Webarte na Bienal de Curitiba

Mariel Zasso

Publicado em: 05/09/2013

Categoria: Entrevista, Reportagem

Entrevistamos Maria Amélia Bulhões, curadora de Webarte da Bienal de Curitiba

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Legenda: Acima, imagem de My Boyfriend Come Back From de War (1996), da russa Olina Lialina. No destaque da home, detalhe de  Glitched Landscapes, uma das obras de Giselle Beiguelman selecionadas pela curadora Maria Amélia Bulhões. (Reproduções)

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Até 31 de dezembro, Curitiba é palco da maior e mais diversa Bienal Internacional desde os 20 anos em que o evento – a princípio chamado Vento Sul – é realizado. Este ano, não só pintura, escultura, gravura, fotografia e afins estão em exposição, mas também cinema, literatura, arte urbana, música e performance fazem parte do rol de expressões contempladas, sob curadoria de Teixeira Coelho e Ticio Escobar, com auxílio de doze curadores convidados. Dentre eles, Maria Amélia Bulhões, curadora, pesquisadora do programa de pós-graduação em Artes Visuais da UFRGS, colunista no jornal Sul 21 e diretora do portal www.ig.art.br. Autora de Web arte e Poéticas do território, foi convidada a colaborar fazendo a curadoria de mais um segmento que não ficou de fora do grande festival que é a Bienal de Curitiba de 2013, a webarte. Reunindo trabalhos criados com recursos on-line, reunindo diferentes recursos multimídias,esta é a única exposição da Bienal que você pode visitar agora mesmo, aqui mesmo, na frente do seu computador.

Confira abaixo a entrevista que Maria Amélia Bulhões concedeu à seLecT.

seLecT: São 150 artistas dos cinco continentes, mais de 100 espaços da cidade, e um sem número de expressões artísticas distintas que faz da Bienal um verdadeiro festival. Como você vê a diversidade desse projeto em aberto, essa amplitude dos segmentos, e a ideia de uma reunião de obras “sem título e sem amarrações”?

Maria Amélia: Como a Bienal tá completando 20 anos, eles resolveram expandir o evento. Sobre a curadoria, eu inclusive estive recentemente num seminário de crítica de arte e discutimos sobre isso, as curadorias têm se tornado um pouco como camisas de força para as produções artísticas. Inventa-se um tema, cria-se um conceito, e aí vai atrás de artistas que se encaixem naquele conceito. Justamente por isso, eu tinha grande expectativa quanto a essa proposta da Bienal de Curitiba de pensar isso. É uma mostra que quer reunir coisas interessantes que estão acontecendo sem nenhum viés conceitual em termos curatoriais. Acho que é uma experiência. O modelo bienal está em crise, isso está até no catálogo, então acho que essa é uma boa tentativa, uma experiência.

Quanto a sua curadoria, você deixa claro que esse tipo de produção, ubíqua e em trânsito, diversa, seu volume e suas diferentes tendências dificulta a seleção de uma amostragem. Como você selecionou?

Eu estou pesquisando sobre webarte há pelo menos 10 anos, então eu tenho um bom banco de dados de trabalhos, que inclusive está online no Territorialidade/Territoriality. São mais de 300 sites levantados nesses dez anos, então é uma pesquisa que já vinha sendo feita. Se eu tivesse que fazer essa pesquisa hoje, do zero, para essa curadoria, não diria que seria impossível, porque tu entra online e procura qualquer coisa. Mas eu tenho recebido muitos elogios sobre a seleção das obras, e justamente, eu pude fazer esta seleção por ter esse banco de dados com um levantamento de obras. Então eu trabalhei a partir do meu banco de dados. Na verdade, essas obras que estão nesse banco de dados elas já são selecionadas. Porque também não é tão simples reunir isso, é uma pesquisa que demanda uma busca diferente. No site da Webarte da Bienal, tem dados como nome do artista, país, ano, link, e tudo isso requer pesquisa, porque não está pronto online como uma etiquetinha num quadro. A curadoria foi resultado justamente desse trabalho de pesquisa que vem sendo feito ao longo do tempo, com o banco de dados, com o livro, que também me ajudou a refletir bastante sobre isso.

Claro que tem um foco, que vem do meu interesse de pesquisa, que é a territorialidade. De certa forma, todos os trabalhos tem em comum uma relação com a territorialidade. Não é exatamente um recorte curatorial, mas um recorte da minha pesquisa. São onze artistas, de diferentes países, e eu procurei artistas que além de ter um bom trabalho, tivessem uma espécie de carreira sólida, já com vários trabalhos, e uma bagagem consolidada. Foi uma escolha. Como webarte não é uma produção artística muito conhecida, eu achei que tinha que apresentar coisas mais consistentes para mostrar que existe uma reflexão e uma produção já consolidada nessa área, que não são só experimentos.

A internet promove novas dinâmicas em distintos setores da atuação humana, e obviamente sacode também o sistema da arte tradicional. A relativa democratização que ela promove, garantindo que mais gente possa criar arte, pode estar “incomodando” o universo da arte pré-internet?

Eu acho que sim, incomoda. E a reação do meio artístico é virar as costas. Não há uma crítica, um debate ou mesmo questionamentos contra ou anti a webarte, ela é ignorada mesmo. Nesse sentido, eu acho que esse tipo de curadoria serve também para problematizar, para colocar a questão na roda. Porque a webarte, ela existe independente da Bienal. Ela tem uma trajetória própria. E eu acho que exatamente o que ela faz é instaurar no campo da arte uma problematização, o que eu acho muito interessante para o próprio campo.

Se a gente fosse falar de possíveis diferenças da arte pré-internet e da arte, digamos, intra-internet, o que você destacaria?

Há alguns aspectos bem marcantes da webarte que são justamente os que mais problematizam o campo da arte. Primeiramente, a questão da autoria, o questionamento da autoria. Não só porque muitos trabalhos são feitos por equipes multidisciplinares, mas também porque engloba o próprio internauta, que torna-se copartícipe desse processo. O artista muitas vezes não sabe no que vai dar o trabalho, porque o resultado vai depender da participação do público. Isso é muito interessante do ponto de vista da arte. Claro que a questão do nome do artista e da autoria é muito forte no campo da arte, ainda que a arte contemporânea também questione essas coisas. Acho inclusive que no geral a webarte está muito afinada com a arte contemporânea, a performance, a instalação, uma série de expressões que também questionam.

O segmento de webarte tem a vantagem de ter a internet como meio e poder usá-la como “sala” de exposição, mas embora todos os artistas estejam com o mesmo destaque e apresentados como um único conjunto no website da bienal, a sua curadoria não ganhou um espaço expositivo dentre os tradicionais museus e centros culturais da cidade. Como você vê isso?

A webarte questiona também a institucionalização. Ela não precisa do museu, ela não precisa de nenhuma instituição. Tanto que mesmo na Bienal, ela está na internet. Ela faz parte em termos de divulgação, de discussão, mas é uma exposição que está online. Ela está na internet e nos espaços expositivos tradicionais, ela está espalhada em forma de QRCodes para as pessoas acessarem. Em todos os espaços da Bienal. Além disso, a gente está enviando para várias pessoas em vários lugares do mundo o link para que imprimam esse QRCode e divulguem. Em várias cidades do mundo, haverá um QRCode divulgado para as pessoas acessarem a Bienal.

Muitas dessas obras poderiam ter sido expostas de uma outra maneira, como instalações em um espaço expositivo tradicional. Isso foi pensado?

Sim, poderiam, mas elas foram pensadas para a internet. O que se pensou, em algum momento, foi disponibilizar um espaço com computadores para as pessoas acessarem dentro do espaço da Bienal. Mas por questões técnicas, isso acabou dificultado, e a curadoria geral do evento sugeriu que foi simplesmente online mesmo. E eu não discuti, porque na verdade é uma produção online, e está online. Achei que essa experiência de ela estar espalhada em QRCodes, estar no catálogo, linkada no site, em fan pages, twitter, era uma maneira de testar também esse alcance. O espaço dessa mostra é o site que se criou para ela. Porque esses trabalhos estão na rede, mas estavam esparramados na rede. Tem trabalhos como My boyfriend came back from the war, que é um clássico, de 1996, da Olina Lialina, uma das primeiras pessoas no mundo a trabalhar com webarte. E agora eles estão pela primeira vez reunidos num mesmo lugar, que é o site da webarte da Bienal de Curitiba. E o grande ganho da Bienal online é que ela está acessível a todos, de qualquer lugar do mundo. Não precisa ir até Curitiba para ver esta parte da Bienal.

Saiba mais:

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