Diálogos sobre afrobrasilidade com Nádia Taquary e Ayrson Heráclito

Os dois artistas baianos apresentam juntos exposição na paulistana Leme/AD, em parceria com a Paulo Darzé Galeria, de Salvador

Luana Fortes
Vista da exposição Nádia Taquary e Ayrson Heráclito na Leme/AD (Foto: Filipe Berndt)

Ayrson Heráclito e Nádia Taquary já participaram de muitas exposições coletivas juntos. Histórias Afro-Atlânticas no Masp e Instituto Tomie Ohtake, Do Valongo à Favela no MAR… Mas até agora nunca tiveram a oportunidade de exibir trabalhos só os dois. Foi a partir de uma parceria entre a galeria que os representa na Bahia Paulo Darzé Galeria com a paulistana Leme/AD que os dois artistas puderam salientar os elos que unem suas poéticas. “O trabalho do Ayrson dialoga com o meu em diversos níveis, tanto político, sobre nossas questões contemporâneas, como também espiritual e religioso”, diz Taquary à seLecT.

Baianos, os dois se conheceram quando Taquary planejava sua pesquisa de pós-graduação em Belas Artes, que acabou acontecendo apenas extra-oficialmente, e indicaram Heráclito para ser o orientador de seu projeto. Por motivos pessoais, a artista precisou abandonar aquela pesquisa acadêmica, mas não a relação de orientação com aquele que a partir daí acompanharia toda sua produção. “Ele passou a ser um orientador mesmo sem nunca ter sido. Minha trajetória toda tem Ayrson como orientador”, conta. Foi ele quem fez a curadoria de sua individual no Museu de Arte da Bahia em 2012 e também uma entrevista com Taquary para a edição #36 da seLecT. Agora, a relação que teve início com uma lógica de mentoria e acompanhamento transformou-se em uma de cumplicidade e parceria. 

A exposição na Leme/AD naturalmente ilumina aquilo que um trabalho pode potencializar no outro. Ambos os artistas tratam de repensar elementos históricos do período colonial e escravocrata brasileiro, mas com abordagens distintas e complementares. 

Heráclito exibe três trabalhos marcantes de sua trajetória. A instalação Segredos Internos, feita primeiramente na década de 1990 e remontada em 2000, é exposta pela primeira vez em São Paulo. Síntese de sua pesquisa de mestrado, o trabalho representa de forma alegórica o momento em que a família real portuguesa foge para o Brasil das tropas napoleônicas, com ajuda da frota inglesa, e abre os portos às nações amigas. “É uma referência visual da leitura de [Alfredo] Bosi. Ele acredita que os nossos segredos internos, assim como eu também creio, começaram a ser revelados no momento em que duas ordens adversas no Brasil entram em disputa – a ordem da nobreza portuguesa e a ordem da burguesia inglesa, a máquina mercantil”, afirma à seLecT Heráclito. “É justamente nesse momento que toda essa dramaturgia do que nos constitui como brasileiros começa a se formar. É um marco que também vai definir o fim da escravatura”. 

A instalação representa esse momento simbólico a partir da relação entre um barco de madeira e a estrutura de uma casa de purgar, que era o local do engenho onde se fazia o pão de açúcar (forma escultórica que combina açúcar branco, mascavo e barreado, de onde se tirou o nome para o ponto turístico carioca). Nessa réplica da estrutura da casa de purgar construída para o trabalho também há três gavetas com os tipos de açúcar produzidos em uma ordem representativa das lógicas sociais da época. “Eu usei as caras de pão de açúcar para pensar a estratificação social no Brasil”, diz o artista. A gaveta mais alta é tomada pelo açúcar branco, que era despachado para a clientela portuguesa na Europa. A intermediária traz o mascavo, consumido pelos senhores de engenho. E a mais baixa, relativa ao que era dado aos escravizados, tem açúcar barreado, ou seja, a parte do pão de açúcar que acabava misturada com barro.

  • Vista da exposição Nádia Taquary e Ayrson Heráclito na Leme/AD (Foto: Filipe Berndt)
  • Vista da exposição Nádia Taquary e Ayrson Heráclito na Leme/AD (Foto: Filipe Berndt)
  • Vista da exposição Nádia Taquary e Ayrson Heráclito na Leme/AD (Foto: Filipe Berndt)
  • Vista da exposição Nádia Taquary e Ayrson Heráclito na Leme/AD (Foto: Filipe Berndt)

Heráclito também exibe dois dípticos de fotografia da série Sacudimento, feita em 2015, mas projetada 15 anos antes. “São duas performances, a da Bahia e a de Goré, que eu fiz em dois lugares que foram definitivos para a colonização e o escravismo”, conta o artista. Heráclito, que é também ogan de terreiro de Candomblé, fez com a ajuda de outros ogans e sacerdotes a limpeza da casa dos escravos na ilha de Goré, de onde saíram muitos escravizados africanos em navios para a América, e na casa da torre em Salvador, onde chegavam grande parte desses navios. “A ideia era unir as duas margens do Atlântico – essas margens que foram separadas e ao mesmo tempo unidas pela escravidão – com um ritual de cura, de limpeza e de transmutação”. 

Completa a seleção de Heráclito a série Desenhos da Liberdade, em que usa cartas de alforria de um arquivo que está na Universidade Estadual de Feira de Santana na Bahia e faz sobre elas desenhos em que fabula sobre os rostos e características de cada uma dessas pessoas que conquistaram sua liberdade. Esse trabalho dialoga intrinsecamente com as obras de uma das primeiras fases da produção artística de Nádia Taquary, representadas na exposição, em que ela começou a investigar a simbologia de pencas de balangandãs que eram usadas como pecúlio por negras alforriadas. “Os balangandãs e as cartas de alforria são praticamente irmãos gêmeos”, diz Taquary. 

A artista mostra também o conjunto Dinka (2018-2019), seu trabalho mais recente, em que se debruça sobre o Panteon dos Orixás a partir de leituras particulares sobre o sagrado e sua relação com cada orixá através do elemento cor. 

A pesquisa de Taquary foi motivada por lembranças de sua infância. Em datas comemorativas, costumava ganhar do pai joias crioulas e notava o quanto elas eram diferentes das que via em outras crianças. “Quando eu cresço e tenho contato com essa joalheria afro-brasileira por meio de pesquisas, eu passo a me interessar e percebo que o que existe hoje dessa joalheria na Bahia é um eco do que ela foi. É uma joalheria esvaziada de seu significado, que não dialoga com o que ela representou”, pondera Taquary. “Foi nesse momento que eu resolvo fazer uma peça para mim mesma e agigantar essa joalheria, porque eu queria muito que me perguntassem: o que é isso? E eu pudesse contar: Isso é uma coisa que você conhece bem, mas que talvez a gente precise saber mais sobre”. 

Serviço
Nádia Taquary e Ayrson Heráclito
Galeria Leme/AD
Av. Valdemar Ferreira, 130 – São Paulo
Até 3/8
galerialemead.com 

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