Você tem fome de quê?

A partir da canção Comida, dos Titãs, e considerando os aspectos políticos do alimento, lançamos a pergunta a artistas e curadores

Da redação

N° Edição: 46

Publicado em: 13/04/2020

Categoria: A Revista, Destaque, Fogo Cruzado

O Grupo Vão (Foto: Mayra Azzi)

Em 1987, entoava na música comida, dos Titãs, um canto pela liberdade e pela cultura. A canção indagava sobre o que falta às pessoas, além do próprio alimento como necessidade básica. “A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”, diz a composição de Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Sérgio Britto, em resposta ao refrão: “Você tem sede de quê? Você tem fome de quê?”. Trinta e três anos depois, o músico, compositor e artista Arnaldo Antunes diz que as respostas lançadas pela música ainda vigoram: “Acho que o que ela diz ainda vale (ou vale mais ainda) nos tempos atuais, tão hostis aos desejos e liberdades”. A seguir, artistas e curadores falam de suas fomes.

Grupo Vão
Coletivo de dança
Fome é uma palavra que voltou a gritar nos arredores da cidade. O grito que vem do estômago, o grito que se manifesta num pedaço de papelão com letras traçadas com carvão “tenho fome”, “fome dói”. As lixeiras dos prédios e os sacos de lixo são abertos na procura de restos de comida que possam ser utilizados, ou de materiais que possam ser trocados por substâncias que saciam uma necessidade, um desejo, uma vontade. Necessidade de suportar a realidade da vida no sistema capitalista e em uma grande cidade. Poderíamos responder de inúmeras maneiras essa questão. Nós, grupo de mulheres brancas, “cisgêneras”, artistas, com ensino superior, classe média, não estamos passando por essa fome do estômago. E podemos não viver só de comida, mas também de diversão e arte, porque nossa barriga está cheia. Saciadas da fome primeira, poderíamos responder, enquanto artistas, que a nossa fome seria de políticas públicas para cultura; que cessasse o desmonte em nível federal, estadual e nacional; que a valorização do trabalho de artistas se efetivasse. Fomes legítimas, que fazem parte dos direitos de uma sociedade. Mas não dá para isolar a questão, restringi-la ao campo do acesso à arte, enquanto uma grande camada da sociedade brasileira volta aos índices da miséria. A necessidade humana é maior e mais ampla do que a fome de comida, é um fato. Mas, enquanto há fome, estômagos vazios e desnutrição, essa questão neste momento político e econômico toma outras proporções sociais. A arte, por si só, não dará conta de sanar ou transpor a fome simbólica, sem que esteja acompanhada de uma ação direta, de políticas públicas e da manutenção de direitos básicos, que ofereçam à população acesso a comida de qualidade e sem veneno, moradia digna, saúde e jornadas de trabalho que possibilitem o acesso a lazer e aos bens culturais. Cultura também diz respeito ao nosso modo de vida e exigir que todas as pessoas vivam com dignidade torna-se cada vez mais urgente. Para que a arte possa transformar a vida, e vice-versa, precisamos que as pessoas que compartilham dela, artistas e públicos, estejam aqui, alimentados no sentido mais amplo que essa palavra pode carregar.

Daniel Albuquerque (Foto: Jeff)

Daniel Albuquerque
Artista
Eu tenho fome de criar e pensar possibilidades para além das oferecidas por um mundo que insistentemente diz “não” para qualquer existência que não se conforme às suas expectativas. Eu tenho fome de uma arte que exercite a subjetividade de forma responsável. Eu tenho fome de uma poética que nos avassale e nos faça enxergar tudo aquilo que querem que acreditemos que é imutável, mas que na realidade é um constructo.

Samantha Moreira (Foto: Acervo pessoal)

Samantha Moreira
Artista, curadora e gestora cultural
Faminta da permanência dos fomentos, do não desmonte dos recursos e equipamentos públicos voltados à Educação e à Cultura. De estruturas, estratégias, políticas públicas que alimentem as nossas realidades e cotidianos. Que possibilitem a mesa posta, a fartura de investimentos, de parcerias e apoios equilibrados. Mais feijão na água, possibilidades de partilhas, de produções dignas, de trabalhos remunerados, que possam ser meios de sobrevivência, satisfação e respiro. Sentar à mesa com pessoas honestas, que pensam no bem comum, no trabalho conjunto, na inclusão, no acesso, na diversidade. Novos diálogos, sem receitas prontas, e sim avançando e atualizando processos e práticas que sabemos que funcionam e que podemos melhorar. A sobremesa? O Ministério da Cultura de volta, a Funarte de volta, com pessoas coerentes à frente de propósitos fundamentais e potentes. Arte é alimento inesgotável! E não migalha…

Catarina Duncan (Foto: Acervo Pessoal)

Catarina Duncan
Curadora
Eu nunca senti fome e, exatamente por isso, esse assunto me parece muito sério. Em julho de 2019, o atual presidente do Brasil declarou que “falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira, é um discurso populista”. Certamente, ele também nunca sentiu fome. Mas existe fome sim, e nem tão distante quanto se imaginaria. Tenho fome de que o alimento seja um direito básico garantido, e que seja acessível e de qualidade. Compreendo a fome como um assunto político que inclui questões de cultivo, distribuição de terra, nutrição e educação. Tenho fome por um pensamento integrado que considere a alimentação enquanto conhecimento e estudo, projetos como Lanchonete <> Lanchonete, coordenado pela Thelma Villas-Boas, na Gamboa, no Rio de Janeiro, a Escola Nacional Florestan Fernandes coordenada pelo MST e o artista Jorge Menna Barreto são apenas alguns exemplos de militâncias pelo alimento como garantia de um desenvolvimento criativo. Comida não é pasto.

Coletivo Trovoa (Foto: Gabriela Monteiro)

Trovoa
Coletivo artístico
Temos fome de um mercado da arte mais justo. Temos fome de não ver mais um corpo branco sempre à frente do nosso. Temos fome de uma estrutura de trabalho não precária. Temos fome de acessos. Temos fome de tempo para as nossas pesquisas. E tempo para descanso também. Temos fome de remuneração. E de remuneração justa e equivalente ao nosso tempo de trabalho e pesquisa. Temos fome de um trabalho livre e inquestionável em suas narrativas e materialidade. Temos fome pelo direito de ser. Temos fome de ter subjetividades compreendidas e não resumidas. Temos fome de uma não negação dos nossos corpos pelo Estado. Temos fome de coerência. Temos fome de estruturas menos rígidas e mais maleáveis. Temos fome de uma vida mais tranquila e menos carregada do peso de se ser uma mulher racializada. Temos fome de alegria e diversão em nosso cotidiano. Temos fome da não precarização do nosso trabalho. Sobretudo fome de poder dizer não às oportunidades precárias em que nos colocam. Temos fome de termos outras possibilidades de vida, além das que sempre nos são dadas como regra. Temos fome de nos sentirmos confiantes o suficiente para mostrar nossos trabalhos artísticos. Temos fome de um espaço para criação. Temos fome de viver de arte. Temos fome de ação. Temos fome e pressa de que nossos corpos sejam possíveis de habitar qualquer espaço. Temos fome de tornar todos esses sonhos possíveis.

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