What’s Going On: o cinquentenário da obra-prima de Marvin Gaye

Álbum divisor de águas da soul music completa 50 anos extremamente influente e atual

Ramiro Zwetsch

Publicado em: 21/05/2021

Categoria: Da Hora, Destaque, Rádio Celeste

As águas da soul music se dividiram em 1971: antes e depois de What’s Going On, obra-prima de Marvin Gaye lançada em 21 de maio de 1971 – ou seja, exatamente há 50 anos. Os anos 60 foram gloriosos e o sucesso não só lançou os holofotes em sua direção como sua imagem já estava consagrada como a de um símbolo sexual do período. A Motown fazia história como um fenômeno da indústria fonográfica que criava hits tal qual a linha de montagem das fábricas de automóvel que movimentavam a economia de Detroit, cidade norte-americana que era também a casa da gravadora. Stevie Wonder, The Jackson 5, The Temptations, The Four Tops e The Supremes eram companheiros de Gaye no elenco desta grife da música negra estadunidense. Embora nadasse de braçada no showbiz, o soulman se afundava em um oceano de crises na vida pessoal e queria surfar uma nova onda em sua carreira profissional. Além disso, um maremoto social não o deixava dormir em paz.

“Para Marvin, foi uma guerra pessoal em todos os sentidos. Deprimido, esgotado fisicamente por causa do abuso de substâncias e mais recluso depois da morte da amiga e parceira musical Tammi Terrell, What’s Going On foi a maneira de ele mostrar que estava saindo de seu casulo de cantor e sex symbol para focar na realidade do mundo sem a maquiagem de ser uma estrela da música”, observa Gilberto Porcidonio, cientista social e repórter do jornal O Globo. “A descrença com os avanços sociais também era forte, principalmente, por conta da Guerra do Vietnã, para onde os negros foram enviados para matar e morrer e que, quando voltavam, SE deparavam com o racismo e a segregação racial. Além disso, os assassinatos de Martin Luther King e Malcolm X estavam bem recentes ainda. O que Marvin fez foi criar um disco-oração, ou disco-manifesto, por dias melhores que aqueles.”

Capa de What’s Going On, e Marvin Gaye (Foto: Divulgação)

Disco de protesto
A maré, então, virou não só para o artista como para a soul music. Até então, o gênero musical se baseava muito no lançamento de singles em compactos de vinil (os disquinhos de 7 polegadas e curta duração, em geral com apenas uma música de cada lado) para tocar exaustivamente nas rádios e nas jukeboxes de bares e todos os tipos de espeluncas de beira de estrada espalhadas pelos Estados Unidos. Além disso, as letras eram predominantemente baseadas nas lágrimas e no suor das relações afetivas. Marvin Gaye rompeu com essa rota para navegar em outra direção: fez um disco de protesto e conceitual escoltado pela afiadíssima banda The Funk Brothers, em que as músicas se conectam não só pelo discurso como também por uma unidade estética – algumas faixas se emendam em uma mesma batida, em uma espécie de medley.

O álbum inundou a história da música com um mar de referências que gotejou nas obras de outros ícones do período. Já no ano seguinte, em 1972, a rainha Aretha Franklin lançou o álbum Amazing Grace com sua versão para Wholy Holy, uma das nove faixas de What’s Going On. Já Stevie Wonder lançou sua sequência de discos mais inspirados – Music of My Mind (1972), Talking Book (1972), Innervisions (1973), Fulfillingness’ First Finalle (1974) e Songs in the Key of Life (1976) – sob influência assumida do clássico de Marvin Gaye. Neste 2021, Roberta Flack, aos 84 anos, gravou uma versão surpreendente para a faixa-título do álbum de Gaye. Inner City Blues e Mercy, Mercy Me (The Ecology), uma visionária canção sobre a importância de se preservar o meio ambiente, são os outros hinos mais consagrados do álbum.

Aqui no Brasil, alguns artistas também beberam nessa fonte. “É um disco 10”, sintetiza Carlos Dafé para seLecT. “Minha música Venha (do disco De Repente, de 1983) tem influência de What’s Going On – inclusive, na contracapa do LP, o Nelson Motta escreve um texto que cita o Marvin Gaye”, completa. “Ele é um cara que acompanho desde os anos 60, eu tinha todos os discos dele e o meu preferido é What’s Going On. É um cara que me influenciou muito no jeito de cantar e também na coisa da concepção dos arranjos, de tocar vários instrumentos. É um dos meus discos de cabeceira. Quando eu escuto, fico emocionadão”, acrescenta Hyldon a seLecT. Ambos são cantores, compositores, instrumentistas e tocaram em discos de Tim Maia. Os álbuns lançados por eles nos anos 70 são considerados fundamentais para compreender o movimento Black Rio – uma cena musical que agitou o Rio de Janeiro no fim da década de 70 e fomentou o discurso do orgulho negro entre os artistas e frequentadores dos bailes.

Marvin Gaye (Foto: Divulgação)

Noticiário atual
Hyldon, inclusive, chegou a assistir a um show de seu ídolo em Nova York, em 1975. “Era um puta teatro, foi o melhor show da minha vida. Estava lotado e ainda tinha aquela onda do What’s Going On porque a música virou um hino contra a guerra do Vietnã. Tinha uma orquestra completa. De repente, surge o Marvin Gaye de dentro do palco. Ele estava escondido e foi subindo em uma espécie de elevador, todo de branco. Foi um momento mágico pra mim”, lembra o compositor, conhecido principalmente pelo sucesso Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda (Casinha de Sapê). Dafé recorda que o discurso engajado foi uma influência para os artistas da Black Rio e o movimento sofreu as consequências. “O sistema patrulhava. Havia uma onda de protestos dos negros lá nos Estados Unidos em prol dos direitos civis e o governo militar temia que a gente fizesse algo parecido aqui. No Brasil, a gente queria ter o direito de ir e vir, a gente não queria tacar fogo em nada. Muito pelo contrário: a gente queria que o país tivesse os olhos voltados para a população que é a maioria aqui, os negros.”

O legado da obra é indiscutível. No ano passado, What’s Going On foi eleito o melhor disco de todos os tempos pela revista Rolling Stone, deixando para trás os Beatles, que normalmente encabeçam essas listas. “O álbum provou, sobretudo para Berry Gordy (dono da Motown), que consciência social e música pop podiam, sim, andar juntas, e ser algo muito, mas muito lucrativo”, diz Porcidonio. “Apesar de a gravadora já ter lançado músicas com críticas sociais e políticas de forma esporádica nos anos 1960, Berry era relutante em lançar um álbum experimental e político do início ao fim – já que isso poderia acarretar facilmente na CIA batendo na porta da gravadora à procura de comunistas e/ou subversivos em uma época em que só o seu corte de cabelo já poderia indicar isso.” Gordy, inclusive, chegou a vociferar que o disco era o pior que ele já tinha ouvido. Pouco tempo depois, ele era o campeão de vendas do catálogo da Motown.

É impressionante, também, como as letras soam atuais. “Fragilidade causada pela retirada de programas sociais pelo governo, racismo, violência policial, meio ambiente degradado, descrença profunda nas instituições e na ciência, fanatismo, paranoia política… Ouvir What’s Going On hoje é como ler o noticiário atual”, observa Porcidonio. A faixa-título foi tocada em manifestações do movimento Black Lives Matter em 2020 e o estado de Michingan decretou neste ano que o 20 de janeiro é What’s Going On Day (em homenagem à data em que a gravação do single foi lançada, quatro meses antes do álbum). O filme mais recente de Spike Lee, Destacamente Blood (2019), gira em torno de soldados negros que lutaram no Vietã e não só a trilha sonora traz algumas faixas do álbum como os personagens cantam as músicas do repertório em algumas cenas. As águas da obra-prima de Marvin Gaye ainda rolam e banham não só a arte – mas também a política.

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