Viva as rugas das cidades

Sociedade civil organiza-se em pequenas associações e restaura os afetos entre cidadãos e cidades

Giselle Beiguelman

N° Edição: 4

Publicado em: 07/03/2012

Categoria: A Revista, Reportagem

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Churrascão da gente diferenciada levou à cracolândia, em São Paulo, 1500 pessoas, 100kg de carne, linguiça e vinagrete

A palavra rua tem origem latina e vem de ruga, sulco, rego, vinco. Como as dobras da pele, as ruas são linhas que retêm a memória da passagem do tempo e suas histórias. O cronista João do Rio (1881-1921) dizia que a rua “é a agasalhadora da miséria.” Todos os renegados ali encontram seu espaço e é ali também que a cultura se reinventa, interferindo na língua, “matando substantivos, transformando a significação dos termos, impondo aos dicionários as palavras que inventa”, escreveu ele.

Território de criação, moradia, lembrança – pessoal e urbana –, a rua é hoje diretamente relacionada ao seu valor imobiliário. Rebeldes como João do Rio, que decidiu não compactuar com os livros que veem as ruas como mera sucessão de fachadas, várias organizações e coletivos vêm propondo ações independentes para repensar e viver as cidades. A recente operação dos governos do estado e do município de São Paulo na área da Luz, conhecida pejorativamente como Cracolândia, deu visibilidade a vários deles. Polêmica, a ação que propõe “estratégia de dor e sofrimento”, no seu plano de erradicação do enclave dos dependentes de crack do centro de São Paulo, gerou uma onda de protestos.

Variados e veementes, vão da contestação às políticas urbanas que teriam objetivo de higienizar socialmente o centro para favorecer a especulação imobiliária, passando pela crítica ao despreparo da Polícia Militar e chegando à confusão entre saúde e segurança pública. Mas isso tudo não se faz à custa da perda do bom humor – que parece ser uma das características da geração “pós-rancor”. Um dos marcos desse processo foi o Churrascão de Gente Diferenciada – Versão Cracolândia, que reuniu ativistas diversos na área em 14 de janeiro.

Nem todos os grupos que vêm discutindo o problema são formados por urbanistas, como a associação AmoaLuz, paulistana. Outras, como a BaixoCentro, também de São Paulo, são formadas por ativistas que procuram reinventar a sociabilidade, a partir de redes locais, reivindicando que “as ruas são para dançar”.

O fenômeno não se restringe a São Paulo nem ao Brasil e muitas vezes se articula com conglomerados multidisciplinares, como o Hackitetura, coletivo espanhol de artistas, ativistas, programadores e arquitetos, e o Fabrique Hacktion, francês, um grupo de designers que propõe “enxertos” nos equipamentos urbanos para melhorar o uso dos espaços públicos. De diferentes perfis e escalas, ecoam uma pulsação comum que é a restauração do homem como ser político por excelência, tendo a cidade, a polis, como seu lugar no mundo.

*Publicado originalmente na #select4.

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