecT o processo de criação de seu novo projeto, desenvolvido com mulheres da frente de luta por moradia do MSTC

Paula Alzugaray
O material já captado do projeto Alma de Bronze inclui retratos e entrevistas com mulheres da frente de luta do MSTC, residentes da Ocupação Cambridge; além de imagens das fachadas de edifícios do Centro de São Paulo, ocupados por movimentos sociais (Fotos: Cortesia da Artista)

Virginia de Medeiros está entre os cinco artistas que fizeram parte do Programa de Residência Artística Cambridge. De novembro de 2016 a janeiro de 2017, ela ocupou um apartamento no 15º andar do antigo Hotel Cambridge, em São Paulo. Conviveu com os residentes locais – imigrantes, refugiados e trabalhadores de baixa renda, filiados a movimentos sociais ali instalados desde 2012 – e estreitou laços com oito mulheres da frente de luta por moradia do MSTC (Movimento Sem Teto do Centro). O trabalho continua em processo e será apresentado este ano dentro do edifício da Ocupação 9 de Julho.

“Quero que as pessoas possam viver um pouco do que experimentei lá. Provocar o encontro. Estar dentro desse território é entender de verdade o que é aquilo”, diz Virginia de Medeiros à seLecT. “Esse trabalho não é só o registro de uma alteridade, não é só uma questão de escuta, de tirar aquelas pessoas da obscuridade. Isso existe, mas é muito mais que isso. É uma ativação mútua de mundos.”

Alma de Bronze (2018) dá continuidade a uma sequência de trabalhos que desconstroem representações sociais excludentes, que já abordaram prostitutas, travestis, moradores de rua, sadomasoquistas, e agora se volta a mulheres trabalhadoras domésticas, que dividem suas vidas privadas – afazeres do lar, filhos e empregos – com a luta pela habitação. O intuito é investigar a força individual e coletiva que emerge do movimento.

Vermelho é a cor do feminino, da luta e da bandeira das mulheres do MTSC. Mas o bronze, que surgiu em uma conversa com a líder do movimento, Carmen da Silva Ferreira, foi o elemento escolhido para nomear o trabalho. “Carmen me disse que foi tomada por uma alma de bronze, assim como o poeta é tomado pela poesia”, diz Virginia. O brilho do metal que fabricou muitas armaduras ao longo da história vai ao encontro do que a artista descobriu nessas mulheres – o espírito guerreiro – e do modo que escolheu traduzir sua experiência com elas – uma “estética épica”. “Vamos realizar um encontro para discutir coletivamente como cada uma traduziria em imagem a ideia da heroína”, conta. No processo de construção dessa estética épica, a artista quer promover aulas de canto para o grupo, a fim de montar um coral de vozes femininas e de crianças, com o grito de luta: “Quem não luta tá morto”.

A exposição será composta de uma videoinstalação de viés documental com depoimentos de oito moradoras da ocupação Cambridge, um ensaio fotográfico de viés ficcional, com a estética épica das guerrilheiras contemporâneas, e um filme sobre a líder do movimento. “Todas as mulheres falam de Carmen. Ela está dentro de todas as narrativas e descobriu que é capaz de mostrar o movimento pelo viés do sensível. Quero conversar com ela sobre a arte, esse extrato que entrou na vida dela”, diz Virginia.

  • Fachadas de edifícios do Centro de São Paulo, ocupados por movimentos sociais
  • Fachadas de edifícios do Centro de São Paulo, ocupados por movimentos sociais
  • Fachadas de edifícios do Centro de São Paulo, ocupados por movimentos sociais

Lugar de escuta e lugar de fala
Alma de Bronze, assim como Studio Butterfly (2006), gerado ao longo de um ano e meio em uma sala no centro comercial de Salvador, que funcionava como ponto de encontro entre a artista e travestis, ativa uma inquietação contemporânea: o lugar de fala. Se, no século 20, a antropologia atualizou a abordagem da alteridade, abrindo-se à escuta de identidades e coletividades silenciadas, o século 21 inaugura a urgência do lugar de fala, isto é, a autonomia da expressão que prescinde da mediação do antropólogo, do artista ou do documentarista. Isso coloca em xeque o “artista enquanto etnógrafo”, estudado pelo crítico Hal Foster nos anos 1990. Os trabalhos de Virginia de Medeiros situam-se em um lugar intermediário, que ela reconhece como “lugar de encontro”.

“Como artista me sinto uma performer. Não me sinto uma mediadora, mas uma catalisadora, porque tenho de ser atravessada por aqueles com quem trabalho”, diz. (Esse lugar) “não é o meu mundo, nem o mundo da outra pessoa. É um terceiro lugar, ponto de intercessão. Não tem sujeito, não tem objeto. São dois corpos performando, se inventando. Porque, quando você liga uma câmera, você liga um lugar de invenção, de ficção.”

As trocas funcionam, para a artista, como lugar de autoconhecimento e transformação, de suscetibilidade e de fragilidade. “Não tenho nenhum domínio do sadomasoquismo, do mundo das travestis ou das boates de prostituição. Mas, quando chego lá, desmonto meus estigmas, meus estereótipos. Não chego com verdades nem com um projeto a priori. Ser um artista sem um projeto é um lugar de fragilidade também.”

Seus trabalhos ativam “uma força que lhe foi tirada”, pelo contexto familiar ou pela formação rígida que teve, estudando em escola de freiras. Em Fábula do Olhar (2012-2013), ela trabalhou com moradores de rua de Fortaleza e entrou em contato com um desejo antigo, do tempo em que sentia que tinha vocação para freira. “No refeitório, onde os moradores de rua comiam, comecei a distribuir pão. Entrei nessa viagem sacra.”

Mostrar Alma de Bronze em uma galeria ou instituição de arte apenas reforçaria o paradigma do artista etnógrafo, que se apropria de um contexto para transportá-lo a outro. Ao contrário, Virginia de Medeiros diz querer tornar-se um braço do movimento e trabalhar para ele. “Foi especial para mim estar nesse lugar, nesse momento. Estava destruída emocionalmente, passando por uma separação. A vida me deu a chance de estar com mulheres que tinham vivido histórias de destruição. Comecei a acessar um lugar de força que eu não tinha, como mulher”, diz. Em troca, ela oferece para essas heroínas contemporâneas a experiência da arte. 

  • Sem Título (2000), óleo sobre madeira de Arcangelo Ianelli (Foto: Reprodução)
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