Você planeja o futuro de sua obra?

Artistas brasileiros de várias gerações revelam se planejam a preservação de suas obras para as próximas gerações

Paula Alzugaray e Luciana Pareja Norbiato

Publicado em: 08/07/2014

Categoria: Fogo Cruzado, Reportagem

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Legenda: Foto: Rubber Seabra

Anna Bella Geiger – artista da primeira geração da videoarte no Brasil

“A condição atual da minha obra é muito precária. Não tenho temperatura ideal na minha casa, pois o Rio de Janeiro é muito úmido. Mantive meus primeiros vídeos em armários onde não havia umidade, o que, de certa maneira, salvou a maioria dos vídeos, não todos. Claro que, quando tive chance, comecei a fazer cópias, além das cópias realizadas pelo MoMA e por outras instituições. Eu tenho um grande número de obras em papel e, nesse último ano, agora que já estou com essa idade, pude obter uma verba pequena para ter uma pessoa para limpá-las. Minha obra é muito conhecida no exterior e aqui está começando a haver interesse. Num dos editais da Secretaria de Cultura do Rio de Janeiro, há uns três anos, ganhamos pouquíssimo para fazer um levantamento da minha obra. Consegui juntar 400 e tantas, fiz uma divisão por década para poder selecionar e, nas informações, fui passando a bola para os outros (artistas). Então, quem for pesquisar, não vai encontrar só dados sobre o meu trabalho, mas também exposições em que cito outros artistas participantes. É preciso fazer isso, é a história da arte brasileira. A minha memória, quando conto essas coisas, fica registrada.”

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Legenda: Foto: Cortesia do artista

Henrique Oliveira – artista

“Penso que o futuro vai decidir o que selecionar para ser preservado. A criação deve ser livre, os artistas não devem pautar seus trabalhos pela manutenção e preservação das obras. Essa tarefa cabe aos conservadores e à história da arte. Ao mesmo tempo que é cada vez mais difícil criar obras relevantes, há cada vez mais meios de registrá-las e mais tecnologia disponível para recriar trabalhos do passado.”

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Legenda: Foto: Everton Ballardin

Anna Maria Maiolino – artista

“Sempre tive e tenho total confiança no bom senso dos meus dois filhos e acredito que ambos vão cuidar com afeto do meu trabalho junto às instituições e aos museus.”

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Legenda: Foto: Fred Jordão

Paulo Bruscky – artista pioneiro da arte-xerox e da arte-postal no brasil

“O futuro do meu trabalho, entre outras coisas, será a continuação da TELEARTE. A minha obra já está preservada em várias instituições, como a Tate Modern-Londres, o MoMA-NY, o Guggenheim-NY, o Centre Pompidou-Paris, o MAM-SP e o Mamam-Recife, entre outras. Quanto às inúmeras obras que estão em meu acervo pessoal, meus três filhos já trabalham na organização, catalogação, preservação e divulgação de tudo, incluindo uma farta documentação.”

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Legenda: Sonia Andrade, em frame da videoperformance Sem Título (Feijão) (1974) (foto: Reprodução)

Sonia Andrade – artista da geração precursora da videoarte no Brasil

“Tenho preservado minha obra com os meios de que disponho e não planejei qualquer medida visando sua conservação futura. Na verdade, o futuro do meu trabalho vai depender dos meus herdeiros. Meus três filhos decidirão como administrar o meu trabalho. Ocasionalmente, converso com eles sobre esse assunto, principalmente sobre uma questão importante, que é o fato de que tudo aquilo que produzi durante os 40 anos de minha vida profissional me pertence. Nenhuma instituição ou colecionador jamais adquiriu algum trabalho meu e o resultado é que preciso de um espaço relativamente grande para guardar as obras. Os únicos que compraram obras minhas, no caso vídeos, foram o Getty Institute, a Universidade de Harvard e o Centre Pompidou. Como você vê, nenhum capaz de esvaziar o espaço….”

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Legenda: Foto: Toni Hafskensheid

Rosângela Rennó – artista

“Me disseram que o futuro a Deus pertence. Portanto, não planejo nada e deixo para Ele decidir o que fazer, já que deve ser o maior herdeiro do mundo…”

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Legenda: Yuri Firmeza (centro), na guitarra da ação performática A Banda de Um Dia (2013) (foto: Cortesia do artista)

Yuri Firmeza – artista e professor do curso de cinema e audiovisual da Universidade Federal do Ceará

“Eu não costumo pensar tanto no futuro do meu trabalho, mas todas as vezes que essa questão é posta em pauta eu, convictamente, afirmo que não ficará sob a guarda da minha “prole familiar”. Acho deplorável o desserviço que algumas famílias de artistas, com raras exceções, fazem à cultura encarcerando obras ou cobrando cifras estratosféricas por suas exibições e publicações. Tenho ojeriza também de pedestais póstumos. Trabalhos em que o artista, quando vivo, abole a ideia de Obra e investe na participação e, postumamente, são expostos em vitrines e pedestais. Da experiência-acontecimento ao mercado-fetiche. Por outro lado, a maioria das instituições brasileiras não tem a menor condição, estrutural e, sobretudo, política, de ter acervos relevantes dos quais se possa efetuar uma pesquisa com envergadura. Além disso, existem muitos trabalhos que são clarões voláteis, o que perdura é a experiência de quem participou daquela determinada ação… é o caso das performances, por exemplo. Tenho pensado muito nas conversas em sala de aula, obviamente não sobre meus trabalhos, mas vejo ali que movimentamos muitas heranças e, concomitantemente, vamos “repassando” aquilo que talvez de mais potente nós temos: “o pensamento”.

*Fogo Cruzado publicado originalmente na edição #18

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