Você se identifica como latino-americano?

Os artistas Adriana Varejão, Fernando Lindote, Raylander Martins, Vulkanica Pokaropa e Mano Penalva respondem à pergunta

Da redação
Adriana Varejão na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário em Cachoeira (Foto: Vicente de Mello)

Se a origem do termo América Latina remonta aos territórios colonizados por povos hablantes de línguas latinas, atualmente a concepção ganhou caráter de aliança e resistência. Vale apontar que, no intervalo de quatro anos entre as edições de 2010 e 2014 da pesquisa “O Brasil, As Américas e o Mundo”, do Instituto de Relações Internacionais, da USP e do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, o porcentual de entrevistados brasileiros que se sentem latino-americanos passou de 2,8% para 6,7%. Artistas com pesquisas decoloniais posicionam-se em relação à questão.

Adriana Varejão
Sem dúvida, me identifico e me reconheço como latino-americana, embora o que seja exatamente essa “identidade” latino-americana é uma pergunta que eu me faço. Não sei precisar ainda se imaginamos uma América, se forjamos sua identidade e construímos uma história a posteriori, costurando relações, ou se vamos nos construindo a partir dessa confluência, enquanto nos enxergamos como parte de um todo. Gosto de pensar em uma América Latina indígena, ligada à terra, à cultura ancestral. Ao mesmo tempo, nessa América Latina que traz como grande riqueza ser uma mistura de tantas coisas simultaneamente, esse território-microcosmo onde convivem tantos povos e tantas culturas. Me identifico com essa terra, com a nossa ancestralidade e também com esse multiculturalismo pulsante. E reconheço em meu trabalho alguns temas latino-americanos por excelência, como o barroco mestiço e mais ainda o neobarroco como uma expressão de contraconquista. Também a teatralidade e a violência que atravessam profundamente a minha obra e o meu entendimento de uma América Latina comum, onde a natureza, a exuberância, os excessos, os extremos e o viés político e revolucionário estão intrinsecamente conectados.

Retrato com máscara de porco, Den Haag (2019)(Foto:Denise Bendiner)

Fernando Lindote
Para além da denúncia do povo charrua na cor da minha pele, mais que os resquícios de holandeses, espanhóis e portugueses, o que se coloca como origem não é tanto a circunstância histórica dos meus antepassados – implicada e determinante –, mas a minha condição excêntrica que reivindica limites às possibilidades de atuação e inserção no mundo. A condição de latino-americano é, antes, um estado de sobredeterminações recíprocas entre dominador e dominado. Optar por apenas uma das etnias que se cruzam em mim seria confortável. No entanto, essa opção me parece prematura e superficial. Para mim, não há possibilidade de seguir adiante sem aderir visceralmente aos conflitos que me tornam – nos tornam? – um campo permanente de batalha. Pois, quem sabe, dos espólios desse combate – de cada um e de muitos – possa surgir uma nova ficção social.

Raylander Martins (Foto: Acervo da artista)

Raylander Martins
Eu sou uma artista nascida no cafundó do mundo, e é assim que me inscrevo, em uma terra tão arredada do centro, que apenas as escrevivências inventadas neste fim de mundo podem situar minha existência e prática. Minha boca vem do meu cafundó, que vem do cafundó da minha boca. Eu sou um cacto espinhoso que toca o sol, e num futuro próximo irei atravessá-lo. Entendo que os povos do cafundó do mundo precisam elaborar continuamente práticas de aquilombamento e de coralidade, que permitam estar em segurança e sonhando, nesse sentido é importante se identificar e se reconhecer. Compreendo também que, se existe uma unidade entre nós, a unidade que o outro nomeou como América Latina, ela se funda justamente nas inúmeras cosmovisões e epistemologias dos povos que nasceram nesse cafundó. O conjunto América Latina, enquanto conceito de identidade estanque, responsivo à hegemonia, nada pode contribuir para estilhaçar a colonialidade, porque ainda está regido pelo que o outro define e categoriza. Já a América Latina, como a reivindicação de um grande levante, onde os processos específicos de cada uma de nós são levados em conta, celebrando assim nossas estranhezas, nessa sim, eu me inscrevo. 

Vulkanica Pokaropa (Foto: Samira Lemes)

Vulkanica Pokaropa
Quando escuto falar sobre a América Latina, de imediato, penso em colonização e em invasão. Me pergunto qual nome teria, se tivéssemos tido a oportunidade de sermos nomeadas pelas populações indígenas, que habitavam e habitam esses espaços. Por muito tempo me nomeei “Brasileira”, e apenas isto – por alienação e falta de acesso à informação, já que nos fazem acreditar que o Brasil não tem relação com os 19 países que compõem a chamada “América Latina”. Entendo que isso se dá por uma estrutura social capitalista, que não nos quer unidos. Que não quer o diálogo entre os moradores dessas nações. E que não permite nos organizarmos para a derrubada desse lugar de hierarquia e de exploração dos países que se dizem de “Primeiro Mundo” sob nossas economias e matérias-primas, nos mantendo continuamente como “terceiro-mundistas”. Questiono a forma como o nome “América Latina” nos foi imposto. Questiono o nome “Brasil”, que também nos foi imposto sob sangue indígena e preto. Mas penso também que temos muitas ligações e histórias que se entrecruzam. É de extrema importância nos vermos como aliados para que risquemos estratégias de sobrevivência, visto que essa elite branca, cisgênero e burguesa que está no poder quer continuar nos mantendo como mão de obra escrava para o Ocidente. Portanto, identifico-me como latino-americana, mas questiono como isso foi dado.

Mano Penalva (Foto: Leandro Viana)

Mano Penalva
Pensar se me sinto latino-americano é um exercício que exige atenção. Cair numa ideia geográfica, de um passado histórico, ou mesmo cultural, não dá conta desse ponto, que é grande. Essa não é uma pergunta que me faço com frequência, mas a primeira coisa que me vem à cabeça é o lugar de onde vim: Salvador, Bahia. Depois vou compondo uma imagem com os lugares onde passei e onde vivo hoje: São Paulo. Como artista, gosto de pensar esse tema como uma questão a ser seguida e latente, mesmo que não me sinta preso a ela. Ser latino-americano é algo que perpassa muitos momentos da minha pesquisa e em idas para alguns países da América Latina passei por situações ora ampliadas, ora reduzidas. Por vezes ser brasileiro me serviu mais. Nesse caminho me identifico muito com o pensamento de Néstor García Canclini, que diz que a América Latina é, mais do que uma identidade, (pode ser) uma tarefa. O exercício que nos propõe, refletir o que é ser latino-americano já é um passo importante para a construção desse imaginário coletivo ampliado.

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