Pensar fora da caixa

Em meio à pior recessão da história do País, dois empreendedores apostam no mercado de arte e criam novos espaços e modelos de negócios

Paula Alzugaray
Szwarcwald no Z42: espaço voltado para a formação de público (Foto: Daniela Dacorso)
Szwarcwald no Z42: espaço voltado para a formação de público (Foto: Daniela Dacorso)

Fabio Szwarcwald

Colecionador carioca investe no estímulo ao colecionismo e na busca de artistas em lugares onde o mercado não chega

*Perfil publicado antes de ser anunciado que Fabio Szwarcwald assumiria a direção da Escola de Artes Visuais do Parque Lage (EAV). Saiba mais.

Com 20 anos de praia no mercado financeiro, o carioca Fabio Szwarcwald, 44, hoje tem os dois pés no mercado da arte. Há meses deixou uma carreira bem-sucedida no banco Credit Suisse para investir em novas ideias. “Querer ser feliz na vida não é uma decisão ‘lógica’. Mas acho que este é um mercado em que, sim, existem muitas oportunidades. E não necessariamente só para galeristas, artistas e curadores”, diz Szwarcwald à seLecT. O desafio que ele se autoimpôs é entrar nesse mercado de cartas marcadas, criando e propondo novos papéis para o grande enredo da arte contemporânea. “Gosto desses desafios”, diz Szwarcwald, que é colecionador de arte contemporânea desde 2002 e dono de um acervo de cerca de 350 peças.

O primeiro passo da nova persona de Szwarcwald é a coordenação curatorial da Z42 Arte, inaugurada em setembro de 2016 em uma casa de 1930, no bairro do Cosme Velho, no Rio. O projeto é original: organizar quatro exposições anuais, com artistas de outros estados do Brasil, mostrando aos colecionadores, artistas e curadores locais o que está acontecendo no cenário de arte fora do Rio de Janeiro. Com 1,5 mil metros quadrados, cinco salas expositivas e salas para ateliês, a casa tem espaço de sobra para a acolhida de um programa de residências de peso para artistas de todo o País.

A sustentabilidade da Z42 virá com a porcentagem na venda de trabalhos expostos. “Qual é o meu risco? Não vender os trabalhos. Mas não tenho dúvida de que vou encontrar produção artística de muita qualidade. Falta essa garimpagem aqui. São Paulo tem muito mais essa característica. Como existem muitas galerias, elas sempre têm de trazer novidades de fora. As galerias do Rio fazem menos esse trabalho, pegam artistas que já estão bombando em SP… Então, estarei prestando um serviço para as galerias daqui”, explica.

Cursos, palestras e encontros com artistas completam a grade de atividades voltadas para crianças, adolescentes e para colecionadores iniciantes e ávidos não apenas por informações de qualidade, mas por “pertencer” e interagir com o mundo da arte.

Há cinco anos Szwarcwald trabalha nessa direção de estímulo ao colecionismo. O espírito empreendedor revelou-se ao se engajar na produção de edições limitadas de obras em grande formato, a preços acessíveis para colecionadores em início de carreira. No dia a dia do Projeto Aurarte, Szwarcwald estreitou laços com artistas, instituições e aprofundou saberes nesse campo que hoje assume a linha de frente em suas prioridades. Vice-presidente do Conselho da EAV Parque Lage, ele também é membro do comitê de aquisições do MAM-RJ, da comissão de seleção do Prêmio PIPA e do International Leadership Council do New Museum, de Nova York.

Do mercado em que atuou por duas décadas trouxe a avidez pela pesquisa. E aplica os mesmos princípios ao mercado da arte. “O financeiro e o artístico são dois mercados em que as pessoas têm de estudar, se preparar, se informar bem, pegar pessoas para auxiliar. Não ir com a cara e a coragem.” É para essa formação que ele agora se volta. “Tenho confiança de que meus projetos vão dar certo, porque a arte brasileira tem uma qualidade muito grande.”

Intervenção de Lydia Okumura no espaço auroras e seu diretor, Ricardo Kugelmas, vestindo camiseta com desenho de Alvaro Seixas

Intervenção de Lydia Okumura no espaço auroras e seu diretor, Ricardo Kugelmas, vestindo camiseta com desenho de Alvaro Seixas

 

Ricardo Kugelmas

Diretor do Espaço auroras trabalha sob o ponto de vista do artista

Lydia Okumura foi a primeira artista brasileira a apresentar seu trabalho no Metropolitan Museum of Art, em Nova York, em 1978. Entre os anos 1970 e 1980, participou de quatro edições da Bienal de São Paulo, mas, desde então, teve pouquíssimas chances de apresentar seu trabalho no Brasil. Okumura vive em Nova York desde 1974, e em fevereiro esteve em São Paulo para individual na Galeria Jaqueline Martins e a montagem de uma instalação. Em cartaz até 19/3, o site specific foi realizado em diálogo com a arquitetura modernista da casa no Morumbi, em São Paulo, que sedia o auroras, project space dirigido por Ricardo Kugelmas, 38.

O auroras foi inaugurado em 2016 com a mostra Pequenas Pinturas. Kugelmas acabava de voltar de Nova York, onde trabalhou como studio manager do artista Francesco Clemente, um dos ícones máximos da Transvanguarda italiana. Antes, havia cursado Direito e trabalhado em São Paulo numa gestora de recursos. “Fui para NY achando que ia ficar dois anos e fiquei dez. Conviver 24 horas por dia com arte foi uma experiência transformadora para mim”, diz Kugelmas para seLecT. O administrador do ateliê de Clemente fazia de tudo: relacionamento com galeristas, curadores, editores das publicações. “Eu defendia o lado do artista e peguei uma visão global do ponto de vista de seus interesses.”

O know-how adquirido é aplicado ao auroras, que nasceu de conversas com artistas. “Cheguei em São Paulo em 6 de junho, dia em que o Tunga morreu. Eu conversava muito com o Tunga, ele achava que era absurdo uma cidade de 20 milhões de habitantes ter tão poucos espaços alternativos de arte. Entendi que tenho mais coisas para fazer aqui do que lá.”

O auroras é um espaço independente, voltado para a elaboração de projetos de caráter singular que não são frequentemente abrigados em galerias ou instituições. A principal diferença entre um espaço de projetos e uma galeria é o fato de não representar artistas. “A galeria virou hoje um business com um custo fixo muito alto, que requer muito dinheiro. Fazer cinco feiras por ano, livros, ter folha de pagamento de funcionários CLT… Fazer uma galeria direito custa muito caro. Você fica obrigado a vender um xis por mês, para não ter prejuízo. Um espaço que custa R$ 500 mil por mês não pode fazer uma exposição do desenhos do Alvaro Seixas. Não fecha a conta”, diz.

Não entrar no esquema comercial – embora comercialize obras para pagar os custos do espaço – lhe garante um pouco mais de liberdade. “Posso me dar ao luxo de, por exemplo, mostrar papel, que no Brasil é muito desvalorizado. Se eu fizer uma exposição e vender dez desenhos de R$ 2 mil, tudo bem. Eu sobrevivo. Se o espaço for autossuficiente, estou feliz.” Vídeo, performance, site specifics, intervenções, música e dança estão entre os projetos que orbitam as ideias de Ricardo Kugelmas.

Mas, se a função do auroras não é ganhar muito dinheiro, ele completa a receita fazendo consultorias para a formação de coleções particulares. E destaca os impostos sobre arte como o maior empecilho para a formação de coleções importantes no Brasil. Se considerarmos que a origem das mais substanciais coleções públicas dos EUA ou da Europa foram um dia coleções privadas, conclui-se que estamos muito longe do páreo. “Os EUA tinham um imposto de importação, antes da Primeira Guerra Mundial. Entre as guerras, com a Europa arrasada, os mega-tycoons americanos, Rockefellers, JP Morgans, compraram tesouros, coleções impressionistas, old masters, tudo. Então o governo americano se tocou e colocou imposto zero! Coisa boa deixa entrar! Vieram navios. Tudo está hoje no Metropolitan, no MoMA, no Philadelfia Museum, no Cleveland.”

“No Brasil está tudo errado: com 55% de taxas de importação, não querem que entrem obras de arte. Ou o colecionador deixa no apartamento dele na 5ª Avenida ou traz escondido. Nunca vai doar para museu. Não há incentivo para doação, não se facilita nada em nenhuma instância. E o Brasil paga um preço por ter o maior imposto sobre arte do mundo.”

Ricardo Kugelmas ressalta que não tem a pretensão de sanar as lacunas do sistema institucional brasileiro. “Eu já sabia que sair de NY para fazer um project space no Brasil seria uma encrenca.” Mas isso não o impede de arregaçar as mangas e ter muitas ideias para virar o jogo – seja pensando em estratégias de políticas públicas ou imaginando todas as casas abandonadas do Morumbi ocupadas por espaços de arte. “As pessoas têm de começar a pensar fora da caixa”, ri.

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