Zona nebulosa

Diretora teatral Lola Arias embaralha os limites entre ficção e realidade e torna-se, à sua revelia, personagem do filme The Square

Mariana Marinho
Cena da peça Campo Minado, sobre a Guerra das Malvinas, derivada de uma videoinstalação da também diretora Lola Arias (Foto: Sofia Medici)

Lola Arias (Foto: Catalina Bartolome)

As fronteiras entre o ficcional e o real são cruzadas e borradas nos espetáculos e performances da argentina Lola Arias. Pessoas da vida real vão para a cena e suas narrativas são contadas em um palco que preza pelo intercâmbio de linguagens artísticas, vindas não apenas do teatro, mas das artes visuais, da música e da dança.

Em seu trabalho mais recente, Campo Minado (2016), três argentinos e três ingleses que participaram da Guerra das Malvinas (1982) investigam o que permaneceu em suas mentes após 36 anos do conflito armado entre a Argentina e o Reino Unido. É uma espécie de conferência performática. A peça, que surgiu de uma videoinstalação criada pela escritora, diretora teatral e performer, chega à capital paulista em março (1º a 4/3, no Teatro do Sesi-SP) como parte das atrações da 5ª edição da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp). Nesse período, Arias também dá um workshop no qual os participantes são convidados a propor e organizar trajetórias em torno de documentos materiais e simbólicos.

“O que mais me interessa em Campo Minado é trabalhar com pessoas em desacordo. Ou seja, desenvolver um projeto que implicava uma colaboração artística, mas sem querer convencer os ingleses de que as Malvinas são argentinas, e os argentinos de que as Malvinas são inglesas”, conta a diretora, que já apresentou no Brasil Melancolia y Manifestaciones (2015), Mi Vida Después (2013) e Chácara Paraíso (2008).

Há cerca de 15 anos trafegando por barreiras e interseções entre a ficção e a realidade, como neste projeto, a artista viu-se forçada a lidar com questões desse terreno de outra forma, ao ter seu nome utilizado no filme The Square. Sem ter autorizado, Lola Arias é citada como a suposta autora da obra que dá título ao longa do cineasta sueco Ruben Östlund, vencedor da Palma de Ouro em Cannes 2017. A trama aborda aspectos da arte contemporânea, de seu circuito restrito e das contradições de suas instituições, entre outros temas.

Em entrevista à seLecT, Lola Arias fala sobre o processo criativo da performance Campo Minado, a respeito de The Square e dos limites da arte.

Como iniciou a criação de Campo Minado?
Teve início em 2013 como uma videoinstalação sobre as recordações de veteranos argentinos da Guerra das Malvinas. Ela consistia em cinco vídeos, nos quais cada um deles reconstruía uma história do conflito armado nos lugares onde vivem e trabalham hoje. Porque 70% dos homens que foram à Guerra das Malvinas, em 1982, não eram profissionais militares. Ou seja, foram para a guerra com 18 anos e depois seguiram suas vidas. Me interessava ver como eles reconstruíram suas histórias. Então fui, por exemplo, com um psiquiatra ao local onde ele atende e com um cantor de ópera ao teatro. E aí me surgiu a pergunta: como viveram os ingleses com os efeitos da guerra? Foi quando tive a ideia de fazer uma obra na qual argentinos e ingleses, juntos, reconstruiriam suas memórias da guerra. Comecei, então, um grande processo de investigação e de audições em Buenos Aires e Londres. Após a seleção, vieram os ensaios e, paralelamente, comecei a gravar tudo para fazer um filme, que estreia em fevereiro.

Cena da peça Campo Minado (Foto: Sofia Medici)

 

Você costuma trabalhar com não atores em suas performances. Mas como foi lidar com pessoas com visões tão diferentes sobre um assunto histórico?
Essa é uma das coisas que mais me interessam: como trabalhar e conviver no dissenso e no desacordo e como criar laços que permitam refletir sobre um determinado tema. No caso de Campo Minado, havia questões culturais, como o idioma, e o desafio de criar uma ponte entre eles (ingleses e argentinos). Os conflitos mais fortes durante toda a criação da obra tiveram relação com a responsabilidade que cada um sentia com os mortos (na guerra). Os ingleses tinham medo de ser uma obra argentina, no sentido de não falar do sentimento e da perda dos ingleses, e os argentinos tinham medo que fosse uma obra conciliadora, o que significaria abrir mão da reivindicação pelas Ilhas Malvinas. E para mim foi interessante ver que nenhuma dessas visões estava no centro do projeto: o que eu queria era compartilhar e discutir todas essas questões. E, claro, durante os ensaios houve momentos de perplexidade, de angústia. Foi um processo muito intenso. E, para muitos deles, funcionou como ponto de virada, como forma de aprender a ver suas próprias histórias com distância e de poder escutar o outro sem ódio, rancor e medo.

O que mais te interessava nos depoimentos deles?
Todos viveram histórias muito radicais. O mais interessante foi como encontrar uma forma de contá-las sem que fosse algo doloroso e traumático. Isso foi o mais desafiador. Durante o processo, eles acabaram formando uma banda – tanto que tocam ao vivo em cena – e fizeram juntos uma canção que relaciona o que eles queriam dizer.

Cena da peça Campo Minado (Foto: Sofia Medici)

 

Assim como em outros trabalhos, Campo Minado transita entre ficção e realidade. Recentemente, você se viu envolvida em uma situação com o filme The Square, que lida com esses limites. Como foi isso?
Fui convidada para atuar no filme, mas para interpretar a personagem Natalia, que era a autora da obra The Square. Depois o diretor mudou de ideia e decidiu que eu apareceria no filme por meio de uma conversa via Skype, mas sempre como Natalia. Nós gravamos, mas ele não utilizou as cenas, algo que ele tem todo direito como diretor. Mas o que ele não poderia fazer era utilizar meu nome sem me falar. Porque isso nunca tinha sido parte do acordo. Basicamente, temos um problema legal, porque ele foi contra meus direitos pessoais e de copyright. Ele não pode, deliberadamente, me atribuir a realização de uma obra que não existe sem pedir minha autorização.

O filme, entre outros temas, justamente aborda os limites da arte. Para você há limites?
O diretor de The Square faz comigo o mesmo que o protagonista do filme faz com o garoto. No sentido de que, assim como o menino é acusado do roubo de um celular que não cometeu, a mim atribuem uma obra que não fiz. E nunca me pediram desculpas. Enquanto artistas, creio que temos de pensar a respeito da responsabilidade sobre os outros. Eu, que trabalho há quase 15 anos no terreno documental, sei que cada vez que lido com uma pessoa, com seu nome, com sua biografia, com sua história e com seu corpo, há uma responsabilidade muito grande sobre isso. E que cada decisão que se toma sobre algo que tem a ver com a vida, com o nome dessa pessoa, tem de ser criado em colaboração com ela ou com ela estando de acordo. Essa é a parte mais difícil, pois implica um monte de discussões até chegar a um consenso sobre como contar a vida real. Creio que, quando alguém decide usar algo de outro (sua história, seu nome, sua obra) sem pedir a autorização e sem consultar a opinião do outro, é um ato de autoritarismo. E, nesse caso, de machismo e colonialismo. Decidir usar algo de uma artista mulher latino-americana pensando que não vai ter consequências.

A obra The Square, que dá título ao filme de Ruben Östlund (Foto: Divulgação)

Então como trabalhar com ficção e realidade dentro de limites tão borrados? Por exemplo, fake news foi nomeada a “palavra do ano”, em 2017, pelo dicionário da editora britânica Collins.
Estamos expostos a um enorme fluxo de informação que não nos permite tomar uma distância crítica sobre algo. Acho que o desafio de quem faz um trabalho artístico é criar um espaço de reflexão. Usar, por exemplo, o teatro como esse espaço de reunião e de encontro, não apenas entre os ingleses e os argentinos, mas também entre a sociedade e o tema. Poder criar um espaço onde um coletivo se junta para pensar sobre algo. Isso é também a função da arte: produzir essa espécie de espaço vazio de internet e de sobreinformação para gerar uma espécie de calma que nos permita pensar, compartilhar e poder estar disponíveis no sentido de ter empatia. 

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