Wisrah Villefort: mercado livre e liberdade administrada

Perfil no Instagram replica imagens de sites de compras, refletindo irônica e criticamente sobre a dinâmica de rastreamento de dados no mundo digital

Leandro Muniz

N° Edição: 48

Publicado em: ANO 09, Nº 48, Set/Out/Nov 2020

Categoria: A Revista, Destaque, Reportagem

Reproduções das imagens postadas na conta de Instagram @ mercado_livre (entre 2019 e 2020), na qual o artista Wisrah Villefort replica imagens que circulam pelas plataformas de venda do Sul Global (Fotos: Cortesia do artista)

Desde 2017, o artista Wisrah Villefort alimenta o perfil @mercado_livre no instagram, no qual reúne prints de produtos anunciados na plataforma de vendas homônima.

Ao replicar essas imagens de objetos de consumo, o @mercado_livre coloca em questão nossa experiência com o mundo digital. Parodiando a suposta dinâmica de liberdade de um site no qual se podem comprar coisas das mais triviais às mais excêntricas, evidencia como as sugestões de interação na internet são resultado de um profundo e capilarizado processo de mapeamento de dados que se utilizam dos algoritmos para o controle social.

Na conta de quase 22 mil seguidores é possível acompanhar as mudanças de qualidade de imagem ao longo desses três anos – mais pixeladas e rebaixadas em 2017, completamente artificializadas e saturadas atualmente –, além de tendências, peculiaridades dos objetos e interesses do artista manifestados em sua seleção. É fácil perceber que os posts de peças de plástico que reproduzem partes do corpo humano ou materiais abjetos têm mais likes que aqueles que representam frutas e verduras. Também é evidente como dildos, fantasias e outros instrumentos fetichistas ganham mais atenção tanto nas curtidas quanto nos comentários, entre a polêmica, o humor e o conservadorismo.

Em um dos posts vemos o print screen da foto de um objeto de plástico em forma de pássaro que, na verdade, é um vibrador. O que está em jogo aqui é uma série de camadas de mediação que são, elas mesmas, o material do trabalho. Muitos desses itens têm um aspecto e uma paleta de cores infantilizadas, ao mesmo tempo que há uma forte carga sexual. Alguns têm finalidades esdrúxulas e surpreendem por sua inventividade formal. Villefort usa as diversas “representações de representações” que compõem a circulação de imagens na internet como matérias e linguagens do trabalho, produzindo um perfil no Instagram que discute criticamente o próprio meio.

“Só uso imagens de plataformas de vendas do Sul Global, mas elas reproduzem a performatividade da branquitude”, diz Villefort à seLecT. Ao escolher tratar apenas das ferramentas da porção do globo oprimida histórica e economicamente, e constatar o quanto elas reencenam uma performatividade da branquitude, Villefort traz à superfície como o soft power está na administração e no controle não apenas de grandes acontecimentos políticos e sociais, mas também na esfera mais enraizada e subjetiva da vida cotidiana, como os gostos e os desejos. Vale pensar ainda que a branquitude de que o artista fala nos remete não apenas a uma supremacia das representações de corpos, mas também a hábitos e formas de sociabilidade que foram muito descritos na arte pop, como um antecedente histórico do processo que vemos em curso hoje. O consumo acelerado, as cores sintéticas e vibrantes e os materiais plásticos, entre outras características presentes no projeto @mercado_livre, já estavam anunciados naquelas obras e foram radicalizados agora, em um contexto em que a padronização de comportamentos se dá pela possibilidade de alcance nas redes e pela capacidade de mobilizar a interação de outros usuários.

O PESO DAS IMAGENS
Muito da discussão sobre trabalhos de arte em plataformas digitais passa por um debate sobre que tipo de experiência fenomenológica esses projetos propiciam. Sabemos que boa parte da história da arte se fez em processos de expansão dos materiais e procedimentos artísticos, como ao incorporar objetos da vida cotidiana, em um movimento autorreflexivo a respeito dos limites e das potencialidades do campo artístico. Não seria diferente com o Instagram, a internet e as telas de smartphones que mediam e modelam a nossa vida atualmente.

No trabalho de Villefort, percebe-se como a luminosidade das telas é uma característica fundamental. “O fóton é matéria e as imagens são objetos que não apenas representam, mas atuam ativamente na vida”, diz o artista. Coincidentemente, são esses fótons e sua quantidade mínima de matéria que unem quase todos no globo atualmente, para além dos limites físicos do espaço.

As imagens digitais também têm características intrínsecas ao regime de controle de dados e rastreamento algorítmico que sustenta o atual estatuto da economia e da política, naquilo que o sociólogo Manuel Castells chamou de “capitalismo informacional”. No artigo Proxy Politics: Signal and Noise, a artista Hito Steyerl explica como as câmeras de smartphones capturam basicamente ruídos e como a imagem que vemos é gerada por algoritmos que escaneiam os nossos bancos de dados, em busca de padrões que possam formar as imagens compostas nas telas. A participação nas redes é uma forma de alimentação dessas ferramentas de rastreamento.

Hoje, a produção e o reconhecimento das imagens, ou os resultados das ferramentas de busca e navegação, dão-se de modo relacional, pelo rastreamento de contextos e interesses. Considerando que essas ferramentas estão em conformidade com o pensamento científico e com as demandas corporativas das redes sociais, seus limites de compreensão trazem embarcados problemas sociais como o racismo algorítmico, o controle da distribuição de atenção e a posse de dados. Steyerl – assim como o projeto de Villefort – demonstra que essas estruturas configuram todo um modo de percepção, ação e interação entre as pessoas e são resultado de políticas e dinâmicas de poder. As tecnologias têm histórias e, num mundo mediado e regulado por imagens, discuti-las é um problema político.

O @mercado_livre de Villefort identifica os limites de seus aparatos, tanto da plataforma de compras quanto do próprio Instagram. Reconhece também, com toda ambiguidade ideológica e complexidade de pensamento crítico, o fascínio que as formas e as cores desses produtos exercem na percepção, transitando entre a euforia de alguns dos comentários e a anestesia dos usuários que passam batidos por mais uma página no Instagram.

As imagens e sua circulação pelas redes sociais são componentes transformadores da subjetividade, das relações sociais e da política. Sabemos que as eleições de Jair Bolsonaro e de Donald Trump foram baseadas nos disparos em massa de fake news e como seus (des)governos são ancorados nas performances de virilidade, xenofobia e racismos diversos. Os algoritmos e seus usos para fins de controle nos mostram o que queremos ver e ouvir e sugerem o que já imaginamos saber, em uma restrição da verificação de dados ou da abertura para o desconhecido. Esses problemas não são o pano de fundo, mas a própria matéria do trabalho de Villefort.

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