Bansky: vista para o conflito

Entre aplausos e polêmicas, Bansky inaugura hotel temático diante do muro que divide palestinos e israelenses

Paula Alzugaray
The Walled Off Hotel (Foto: Divulgação)

É uma piada? Para a pergunta mais frequente sobre o recém-inaugurado The Walled Off Hotel, a resposta é não. “Trata-se de um hotel artístico genuíno, com instalações totalmente funcionais e vagas limitadas de estacionamento. Operado pela comunidade local, oferecemos calorosas boas-vindas a qualquer um, de ambos os lados do conflito, e de todo o mundo”, apontam os administradores no site do hotel.

É tudo verdade. Inaugurado em março, o hotel “com a pior vista do mundo” está posicionado em frente à barreira de concreto de 8 metros de altura que divide Belém de Jerusalém. Tem restaurante, piano-bar, galeria de arte palestina, livraria com bibliografia sobre o muro e um museu da história do conflito. Há três categorias de habitações: as suítes Scenic, com vista privilegiada, os quartos Budget, caracterizados como barracas do exército israelense, a US$ 30/noite, e uma suíte presidencial “equipada com tudo que um chefe de Estado corrupto precisaria”, segundo o site do hotel. Em seu estatuto, The Walled Off Hotel afirma não estar alinhado a nenhum movimento político ou grupo de pressão. O objetivo é contar a história de cada lado do muro e dar aos visitantes a oportunidade de descobri-la por si mesmos. Absolutamente, nenhum fanatismo é permitido no local.

Vista de quarto do hotel-obra de Bansky, com vista para o muro de 8 metros que divide territórios de Belém e Jerusalém

 

Esse híbrido de parque temático e intervenção urbana com crítica social é o último trabalho de Bansky, pseudônimo do street artist de identidade desconhecida que se notabiliza pelo ativismo pacifista. Desde o início de sua atuação na cena artística underground de Bristol, Inglaterra, nos anos 1990, sua marca é o grafite, utilizado com a técnica do estêncil, como ferramenta crítica ao abuso policial, ao capitalismo, ao consumismo e ao terrorismo. Entre seus trabalhos mais conhecidos, destacam-se justamente os grafites sobre o muro da Cisjordânia, como o manifestante mascarado que atira um buquê de flores, no lugar de uma bomba. 

Férias na Palestina
As avaliações do The Walled Off Hotel, feitas por usuários do site TripAdvisor, ostentavam no início de maio 13 generosas resenhas. Doze hóspedes apontavam o The Walled Off Hotel como “Excelente” e um como “Muito bom”. “Nota 10 em estilo, nota 10 em limpeza, nota 10 em humor”, diz um dos reviews publicados. Um viajante de Los Angeles (EUA) escreveu uma resenha com nada menos que 2.200 palavras para o que considerou “uma das melhores viagens e experiências de minha vida”. Outro hóspede natural do Colorado (EUA), que viajou com a família, diz que o hotel superou suas expectativas e recomendou-o como uma “fantástica e informativa viagem para se fazer com adolescentes”.

O grafite de soldado israelense em guerra de travesseiro com civil palestino, na parede de um dos quartos, gerou incômodo entre palestinos

 

Diferentemente do que aparece no feed do TripAdvisor, a opinião pública palestina está dividida. Jamil Khader, professor da Bethlehem University e articulista do jornal AlJazeera, afirma que o novo projeto do artista britânico é um “poderoso statement anticolonial contra o imperialismo britânico, o projeto colonial sionista, a ocupação israelense e as políticas de apartheid da Palestina”. Em artigo publicado em 13 de março, o autor defende que o “pedido de desculpas” pela ocupação britânica da Palestina em 1917 se materializa especialmente em uma das maiores atrações do hotel: o piano-bar. Segundo o articulista do AlJazeera, o bar é uma espetacular e fetichizada simulação de um dos legados da história colonial, o Gentleman’s Club (Clube de Cavalheiros). “O Clube de Cavalheiros serviu de cenário para a narrativa subliminar da Declaração de Balfour, um documento histórico atroz, cujos efeitos ainda moldam o projeto sionista de limpeza étnica na Palestina”, aponta Khader.

Mas artistas locais acusam o britânico de banalizar e explorar economicamente o conflito. “O trabalho de Bansky traz muitas pessoas a Belém para ver o muro e a cidade”, diz o palestino Ayed Arafah ao jornal The Independent. “Mas agora todas as pessoas vêm tirar fotos das pinturas e dos grafites, como se estivessem na Disneylândia e como se vivêssemos num zoológico.” Para ele, é extremamente incômoda a imagem de um soldado israelense fazendo guerra de travesseiro com um guerrilheiro palestino, grafitada em um dos quartos do hotel. Já o grafiteiro Muhannad Al Azzeh discorda veementemente de Bansky disponibilizar a sua instalação como um ponto de encontro entre israelenses e palestinos.

Vista para o The Walled Off Hotel (Foto: Issam Rimawi/Anadolu Agency/Getty Images)

 

Humor e terror
Nesse sentido, o palestino Al Azzeh teria de concordar com o escritor israelense Amós Oz, que no ensaio Entre o Certo e o Certo, apresentado em discurso na Alemanha, em 2002, queixa-se dos convites que recebe de pacifistas europeus “para passar um agradável fim de semana com parceiros palestinos, colegas palestinos e sósias palestinos, para que possamos aprender a nos conhecer mutuamente, a gostar uns dos outros, para tomarmos um café juntos e assim constatarmos que ninguém tem chifres e rabos – e assim o problema desaparecerá”.

Antes de “sentar para tomar um café” ou passar a tarde juntos num hotel com vista para o muro, Oz defende que israelenses e palestinos fundamentem um “compromisso”, ou seja, um acordo de concessões mútuas para a criação de dois Estados, divididos de acordo com as realidades demográficas.

O castelo mal-assombrado de Dismaland (2015), sátira subversiva da Disneylândia

 

Amós Oz, no entanto, é também um defensor do humor e da curiosidade como dois poderosos antídotos ao fanatismo. E convenhamos que, de humor, Bansky entende. A crítica que ele hoje recebe de espetacularizar o conflito entre judeus e árabes pode ter uma resposta em um trabalho de dois anos atrás, Dismaland (2015).

Sátira subversiva da Disneylândia, Dismaland (Terra Sombria) foi uma intervenção nas ruínas de uma piscina pública abandonada em Weston-super-Mare, no litoral oeste da Inglaterra. O projeto foi montado em sigilo e o local foi alugado com o pretexto de filmagem de um filme de terror. Contando com a colaboração de 60 artistas, entre eles o eterno tubarão Damien Hirst, o parque foi divulgado como “a mais decepcionante atração do Reino Unido”.

Uma das imagens de impacto do parque de Bansky

 

As filas para as atrações chegavam a 40 minutos de espera. O hit não poderia deixar de ser o castelo da princesa, um escombro de lama e goteiras, dentro do qual Cinderela era encontrada morta, com sua carruagem capotada, cercada por sedentos paparazzi. Outro ponto alto era o lago, que, em vez de cisnes, ostentava barcos com bonecos de imigrantes amontoados, sob uma sinistra torre de vigilância.

Obscura paródia da realidade geopolítica atual e das estratégias de infantilização da humanidade alimentadas pelo capitalismo selvagem, Dismaland e, por que não, The Walled Off Hotel traduzem a crítica que Amós Oz teceu à transformação do mundo em um “jardim de infância global, cheio de brinquedos e gadgets, balas e pirulitos”.

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