Vitória Cribb: para o meu amigo algoritmo

Vídeos e textos da artista carioca replicam as experiências de flutuação e dispersão da internet, comentando as ambiguidades das redes sobre a nossa subjetividade

Leandro Muniz

N° Edição: 48

Publicado em: ANO 09, Nº 48, Set/Out/Nov 2020

Categoria: A Revista, Destaque, Reportagem

Frames do vídeo @lusão (2020), produzido por Vitória Cribb durante webresidência no Olhão (Foto: Cortesia da artista)

O vídeo @ilusão começa com uma cena em que uma espécie de deserto, ou oceano de informação, se transforma aos poucos na figura de uma mulher. Sua pele é a superfície por onde corre um texto. Construído digitalmente, o vídeo é narrado pela artista Vitória Cribb (Rio de Janeiro, 1996), que relata com pesar os ciclos repetitivos das longas jornadas na internet, a anestesia do corpo e o mal-estar causado pelo controle algorítmico.

Se a repetição é um tema que o vídeo aponta com melancolia e intenção crítica, a operação formal que o constitui é uma espécie de flutuação entre sequências de sons e imagens que parecem emular a dispersão própria da navegação na internet, em que links, pop ups e janelas se abrem infinitamente.

Estudante de desenho industrial, Cribb transita entre a produção de imagens e vídeos digitais – que exibe em painéis eletrônicos na cidade ou em plataformas on-line –, projetos comissionados para espaços independentes e instalações feitas em festas. Sua investigação passa pela exploração da potência desses deslocamentos por espaços além da arte, considerando a precariedade institucional para trabalhos que lidam com mídias digitais.

ENCONTROS PROGRAMADOS
Em setembro de 2020, Cribb publicou, na revista O Turvo, o texto Espontaneidade Programada, comentando seus mixed feelings ao ter a música Technologic (2005), do Daft Punk, recomendada para ela em uma plataforma de streaming. A artista se endereça diretamente aos algoritmos, indagando, com intimidade, como eles nos rastreiam, compreendem nossos padrões de comportamento, nos sugerem aquilo que gostamos, mas não nos podem ouvir. Essa lógica reitera uma aproximação entre iguais, em que acasos e encontros parecem programados e codificados, “consumindo nosso 4G, bateria e energia vital”, segundo a artista. A materialidade das telas touch screen e essa nova condição do corpo – estático, mas em plena atividade psíquica, inclusive, implica grande desempenho motor – dedos e olhos frenéticos –, além do processamento subjetivo de informações e estímulos visuais e sonoros.

No texto Tecnologias da Felicidade (2): Você É um Zumbi Controlado pelos Algoritmos?, o psicanalista Christian Dunker discute como a exposição excessiva às telas provoca a atrofia do córtex e a redução da sensorialidade não visual. Essas experiências parecem descritas nas relações entre as imagens e os textos de Cribb, assim como o paradoxal excesso de socialização das redes, em relação à solidão física dos usuários diante da tela personalizada. @ilusão descreve, então, a sensação de um mundo mediado por superfícies anódinas e a experiência da apatia e da anestesia dos sentidos em meio ao excesso de estímulos informacionais e imagéticos.

TEMPO IMPRODUTIVO
Na música do Daft Punk, verbos no imperativo descrevem o consumo digital: compre, clique, apague, atualize, envie, comprima, descomprima, baixe, nomeie, e assim por diante, em repetição. Porém, essa compulsão de uma ação em outra, ainda que seja uma referência para Cribb, não encontra vigor em seu vídeo. Em @ilusão, ou mesmo em seu texto, a artista cria uma atmosfera de desfuncionalidade e melancolia. O tempo menos produtivo e a eficácia no uso de ferramentas de blender e renderização são pretextos para a criação de uma temporalidade dilatada, lenta. Se @ilusão mostra uma mulher racializada monumentalizada, seus olhos vidrados e seu grito mudo demonstram uma relação de mal-estar com esse universo.

Sobre o corpo da personagem é projetado – ou circula, como o sangue? – um texto que replica o procedimento da música da banda europeia de elencar uma série de verbos. Aqui, porém, eles desfilam no infinitivo: ouvir, despertar, desbloquear, deslizar, pensar, urinar, lembrar, deslizar, clicar, ler, abrir, fechar, marcar, bocejar, fingir, e assim por diante. Além da diferença entre o imperativo e o infinitivo, é marcante no texto a intromissão de experiências ligadas ao funcionamento orgânico do corpo, diferentemente da música, que desencadeia ações mecânicas e tecnológicas.

Podemos especular sobre as mudanças de contexto para tais diferenças. Enquanto a música do Daft Punk foi produzida em 2005 por uma dupla de homens brancos europeus, @ilusão foi produzido por uma mulher negra em 2020 no Brasil. “Eu sou uma das poucas mulheres negras, aqui, trabalhando com essa linguagem que une arte e tecnologia, mas não quero ser enquadrada em categorias, como a ideia de afrofuturismo. Já me identifiquei no começo, mas acho que o trabalho pode percorrer outros caminhos”, diz Cribb à seLecT.

É importante ressaltar que, ainda que a produção de Cribb seja recente e uma série de possibilidades do trabalho ainda não tenha sido explorada, assim como algumas sínteses formais e conceituais ainda não estejam bem resolvidas, a artista tem uma circulação internacional – virtual – maior do que no contexto nacional. Apesar dos limites institucionais para a absorção de “novas mídias” no Brasil – tanto na produção quanto na exibição –, há outras potências envolvidas na circulação pela internet que permitem que um vídeo feito no Rio de Janeiro seja exibido num letreiro digital em Nova York, apenas com o envio de um arquivo.

Com o cenário institucional em desmonte, hoje no Brasil, e poucas iniciativas de ponta que incentivem a experimentação com os meios digitais, o mercado domina, determina calendários institucionais e formata parte da produção artística – que se torna excessivamente objetual e domesticada. Nesse contexto, mesmo que, com seus trabalhos digital born, Cribb não proponha estratégias de desmonte e recodificação no uso dos algoritmos, ela expõe os limites de sua ação em nossa subjetividade.

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