Ximena Garrido-Lecca: Memórias do cobre e da terra

Artista peruana inaugura exposições da 34ª Bienal de São Paulo com obras que confrontam técnicas ancestrais e produção industrial

Paula Alzugaray

Publicado em: 19/12/2019

Categoria: A Revista, Destaque, Portfólio

Still do vídeo Líneas de Divergencia (2018) em cartaz até 2/2/2020 na 21a Bienal de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil (Foto: Divulgação)

Nos debates sobre a existência de uma especificidade aos países latino-americanos, a desigualdade é o que nos aproxima. Além de obtusos índices de desigualdade, compartilhamos processos acelerados de modernização econômica, planos de crescimento não sustentáveis, sonhos fracassados de “progresso e desenvolvimento” e concentração de poder político e econômico no âmbito das elites. Entre os três projetos inaugurais da 34ª Bienal de São Paulo, em fevereiro de 2020, a exposição individual de Ximena Garrido-Lecca é uma ocasião para meditar sobre esse estado das coisas.

Planta – composición I (2018) de Ximena Garrido-Lecca (Foto: Juan Pablo Murrugarra)

Nascida em Lima, no Peru, em 1980, Ximena Garrido-Lecca vive entre Lima e a Cidade do México. Sua obra instalativa, escultórica e audiovisual defende o uso de técnicas ancestrais (como a cerâmica e a tecelagem) como forma de resistência a uma abstração civilizatória que a tudo uniformiza.

O cobre é meio e mensagem de seu trabalho. O mais precioso asset da economia peruana é cooptado pela obra da artista a promover uma reflexão acerca da precarização do trabalho em contraste aos processos de modernização do país e da subtração da pluralidade de existências e hábitos das populações locais. O metal insere-se ainda em uma discussão sobre o colonialismo econômico a que o Peru permanece submetido, na medida em que exporta matéria-prima para depois importar o produto de consumo industrializado.

A obra de Ximena discute esses estados da matéria. Na instalação Estados Nativos (2017), ela promove o retorno do cobre industrializado ao seu estado orgânico, em um ato de reapropriação da riqueza natural e também em crítica às mineradoras que se multiplicaram em toda a América Latina, a partir dos anos 1990, gerando crimes ambientais que conhecemos tão bem no Brasil.

Na mais recente série de trabalhos, Reveberations/ Intersections/ Transmutations (2018-2019), a artista apresenta uma coleção de objetos híbridos, em que tubos e chapas de cobre industrializado são articulados a esculturas de cobre fundido e outras matérias processadas artesanalmente. Às vezes intitulados “organismos”, esses objetos gerados a partir do embate entre dois impulsos contrários poderiam estar associados ainda a forças divergentes de caos e ordem, ou apolíneas e dionisíacas.

Reverberación #1 (2018) de Ximena Garrido-Lecca (Foto: Divulgação)

O tensionamento entre os diferentes estados da matéria é um procedimento que se renova no trabalho da artista desde que ela começou a trabalhar com o cobre, em 2013, construindo instalações em forma de tramas ou sistemas. A série Aleaciones con Memoria de Forma (2014-2019), por exemplo, é uma espécie de memorial das manifestações culturais ancestrais e de formas tradicionais de trabalho no Peru. A partir de uma investigação sobre uma mina de cobre e as tradições tecelãs da cidade de Cerro de Pasco, nas encostas andinas, a artista desenvolveu uma coleção de itens com cabos, tubos e arames de cobre tecidos.

O mesmo princípio das redes tramadas no embate entre forças divergentes também se aplica a Destilaciones (2014), instalação formada por um conjunto de vasos conectados por tubulação metálica. O trabalho, que evoca o desenho de um purificador de óleo, foi realizado como um comentário crítico ao processo exploratório e extrativista de petróleo na cidade litorânea de Lobitos, no norte do Peru.

Ralíneamiento III (2018) de Ximena Garrido-Lecca (Foto: Divulgação)

Devolver terra à terra
Para quem não é familiar ao corpo de pesquisa de Ximena Garrido-Lecca, o olhar mecânico produzido pelo voo aéreo no vídeo Lines of Divergence (2018) parece documentar uma intervenção artística sobre terreno desértico. Mas, ao contrário do que poderia ser interpretado como uma herança da land art, o trabalho que está em exibição na 21ª Bienal de Arte Contemporânea Sesc Videobrasil, até 2/2/20, é fruto da observação e do registro de um processo de ocupação de terras na periferia da cidade de Lima, por camponeses da região andina. Trata-se aqui de outro efeito de um processo de modernização tipicamente latino-americano, que priorizou as cidades e as indústrias em detrimento da agricultura familiar.

Em dinâmicas similares às que levaram famílias do Nordeste do Brasil às periferias de São Paulo e do Rio ao longo na segunda metade do século 20, o fluxo migratório dos Andes para o litoral peruano acontece desde os anos 1950. “Levando em consideração as diferentes formas de colonialismo que afeta essa região, as ‘invasões’ de terras ainda representam uma potente força de oposição, desejando abrir novos espaços de integração e caminhos potenciais para a democracia. No entanto, esse processo permanece incipiente e incerto, mesmo após seis anos de luta”, afirma Ximena.

Still do vídeo Líneas de Divergencia (2018) em cartaz até 2/2/2020 na 21a Bienal de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil (Foto: Divulgação)

O vídeo documenta a última fase de invasões de terras desérticas do município de Pucusana, no litoral. As marcas de cal demarcam as terras já registradas. Ao longo do tempo, essas estruturas adquirem formas mais permanentes, com cercas de bambu, madeira, tijolo ou concreto. Referindo-se a esses outros estágios da posse da terra, a série Lines of Divergence elabora também esculturas de cobre fundido que remetem às cercas; e tapetes tecidos com fitas de cobre, que reelaboram as tradições esquecidas.

Se buscarmos parentescos em outras regiões do continente, mais que dialogar com uma herança do minimalismo norte-americano, travando uma relação com o ambiente natural, percebe-se nessa obra a qualidade de um engajamento com movimentos de transformação social. Nesse sentido, ela opera em dimensões mais próximas às conceituações da arte ambiental praticada por Hélio Oiticica, nos EUA e no Brasil, nos anos 1970. Um salto temporal e geográfico aproximaria obras como Lines of Divergence e Estados Nativos ao Contra Bólide Devolver Terra à Terra (1979), que deslocava terra preta de um lugar para outro, colocando-a numa fôrma sem fundo, em gesto que demarcava a oposição de HO aos earth works norte-americanos. Em rituais de reconduzir o cobre industrial ao cobre natural, a obra de Ximena Garrido-Lecca também vem devolver a terra à terra.

Red Atarraya (2017) da série Aleaciones Con Memoria De Forma de Ximena Garrido-Lecca (Foto: Divulgação)

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